terça-feira, 22 de novembro de 2022

Sobre esse tal "MERCADO"

novembro 22, 2022

 

 

 O mercado parece um deus. Ele é incontrolável e manda na vida de bilhões de pessoas. Fica triste, calado ou nervoso, às vezes é vingativo, mas, no fim de tudo, só quer o nosso bem. Numa perspectiva mais refinada, que é vendida por professores liberais, instituições financeiras, grandes empresas de comunicação, organizações como o Movimento Brasil Livre (MBL) ou ideologias como o anarcocapitalismo, o “livre mercado” é o princípio básico da vida feliz em sociedade.

Segundo essa ideologia o mercado precisa ser livre. Então, quando qualquer governo tenta interferir para impor o que os participantes do mercado podem ou não fazer, os recursos são impossibilitados de circular para a sua utilização mais eficaz. Se os indivíduos não podem fazer as coisas que consideram mais lucrativas, elas perdem o isentivo de investir e inovar... e a sociedade entra em decadência.

Segundo o Jornal Folha de São Paulo, um dos representantes desse tal mercado livre:

 

O presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), propõe aumento da inflação e dos juros, menos emprego e crescimento econômico, mais ganhos para os rentistas. Esses seriam os efeitos práticos e prováveis da proposta petista para a expansão incondicional do gasto público, enfim apresentada ao Congresso na quarta-feira (16)[1].

 

Segundo essa narrativa, o mercado não quer romper com o “teto de gastos”. Combater a fome e ter uma política contra a miséria. Investir na saúde e educação públicas significa uma expansão incondicional do gasto público.

Agora, a hora da verdade. A identidade secreta do mercado chama-se oligarquia financeira.

Segundo o conceito leninista, o capital financeiro é o conjunto do capital industrial, incluindo o agrário, e comercial fundidos ao capital bancário. O capital financeiro supera a existência isolada do capital industrial na esfera da produção, do capital comercial na esfera da circulação e do capital bancário na esfera do crédito. É a forma superior do capital no período imperialista que sucedeu a fase de livre concorrência. As três formas isoladas do capital ainda existem, mas nas margens da estrutura central que comanda o capitalismo. O núcleo do capital financeiro está concentrado nos países imperialistas sob a hegemonia econômica, política e militar dos Estados Unidos (EUA).

No Brasil, o capital financeiro se concentra num pequeno grupo de burgueses nacionais e estrangeiros, que forma a camada superior das classes dominantes, controlando todos os setores da economia. Essa oligarquia financeira detém realmente o poder: faz o Estado a sua imagem e semelhança; influência os rumos políticos do país; controla as principais instituições de hegemonia (imprensa, instituições religiosas, estrutura educacional), concentra a maior parte do mais-valor produzido pelos trabalhadores e subordina as demais frações capitalistas, tornando-as contribuintes.  

A oligarquia financeira não é a favor do “teto de gastos”. Por quê?

Simples, o “teto dos gastos” é uma limitação imposta aos gatos do governo, em particular os investimentos sociais e produtivos, para que sobre dinheiro para continuar pagando os juros da dívida pública aos grandes bancos. De fato, o capital financeiro vem abocanhado mais da metade do Orçamento Federal.

Em 2021, segundo a Auditoria Cidadã da Dívida[2], o Orçamento Federal Executado (pago) foi de R$ 3,876 trilhões, dos quais 50,78% foram pagos em juros e amortizações da dívida do Estado para bancos e especuladores, ou seja, para o parasitismo do capital financeiro.

Bem, uma imagem vale mais que mil palavras.

 


 

Frederico Costa

Professor da Universidade Estadual do Ceará – UECE e coordenador do Instituto de Estudos e Pesquisas do Movimento Operário -IMO



[1] https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2022/11/lula-pede-mais-juros.shtml

[2] https://auditoriacidada.org.br/conteudo/gasto-com-divida-publica-sem-contrapartida-quase-dobrou-de-2019-a-2021/


quinta-feira, 3 de novembro de 2022

Bolsonarismo e fascismo: paralelos históricos

novembro 03, 2022

 

 

Diferentemente do que pensam os irracionalistas pós-modernos, é possível conhecer a lógica dos processos históricos. Primeiro, porque a história é um produto da atividade dos seres humanos, que para satisfazer suas necessidades precisam constantemente transformar o mundo, ao mesmo tempo, transformando-se e se autocriando. Segundo, porque desde que surgiram as classes sociais o motor da história é a contradição entre elas, isto é, a luta de classes. Terceiro, porque é possível extrair do encadeamento da diversidade dos fenômenos históricos determinados padrões e tendências em torno dos quais gravitam singularidades que não se repetem.

Nesse sentido, pode-se compreender, numa primeira aproximação, o bolsonarismo como um movimento reacionário de massas. Sob o seu manto estão católicos tradicionalistas e conservadores, protestantes pentecostais e históricos, monarquistas, integralistas, neonazistas, militares, agentes da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e Polícia Federal (PF), membros das forças de segurança pública estaduais, artistas, milícias, políticos e diversos setores da burguesia. A ideologia bolsonarista não é coerente e sistematizada, mas gira em torno de ideias-forças como mercado, liberdade, autoridade, racismo, xenofobia, machismo, desigualdade natural e um profundo anticomunismo. Na verdade, o cerne do bolsonarismo é uma reação às conquistas progressistas da humanidade e das classes trabalhadoras como o sufrágio universal, a soberania popular e os direitos sociais.

O sufrágio universal (masculino) e direto foi sancionado pela Constituição de 24 de junho de 1793, como resultado do processo de radicalização da Revolução Francesa. Infelizmente, as turbulências da situação interna e externa, além dos avanços e recuos do processo revolucionário francês e europeu, dificultaram a efetivação desse método democrático. No entanto, essa primeira contestação radical das estruturas de poder aristocráticas, passando por cima do direito divino e da discriminação política das grandes massas, assustou as classes dominantes.

Por isso, ideólogos da burguesia liberal como Benjamin Constant (1767-1830), Alexis de Tocqueville (1805-1859) e Jonh Stuart Mill (1806-1873) apresentaram formas para restringir o sufrágio universal e a radicalização da soberania popular. O intento era limitar os direitos políticos para impedir que a população trabalhadora impusesse, no seu interesse, medidas sociais e econômicas. Daí propostas de voto censitário, eleições indiretas e exclusão de analfabetos, mulheres, pobres, pessoas de origem colonial, negros e não-proprietários do direito ao sufrágio universal. Tais mecanismos visavam neutralizar politicamente as massas populares, restringindo a luta pela redistribuição de renda e propriedade propiciada pela ampliação dos direitos democráticos para as grandes maiorias.

Com o avanço do movimento operário e a criação de partidos socialistas no século XIX as tensões aumentaram e uniram-se burguesia e latifundiários, liberais e conservadores, contra proletários e camponeses. Mas, foi em 1917, na chamada Revolução de Outubro, quando operários e camponeses, homens e mulheres trabalhadores tomaram o poder na Rússia sob a direção do Partido Comunista, que qualquer luta por liberdade e direito social foi denominada de “comunismo”.

É no período entre guerras (1918-1939) que surge a força política reacionária que ajuda a compreender o bolsonarismo atual: o fascismo. Nascido na Itália em 1919 teve seu ápice na Alemanha nazista, mas deitou raízes em vários países da Europa, da América e chegou até à Ásia. No Brasil, apresentou-se como Ação Integralista Brasileira (AIB), tendo como líder o escritor Plínio Salgado (1895-1975). Entre suas grandes lideranças estavam Gustavo Barroso (1888-1959), simpatizante do racismo nazista, e Miguel Reale (1910-2006), pai do jurista Miguel Reale Júnior, que em 2015, junto aos juristas Hélio Bicudo e Janaína Paschoal, protocolou na Câmara dos Deputados um pedido de abertura de processo de impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff, que levou ao golpe de Estado de 2016.

A experiência italiana e alemã indicaram um padrão clássico desse movimento:

 

1) o ascenso do fascismo expressou uma profunda crise social do capitalismo, cuja função histórica foi alterar pela violência as condições de reprodução do capital a favor dos grupos monopolistas;

 

2) o aprofundamento da crise social desestruturou o regime democrático-burguês, mais vantajoso para o domínio capitalista, porém a burguesia, com o acirramento da luta de classes, tendeu a instaurar formas mais centralizadas do Poder Executivo do Estado;

 

3) como existia uma imensa desproporção entre a burguesia e as classes populares (assalariados, camponeses), um Estado policial puro, em plena crise, teria dificuldades de atomizar e desmoralizar milhões de trabalhadores e suas organizações (sindicatos, partidos, cooperativas), o que levou a grande burguesia a buscar apoio num movimento de massas reacionário (fascismo/nazismo);

 

4) um amplo movimento de massas reacionário (fascistas, nazistas) foi construído com base na mobilização da pequena burguesia enraivecida pelas consequências da crise capitalista, com um conjunto de preconceitos e rancor psicológico para motivar o ataque às conquistas do movimento operário e democrático;

 

5) para o movimento fascista triunfar na Itália e na Alemanha foi preciso esmagar o movimento operário e democrático das massas populares, institucionalizando a guerra civil;

 

6)  o fascismo/nazismo vitorioso, cumpriu sua missão para com o capital financeiro que pode implementar altas taxas de exploração do trabalho, simultaneamente o movimento reacionário de massas se burocratizou, enquanto as ditaduras fascista e nazista esmagavam sua própria base de massas, perseguindo e eliminando os descontentes.

 

Guardadas as devidas proporções de tempo e espaço, além de particularidades próprias do Brasil, é possível identificar que o movimento de extrema direita bolsonarista apresenta evidentes contornos fascistas. Seu objetivo maior é aniquilar direitos sociais, conquistas populares e organizações dos trabalhadores para que, por meio de um regime policial-militar seja possível garantir um padrão de acumulação capitalista com taxas maiores de exploração. No meio dessa barbárie está o futuro governo Lula e milhões de trabalhadores e trabalhadoras que precisão romper com o ciclo da fome, da miséria, do desemprego, dos baixos salários, da precarização, da falta de moradia, da carestia, da pouca da saúde pública e da educação destruída.

Para dias melhores, o primeiro passo deve ser romper com os bloqueios físicos e políticos do bolsonarismo, isolar seus apoiadores, fortalecendo as organizações de classe e construído um projeto alternativo à barbárie fascista capitalista que apresente reformas estruturais com o apoio do movimento operário-popular.

 

Frederico Costa 

Professor da Universidade Estadual do Ceará – UECE e coordenador do Instituto de Estudos e Pesquisas do Movimento Operário – IMO

 

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

Há veredas que fortalecem o bolsonarismo

outubro 26, 2022


 

Esse texto é um breve comentário sobre a recente Newsletter do Coletivo Veredas, “As primeiras lições do pleito de 2022”[1]. O referido coletivo é um agrupamento de intelectuais, em sua maioria vinculado à universidade, que faz uma interessante atividade de reflexão teórica e de divulgação de textos clássicos, pesquisas e materiais de propaganda dentro das coordenadas do pensamento crítico ao capitalismo. Seu lema é “estudar para lutar pela emancipação humana”.

Na atual conjuntura da luta de classes, que se expressa de forma distorcida no confronto eleitoral entre a esquerda reformista (Lula) e Bolsonaro (extrema direita) o Coletivo Veredas tirou a posição de voto nulo. O que é um direito. E nisso, não estão sozinhos. Os anarquistas, o Partido Operário Revolucionário (TPOR), a TV A Comuna, o Grupo Fronteira Vermelha, a Organização Transição Socialista e grupos maoístas também gravitam entre o voto nulo e o boicote às eleições. Noutras palavras, o esquerdismo é um fenômeno típico nas margens do movimento operário.

Porém, o destaque aqui é o Coletivo Veredas, que afirma a senilidade da estratégia eleitoreira com base na crítica moral de que a “política burguesa é um campo aberto para manipulações, engodos, mentiras e conchavos inconfessáveis”. O que não é uma descoberta.

Então, “a ausência por tantas décadas de um período revolucionário faz com que a política burguesa de hoje pareça ser a única   possível”, confundindo-se “a luta para se manter o poder do capital com as características da luta para destruir este mesmo poder”.

Daí uma citação de Trotsky (de memória e fora do contexto) e um diálogo rápido com Lênin e sua obra “O esquerdismo, doença infantil do comunismo”.

Logo chega-se ao núcleo do texto sobre a impotência da “frente petista”. O início é a afirmação da prática revolucionária do Coletivo Veredas:

 

Aos revolucionários não resta alternativa: dizer a verdade, expor a essência do capital, trazer à luz do dia as razões últimas das misérias desta civilização burguesa em seu ocaso. Que o futuro não será burguês, é indiscutível: se não nos destruirmos, será porque superamos o capital em direção à uma sociedade comunista, fundada pelo trabalho associado – que nada tem a ver com cooperativas ou fábricas ocupadas, lembremos. Sempre foi assim: a força dos revolucionários, ao contrário das forças burguesas, está em sua capacidade única em expor e escancarar a essência do capital – tudo o que as ideologias conservadoras querem velar.

 

Bem, toda ideologia esquerdista se sustenta numa fé, num dogma, que justifica sua situação no mundo real, mas também exige uma esperança, uma promessa para os que perseverarem. Nisso, o Coletivo Veredas não foge ao padrão:

 

Como a existência determina a consciência, em períodos em que a sociedade burguesa se reproduz “normalmente”, as ilusões burguesas parecem mais verdadeiras do que as “verdades” revolucionárias e, então, os revolucionários ficam reduzidos a pequenos agrupamentos isolados em guetos ideológicos. Em períodos de crise, as coisas se alteram. Pois a existência também se altera [...] Nesses momentos de crise, as propostas reformistas perdem espaço e ganham a consciência das massas aquelas propostas que afirmam o óbvio: todo o sistema está podre, do Supremo ao Congresso, dos valores morais à Igreja Católica, tudo precisa ser refeito.

 

 É necessário destacar, por paradoxal que pareça, que em seu idealismo os sectários acreditam que sua consciência determina a existência. Por isso, criam uma realidade paralela, algo tipo creio e logo existe, mesmo quando não movem um dedo para mudar a realidade social, não conseguem fazer a análise concreta da situação concreta nem muito menos agir politicamente para mudar essa situação em favor da classe trabalhadora e de suas lutas também concretas.

Nessa crença quase apocalíptica, é só esperar novos tempos que nascerão da própria dinâmica da crise do mundo burguês, da crise estrutural do capital, que prepara as massas ignorantes para o fermento dos revolucionários. A semente cultivada nos pequenos grupos, que já sabiam da verdade porque não pararam de estudar, florescerá.

Dentro dessa lógica qual é o principal inimigo concreto?

Advinha: o lulopetismo. Depois, é claro, de uma exposição sobre a natureza incontrolável do capital e da tendência do reformismo de ir sempre à direita. O que, também, não é nenhuma novidade.

A conclusão de tudo isso é óbvia: “Por isso a vitória de Lula no segundo turno, caso ela venha, será apenas mais uma derrota para os trabalhadores e operários”.

Isso significa, para o Coletivo Veredas, que a derrota eleitoral de Bolsonaro é algo secundário para os trabalhadores? Tanto faz eleger Lula ou Bolsonaro para milhões de trabalhadoras e trabalhadores brasileiros? Pior, se a vitória de Lula é mais uma derrota para os trabalhadores e operários, o que significaria a vitória de Bolsonaro, algo positivo?

De novo o velho padrão do esquerdismo: o doutrinarismo abstrato, separado da luta de classes real, levando à passividade diante da extrema direita.

Diante disso tudo, só se pode dizer que a história do movimento operário não confirma a narrativa do Coletivo Veredas. Nem muito menos a intervenção política de Marx, Engels, Lênin, Rosa Luxemburgo, Trotsky e Gramsci. Muito menos a atividade militante de Lukács, mesmo na sua fase mais esquerdista. O marxismo sempre procurou acompanhar e intervir no desenvolvimento político das massas trabalhadoras rumo à ruptura revolucionária com a ordem burguesa. Também, sempre soube identificar as tensões entre direção, vanguarda e massas no movimento operário. Além disso, as diferenciações entre extrema direita e reformismo sempre foi essencial para a elaboração das táticas e estratégias das organizações revolucionárias.

O capital, a democracia burguesa e o Estado são relações sociais e não conceitos abstratos. Devem ser combatidos não apenas nas salas de aulas e grupos de estudos, mas, principalmente, nas ruas, nos bairros populares, nas fábricas e no campo, isto é, onde o sujeito real revolucionário está se construindo nas suas lutas cotidianas.

Por isso, dia 30 de outubro é preciso derrotar Bolsonaro nas urnas. Mas, não só isso, será preciso garantir a posse de Lula Presidente. Simultaneamente as classes trabalhadoras devem partir para a luta por suas reivindicações mais sentidas e necessárias, colocando na defensiva as forças do golpismo, do imperialismo e da burguesia. Esse é caminho que nos levará à emancipação humana.

 

Frederico Costa

Professor da Universidade Estadual do Ceará – UECE e coordenador do Instituto de Estudos e Pesquisas do Movimento Operário - IMO

 

Érico Cardoso

Professor, doutorando em Educação pelo PPGE-UECE e membro do Instituto de Estudos e Pesquisas do Movimento Operário - IMO



[1] Para ler o texto completo: https://coletivoveredas.com.br/2022/10/04/as-primeiras-licoes-do-pleito-de-2022/


terça-feira, 25 de outubro de 2022

O povo, o "padre" e o bandoleiro

outubro 25, 2022

 

 

Neste artigo, trato fundamentalmente de atores dessa reta derradeira de uma campanha eleitoral que pode conduzir o país ou ao gueto definitivo do fascismo ou abrir caminho para afirmação da resistência popular, antessala de um novo momento da luta de classes, no qual as pautas dos pobres da cidade e do campo voltem a adquirir protagonismo.

                                                                                

O POVO TRABALHADOR E A ONDA VERMELHA

 

O povo pode ser acusado de tudo, menos de deserção. As massas populares estão dando uma demonstração de que resistem às ameaças do fascismo e de seu candidato Jair Bolsonaro. Apesar da coação do empresariado, o tristemente célebre assédio pelo voto, a classe trabalhadora insiste em eleger Lula para derrotar o genocida. Esse é o contexto.

Esse sentimento de trabalhadoras e trabalhadores não é obra do acaso. Ele nasce da constatação de que um novo mandato do candidato do PL significaria a última pá de cal nos direitos daqueles(as) que vivem da venda de sua força de trabalho. O plano de desvincular o salário-mínimo e os benefícios da previdência da inflação passada é parte dessa infâmia.

A onda vermelha que ganha as ruas, que aglomera nas esquinas, que balança as bandeiras e, com efeito, enche as praças, escolas e fábricas de esperança, indiscutivelmente, é a resposta de um povo que não deserta e exige o protagonismo de suas pautas.

 

O TEATRO POLÍTICO E OS SALTEADORES

 

O teatro político, contudo, muitas vezes, tenta deslocar o foco para outros cenários e personagens. É aí que aparecem os salteadores de estradas tentando retirar o foco das grandes questões nacionais. No caso concreto da eleição, no Brasil, os personagens adquirem corporeidade nas figuras de um “padre” e de um bandoleiro de colarinho branco.

O “padre” Kelmon, ligado ao Movimento Cristão Conservador (MCC), que foi utilizado como ponto de apoio ao presidente-genocida, recebeu 0,1% dos votos no primeiro turno. O seu papel não era a obtenção de votos, certamente, mas o de atacar a esquerda e, em particular, Luis Inácio Lula da Silva. Esse senhor falava e agia por Bolsonaro. Enquanto as grandes questões eram deixadas de lado, discutia-se a figura desse pária da luta política.

Da mesma forma que o Sr. Kelmon, agora é a vez de Roberto Jefferson “roubar a cena”. Quase que sem exceções os jornalistas e os políticos, as pessoas simples e os agentes do mercado discutem os fuzis e as granadas como a questão mais candente da conjuntura política. Não que não seja importante se discutir o problema, mas jamais separadamente da estratégia e da pauta populares. Essa é uma lição importante que nos deixa a luta política em curso. Aliás, essa questão serve de mote para que possamos definir as nossas tarefas centrais nos próximos dias.

 

QUE FAZER?

 

Sem desprezar esses episódios, os trabalhadores e as suas organizações – partidos, sindicatos, movimentos sociais etc. – devem executar firmemente a sua tarefa: derrotar Bolsonaro no dia 30 de outubro, elegendo Lula Presidente. Elegendo Lula por aumento real no salário-mínimo, pela construção de moradias populares, por investimentos na educação e na saúde, por reformas agrária e pelo cancelamento da lei do teto dos gastos e das demais contrarreformas que torpedearam as conquistas populares.

Por que, porém, as massas do povo não devem desprezar os episódios já citados? Não devem menosprezar precisamente porque eles sinalizam que esse setor belicoso de extrema-direita está disposto a tumultuar a cena política e a reduzir a democracia aos seus desígnios fascistas, até porque já tentaram isso repetidas vezes. Tanto mais vivas e intensas se tornem as batalhas em torno ao segundo turno, mas esse setor provocará, tentando intimidar e desmobilizar o espectro vermelho, único capaz de enfrentar e derrotar as falanges fascistóides.

Em suma, a partir do momento em que de um lado as camadas populares, os estudantes, as mulheres e as demais forças sociais progressistas ganharam as artérias das cidades, alterando o seu cotidiano, e de outro, empresários e fascistas de batina e de terno e gravata buscaram fazer uso de seu poder e de suas prerrogativas, ficaram nítidos três pontos: (1) as vertentes fascistas seguem ativas e nutrem a ideia de um golpe dentro do golpe (2) como decorrência, não resta dúvida de que os planos do “padre”, de Jefferson, de Guedes e de toda massa teocrática, militar, parlamentar e extraparlamentar do fascismo são os de Bolsonaro e, por fim, (3) só o furacão vermelho pode varrer a extrema-direita, dilacerar os seus planos nefastos e abrir caminho para salvaguardar a democracia política e reiterar os direitos da maioria trabalhadora.

 

POR FIM...

 

A prorrogação do projeto fascista significa o sinal mais efetivo da desintegração da democracia política. Por isso, nós, socialistas, não podemos defender as liberdades individuais e coletivas post festum. É preciso fazer isso agora e isso passa, sim ou sim, pela eleição de Lula. Até o dia 30 não haverá tempo para salto alto e acomodação. Só a luta coletiva conduzirá Lula ao triunfo e o triunfo do velho metalúrgico será um triunfo do povo, que será o sujeito da trama política, e não a ralé da sociedade burguesa: o suposto padre, o bandoleiro, o economista neoliberal e o chefe dos salteadores da ultradireita (momentaneamente instalado na presidência da república, e da qual será apeado pelo povo trabalhador).

A faixa de terra recém-adquirida pela mobilização popular necessita ser valorizada, mas ainda é insuficiente. É preciso seguir mobilizando por Lula lá. O dia 30 não pede de nós menos do que isso!

 

Fábio José de Queiroz

Professor do Departamento de história da URCA 

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

E agora?

outubro 06, 2022


 

De um lado se observa um pedaço da esquerda que esbanja otimismo e grita no ar: só falta 1,57% para elegermos o Lula. De outro, é visível a angústia de outro pedaço da esquerda, achando que tudo está não apenas difícil, mas que a derrota das forças antifascistas está com data marcada. É necessário vencer esses dois extremos. Não é hora de exageros retóricos, mas de uma tática que mova a massa trabalhadora, única via para garantir a vitória da esquerda. Desse modo, neste artigo, lanço uma primeira resposta ao que forças populares se perguntam desde os controversos resultados de 2 de outubro: e agora?


AS DIFICULDADES...

 

Evidentemente não fui o único a ressaltar a importância de vencer no primeiro turno e os perigos de a eleição ser arrastada para segundo turno. A sociedade não está diante de um quadro político-eleitoral simples.

Do lado dos bolsonaristas, há um sentimento de que podem triunfar. A vitória que obtiveram no centro-sul e a eleição de governadores, senadores e deputados pró-Bolsonaro, e, particularmente, a conquista de uma diferença de votos menor do que se supunha em relação a Lula, reforçaram o fascismo para o segundo turno eleitoral.

Do lado da alternativa popular e antifascista, à angústia de não vencer na primeira rodada eleitoral se somam as pressões dos liberais que se declaram pró-Lula no turno final da eleição. Nesse contexto, empresários exigem de Lula um ministro da economia diretamente dos quadros das forças do capital e a manutenção da política dos dividendos da Petrobrás, além da continuidade das contrarreformas. Esses riscos, aliás, já haviam apontado em artigo anterior.

O fato é que essas dificuldades precisam ser consideradas no cálculo das forças que apoiam Luis Inácio Lula da Silva, e elas, decerto, não são incontornáveis.

 

DEMOCRACIA E FASCISMO...

 

O fascismo enfrenta prioritariamente os socialistas e as organizações da classe trabalhadora, tentando, a todo custo, esmagá-los. Mas não guarda qualquer simpatia para com a democracia política, exatamente porque ela é necessária aos explorados em uma sociedade em que a opressão é grande e a liberdade é pequena. Na história brasileira, em que a "cultura democrática”, para parafrasear Noam Chomsky, nunca se mostrou “constante e viva", esse problema assume uma relevância ainda maior.

Hoje por hoje, o Brasil assiste a uma lenta desagregação das liberdades democráticas nas mãos do bolsonarismo. Para esse agrupamento, falar de liberdade tem um nítido caráter instrumental. Liberdade para organizar os seus bandos e usar a violência física para intimidar e aplastar os seus opositores, sobretudo da esquerda, eis em que consiste essa palavra no vocabulário desse movimento fascistóide.

Posto isso, o país está diante de uma disjuntiva: padrão mínimo de civilização ou a barbárie política? Ou dito de outra maneira: prevalecerão as soluções políticas ou as soluções golpistas? Se triunfa a fórmula fascista, o Brasil, no próximo período, pode presenciar a ruptura irreversível com as liberdades democráticas.

Nessa perspectiva, a luta contra o fascismo não é uma abstração. Ela se dá de forma concreta e hoje ela se traduz em uma batalha que coloca frente a frente o representante dessa facção de morte e o nome ungido politicamente pela classe trabalhadora. Perder essa batalha compromete gravemente as próximas fases da luta. Não se pode hesitar ante esse desafio. Mais do que nunca, é necessário estar com Lula para derrotar Bolsonaro.

 

A ESQUERDA, A DEMOCRACIA E O FORTALECIMENTO DA ALTERNATIVA LULA DA SILVA

 

Bolsonaro não só degrada a própria ideia de democracia. Com ele, a democracia sucumbe. Portanto, os democratas precisam apoiar o candidato da esquerda, que pode vencer o facínora no segundo turno, sob pena de compactuar com o processo de degradação das regras, das técnicas e das práticas democráticas.

Os comitês pela democracia, ou o nome que recebam, que foram criados país afora, precisam funcionar a plenos pulmões, marcar atividades, recrutar e mobilizar as pessoas, animá-las, espalhar materiais do Lula, vestir a blusa da candidatura popular, vestir vermelho, colocar adesivos nos carros e bandeiras nas casas, não cair nas provocações, mas, também, não se deixar intimidar.

É possível vencer, mas sem mobilização e sem campanha a tarefa se torna infinitamente mais difícil. Como escreveu um velho revolucionário, é possível vencer, é preciso lutar. O que facilita a caminhada do fascismo é o desânimo do lado de cá. Daí a necessidade de redobrar o ânimo e reforçar a agenda de luta rumo à vitória no segundo turno.

 

AS ÚLTIMAS NOTÍCIAS DO FRONT

 

Há quem se apegue unicamente aos fatos ruins: “não vencemos no primeiro turno”, “cresceram as fake news”, “a extrema direita está mais mobilizada”, “governadores de estados-chave anunciaram apoio ao genocida” etc.

Na razão inversa, há quem se apegue apenas aos bons indicativos. “Ciro e Simone Tebet apoiam agora a candidatura da esquerda”, “a primeira pesquisa sinaliza para o triunfo do Lula”, e, principalmente, “falta só 1,57% para Lula vencer”. Aqui, uma questão precisa ficar nítida: sem mobilização, falta muito. Com ela, falta muito pouco. Está nas mãos do povo derrotar o fascismo eleitoralmente, tarefa que não contrasta em nada com a estratégia de vencer o inimigo por meio da ação direta.

Essa foi a sexta vez que Lula disputou o primeiro turno de uma eleição presidencial, e recebeu a maior votação já obtida por um candidato a presidente, colocando mais de 6 milhões de votos sobre o chefe da rachadinha. A esquerda aumentou a sua bancada no congresso, malgrado a maioria conservadora eleita para o parlamento federal. Como apontado há pouco, Ciro e Tebet já declararam apoio a Lula no segundo turno. A esquerda elegeu um bom número de governadores e pode ampliar a quantidade obtida no primeiro turno. E possível, apoiado nessa estrutura, e, fundamentalmente, nos movimentos sociais, derrotar a chapa golpista. Ou seja, nem todas as notícias são ruins. É possível vencer!


A ESQUERDA E UMA BOA CAUSA

 

Na história, nem sempre as boas causas venceram. Mas isso não é argumento para que se renuncie a elas em nome do medo ou em nome de projetos específicos. E hoje não há causa maior do que derrotar os fascistas no dia 30 de outubro. Prender-se às vacilações dos reformistas e se agarrar às nossas supostas purezas ideológicas, e, neste momento, não ocupar um posto na luta para derrotar Bolsonaro, seguramente, é um erro de expressão histórica, por mais que se jure, de pés juntos, o contrário.

Permitam-me uma ponderação. Os pequenos agrupamentos de esquerda, certamente, não podem ser acusados pelo fato de Lula não haver vencido no primeiro turno. Dentre outras coisas, as modestas votações que obtiveram testemunham isso. Mas, e agora, no segundo turno? Quero crer que as agremiações partidárias de esquerda, que, legitimamente, testaram a sua tática e lançaram os seus candidatos, precisam se somar ao movimento para superar o fascista no segundo turno, e objetivamente, o único modo de fazer isso é apoiando Luís Inácio Lula da Silva. Isso tem uma importância simbólica enorme. O PCB manifestou esse ponto de vista mal a contagem dos votos foi concluída, e tal atitude precisa ser saudada.


UMA ÚLTIMA QUESTÃO

 

Nas ruas, carros luxuosos desfilam, adornados com bandeiras verde-amarelas. A extrema-direita costuma se disfarçar de patriota para levar a cabo o seu projeto brutal e excludente.

Do lado de cá, a grande massa da população trabalhadora pendura pequenas bandeiras em suas moradias e adesivos em carrinhos de pipoca e nos capacetes. Esses exemplos precisam ser multiplicados. Com efeito, é indispensável imprimir maior visibilidade ao candidato do povo pobre e trabalhador. Lula deve estar em cada trabalhador e em cada trabalhadora. É assim que se derrotará o candidato fascista.

No dia 30, queira-se ou não, cada um(a) irá responder à histórica indagação do personagem vivido por Paulo Autran em Terra em transe: qual é a sua classe?

 

Fábio José de Queiroz

Professor do Departamento de história da URCA