terça-feira, 8 de junho de 2021

A dialética do tempo: história, ideologia e consciência em Antonio Gramsci

junho 08, 2021


        Gramsci (1891-1937) concebe a história como o processo pelo qual o homem torna-se homem, isto é, nada do que exista no plano da vida humana é desprovido de processualidade, gênese, dinâmica, contradição e movimento. Tudo que existe no âmbito da sociedade, é produto do desenvolvimento da capacidade criadora dos indivíduos; capacidade pensar, intuir, sentir, idealizar, construir, inovar e expressar isso tudo numa linguagem carregada de conceitos, símbolos e visões de mundo. Os homens ao expressarem o que pensam e sentem, fazem história. 

        Para o pensador marxista italiano todos os homens são “filósofos”, no sentido de serem capazes de manifestar esta “filosofia espontânea” própria a “todo mundo”, a partir de seus limites e características, e ela está presente: 1) na própria linguagem, que consiste num conjunto de noções e conceitos específicos e, não somente, um aglomerado de palavras destituídas  de conteúdo; 2) no senso comum e no bom-senso; 3) na religião popular e, portanto, em todo o sistema de representações das opiniões, crenças, superstições e modos de ver e de agir que se manifestam naquilo que se convencionou chamar de folclore. 

        Historicamente falando, os homens sempre expressaram determinadas concepções de mundo, bem como, pertenceram a um determinado grupo. Essas qualidades propriamente sociais, explicam como os indivíduos partilham um mesmo modo de pensar e agir. “Somos conformistas de algum conformismo, somos sempre homens-massa ou homens-coletivos” (Gramsci, 1991, p. 12). Existe para Gramsci duas maneiras específicas dos homens elaborarem suas visões de mundo, a primeira, diz respeito a uma perspectiva crítica e consciente de pensar e agir programaticamente para tornar possível as mudanças no mundo, a segunda, trata do pensar sem necessariamente ter consciência crítica disso, ou melhor, é uma maneira ocasional e desgregada de participar de uma concepção de mundo imposta arbitrariamente pelo “ambiente exterior”. 

        Nos explica Gramsci: “Quando a concepção de mundo não é crítica e coerente, mas ocasional e desagregada, pertencemos simultaneamente a uma multiplicidade de homens-massa, nossa própria personalidade é composta de uma maneira bizarra: nela se encontra elementos dos homens das cavernas e princípios da ciência mais moderna e progressista; preconceitos de todas as fases históricas passadas, grosseiramente localistas, e intuições de uma futura filosofia que será própria do gênero humano mundialmente unificado” (Gramsci, 1991, p. 12, itálicos nosso).

        Segundo o filósofo marxista, criticar a própria concepção de mundo, significa, portanto, conferir-lhe unidade e coerência e, nesse sentido, elevá-la ao ponto máximo do pensamento universal mais desenvolvido. Com efeito, isso vale também para toda a filosofia existente até o momento, diz Gramsci. Pois a crítica dela significa, evidenciar em que medida ela deixou “estratificações consolidadas” na filosofia popular. 

        O começo da elaboração crítica do pensamento é o ponto de partida daquilo que somos realmente. De acordo com Gramsci, tal pressuposto configura “um conhece-te a ti mesmo” enquanto um produto do processo histórico até hoje explicitado. A historicidade dos processos sociais constitui a chave de explicação para o sentido do ser das coisas, ideias, noções, processos e relações do mundo. 

        Por exemplo, a filosofia não pode estar separada da História da Filosofia, tampouco a cultura pode estar separada da História da Cultura. Por isso, no que diz respeito ao “sentido mais imediato e determinado, não podemos ser filósofos – isto é, ter uma concepção do mundo criticamente coerente – sem a consciência da nossa historicidade, da fase de desenvolvimento por ela representada e do fato de que ela está em contradição com outras concepções ou com elementos de outras concepções” (Gramsci, 1991, p. 13). 

        Do ponto de vista histórico, a criação de uma nova cultura não significa somente fazer individualmente uma descoberta original, mas significa também, reproduzir criticamente verdades já estabelecidas; difundi-las, socializá-las. Conforme os postulados de Gramsci, o fato de que uma coletividade humana seja orientada a pensar coerentemente e de modo unitário a realidade social do presente, constitui um fato “filosófico” bem mais significativo e “original” do que a descoberta ou inovação por parte de uma mente filosófica brilhante acerca “de uma nova verdade que permaneça como patrimônio de pequenos grupos intelectuais”. 

        Nesse sentido, é que podemos pensar, por exemplo, na ideologia enquanto uma concepção do mundo, que se manifesta de maneira implícita na arte, no direito, na atividade econômica e em todas as esferas da vida social, coletiva ou individual. Assim, a ideologia está diretamente ligada ao problema da conservação da unidade ideológica da totalidade do bloco social, que está assentada e unificada precisamente por aquela ideologia específica. 

        Aqui Gramsci nos fala, precisamente, do problema da ideologia religiosa, especificamente a da Igreja Católica, quando afirma: “A força das religiões […], consistiu e consiste no seguinte fato: que elas sentem intensamente a necessidade de união doutrinal de toda a massa ‘religiosa’ e lutam para que os estratos intelectualmente superiores não se destaquem dos inferiores. A Igreja romana foi sempre a mais tenaz na luta para impedir que se formassem ‘oficialmente’ duas religiões, a dos ‘intelectuais’ e das ‘almas simples’” (Gramsci, 1991, p. 16). 

        Esta luta, decerto, foi travada com grandes inconvenientes para a própria Igreja Católica. Contudo, esses inconvenientes estão relacionados ao processo histórico que produziu uma mudança profunda na totalidade da sociedade civil e que estabeleceu, em bloco, uma ferrenha crítica da ideologia religiosa. 

        Isso demonstra a exímia habilidade do clero em organizar a esfera da cultura, bem como a racionalidade da Igreja, no sentido de diferenciar as capacidades e alçadas entre os “intelectuais” e os “simplórios”. Foram os jesuítas, “[…] indubitavelmente, os maiores artífices dêste equilíbrio e, para conservá-lo, eles imprimiram à Igreja um movimento progressivo que tende a satisfazer parcialmente as exigências da ciência e da filosofia, mas com um ritmo tão lento e metódico que as modoficações não são percebidas pela massa dos simplórios, se bem que elas apareçam como ‘revolucionárias’ e demagógicas aos olhos dos ‘integristas’” (Gramsci, 1991, p. 17). 

        Em Gramsci uma filosofia da práxis tem que residir na crítica do senso comum popular bem como do senso comum dos estratos mais eruditos da sociedade, e em face deles, nutrir uma polêmica que seja capaz de estabelecer as bases de um processo que busque, conscientemente, superar as alienações do pensamento, no que se refere os problemas sociais oriundos das contradições socioeconômicas. 

        Por isso, que o revolucionário comunista italiano, defende que a posição da filosofia da práxis é antitética às posições do pensamento católico. Porque a filosofia da práxis, não visa manter os “simplórios” na sua “filosofia espontânea” do seno comum, mas procura, verdadeiramente, o contrário, ou seja, orientá-los para o despertar e desenvolvimento de uma concepção de vida superior e emancipada das ilusões da sociedade burguesa. 

        Para Gramsci, o homem comum; o homem do povo pode ter uma atuação prática consequente na sua vida cotidiana, contudo, ele precisa ser dotado de uma concepção teórica do mundo que lhe permita engendrar as possibilidades subjetivas e objetivas de transformação da realidade social da qual ele é parte integrante. Uma consciência teórica que lhe possibilite ter uma noção clara das contradições do processo histórico. Assim, toda ação prática precisa de uma clarificação e fundamentação teórica para um agir consciente em virtude de um projeto revolucionário de emancipação humana. 

        A compreensão crítica de si mesmo no interior da totalidade social é haurida, dessa forma, através de uma luta de “hegemonias” políticas, de “direções contrastantes”, inicialmente no plano da ética, depois no da política, chegando enfim, numa formulação superior da própria concepção do real. “A consciência de fazer parte de uma determinada força hegemônica (isto é, a consciência política) é a primeira fase de uma ulterior e progressiva autoconsciência, na qual e teoria e prática finalmente se unificam” (Gramsci, 1991, p. 21). 

        Mais do que ninguém, Antonio Gramsci sabia que a unidade entre teoria e prática não consiste num fator mecânico, mas do contrário, constitui um autêntico devenir histórico.

 

Antonio Marcondes

GPOSSHE/UECE/GEM/UFC

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REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA           

GRAMSCI, Antonio. Concepção dialética da história. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1991.

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[1] Foto de Cristina Gottardi

segunda-feira, 7 de junho de 2021

Notas sobre a conjuntura política brasileira

junho 07, 2021

 



(I) As lições da M29

 

1. A manifestação do dia 29 de maio (2021) aconteceu em 213 cidades brasileiras e em 14 cidades do exterior. Foi quase meio milhão de pessoas que saíram às ruas, segundo os organizadores do evento, mesmo em período de pandemia. Se levarmos em conta os que ficaram em casa, mas fizeram seu protesto nas redes sociais e nas janelas de suas residências, esse número pode ser multiplicado muitas vezes.

2. A primeira lição a tirar dessa magnífica manifestação se dirige aos pessimistas profissionais e aos impacientes de plantão. O povo brasileiro começou seu movimento público de protesto contra o bolsonarismo. Desmentiu, com essa primeira manifestação, os pessimistas que falaram ou escreveram que o brasileiro é passivo, agüenta tudo e fica calado. Desmentiu também os impacientes que proclamaram que as massas não têm energia suficiente para se levantar contra o arbítrio e a exploração.

A manifestação de 29 de maio foi um movimento marcado pela espontaneidade. Os organizadores do protesto, pequenas entidades da chamada sociedade civil organizada, naturalmente não tinham como alcançar centenas de milhares de pessoas. Foi a ação espontânea das pessoas – o convite pelas redes sociais, a conversa direta entre os indignados com o tragédia de meio milhão de mortes, o desemprego de 14 milhões e a fome intermitente de mais de 100 milhões – que moveu essa enorme massa humana para caminhar pelas ruas em mais de duas centenas de cidades no país e no exterior.

Isso mostra que há sentimento fértil no nosso povo para a luta de massas nas ruas, nas redes sociais e nas janelas do Brasil. Que os pessimistas e impacientes redirecionem, agora, suas energias subjetivas para ajudar a organizar a nova manifestação marcada para o dia 19 de junho.

2. A segunda grande lição a ser tirada da manifestação de 29 de maio (M29) tem um claro sentido político: a RUA tornou-se um divisor de águas da política brasileira. As operações dos dirigentes partidários nos gabinetes parlamentares de Brasília, os jantares de São Paulo e as tratativas das cúpulas políticas visando congregar forças para a eleição presidencial de 2022 passam, agora, ao segundo plano para dar lugar à DISPUTA PÚBLICA PELAS RUAS.

O dilema FRENTE ÚNICA ou FRENTE AMPLA, que envolveu até então as direções partidárias de esquerda, foi resolvido pela RUA: a frente se faz nas lutas de massa pelo espaço público. Quem vier para as ruas, quem convocar para as ruas pelo “fora Bolsonaro”, pelo auxílio emergencial suficiente para combater a fome do povo e pela vacinação imediata para todos cria e faz parte da FRENTE DE MASSAS. E a verdadeira frente de massas é a FRENTE ÚNICA OPERÁRIA ou, como denomina alguns, a Frente de Esquerda. Sua tarefa é impedir a vitória do fascismo no Brasil e lutar por um Governo de Esquerda, isto é,  que vá além do capitalismo.

3. A terceira grande lição a ser tirada da M29 traz à baila um fenômeno político preocupante: os nossos chamados líderes políticos, aquelas personalidades que aparecem nas pesquisas de opinião disputando as preferências do eleitorado para a próxima eleição presidencial, ESTIVERAM AUSENTES da convocação e da participação no protesto de 29 de maio. O povo em marcha caminha numa direção, esses nossos líderes políticos caminham na direção oposta.

Esse conflito tem que resolvido agora. Disso depende o resultado final das lutas das trabalhadoras e dos trabalhadores. E, em conseqüência, o futuro político do nosso país. Disso depende nossa vitória contra o bolsonarismo e o imperialismo que o sustenta ou nossa derrota para um regime fascista que, implantado com o apoio do grande capital, das forças armadas e das polícias milicianas, destruirá as liberdades civis, econômicas, sociais, políticas e culturais do povo brasileiro. Para as vanguardas da esquerda brasileira o dilema é ainda mais trágico: ou vitória nas ruas ou prisão e fuzilamento.

4. A quarta grande lição da M29 diz respeito à comunicação. O vergonhoso boicote que a grande imprensa burguesa, as redes de rádio de rádio e televisão do país fizeram à manifestação vai aumentar ainda mais à proporção que o movimento de massa cresça e radicalize suas reivindicações: fim das privatizações, fim do teto de gastos, fim das contrarreformas trabalhista,  previdência, administrativa e tributária, fim da tutela militar do Estado, entre outras. Precisamos criar uma alternativa de comunicação que seja capaz de levar a nossa mensagem de luta e esperança para milhões de pessoas, tanto nas cidades como nos campos, tanto nas grandes como nas médias e pequenas cidades.

5. Uma quinta, mas não a última, grande lição da manifestação de M29 aponta para o problema da repressão política e da violência policial aos protestos políticos do nosso povo contra o bolsonarismo. A violência da PM em Recife é um sinal do que está sendo gestado pelo processo de milicianização das polícias militares brasileiras. Aprendamos com o exemplo do golpe de Estado miliciano da Bolívia! Devemos começar, de imediato, uma grande campanha pela desmilitarização das PMs e contra a dominação bolsonarista dessa corporação, denunciando as tentativas legislativas em curso no Congresso Nacional para tirar o controle das PMs dos governadores e passá-lo para o presidente da República. Mas é preciso ir além: devemos pôr um fim à famigerada Lei de Segurança Nacional, feita ainda pela ditadura militar, mas vigente mesmo depois da aprovação da Constituição nacional de 1988. Do mesmo modo é preciso retirar das forças armadas (marinha, exército e aeronáutica) o seu caráter de força pretoriana da burguesia, estatuto que lhe foi concedido pela própria Constituição, e exigindo o afastamento dos mais de 10 mil militares que ocupam cargos civis no aparelho de Estado. Essas exigências visam dificultar o papel político repressivo que o bolsonarismo pretende destinar à corporação militar, transformando-a numa força miliciana a seu serviço.


(II) O passo seguinte

 

É preciso formular uma estratégia de luta que contemple o desdobramento político das lições tiradas da manifestação de 29 de maio.

Alinhei alguns pontos que, embora não esgote o horizonte dos possíveis, pode atender a essa exigência;

1. O movimento sindical precisa se engajar de forma mais decisiva nas manifestações de rua. Ainda há centrais sindicatos e muitos sindicatos profissionais que ficaram de fora da manifestação do dia 29 de maio. Temos que fazer um trabalho permanente de persuasão e até mesmo de disputa política para trazer o conjunto do movimento sindical brasileiro para o campo das lutas de rua. O papel protagonista do sindicalismo será decisivo para a convocação, no devido tempo, de uma GREVE GERAL POLÍTICA contra o bolsonarismo.

2. Os partidos políticos de esquerda têm que “retificar sua linha política”, como gostavam de dizer os velhos militantes comunistas. Ficou evidenciado na manifestação de 29 de maio que psicologia social do povo brasileiro sofreu uma alteração significativa: há energia, há clima para a criação de um grande movimento de massas contra o bolsonarismo. Mas sem a adesão dos partidos políticos, há também o risco dessa energia se dissipar e, então, o bolsonarismo readquirir fôlego. Por isso, a responsabilidade dos partidos políticos de esquerda, neste momento, é um fato decisivo, talvez o mais decisivo para a ampliação e a consolidação da luta de massas.

Para cumprir esse papel, os partidos políticos de esquerda precisam redefinir suas prioridades. O calendário eleitoral deve ceder lugar à LUTA EXTRAPARLAMENTAR. Em vez de pôr na ordem do dia a discussão de candidaturas presidenciais, o PT, o PSOL, o PCdoB e os demais partidos deveriam concentrar seus esforços nas mobilizações de rua. A própria luta eleitoral, a ser feita no próximo ano, ganharia mais força e consistência se resultasse das vitórias obtidas na luta extraparlamentar.

2. Nessa perspectiva, as principais lideranças desses partidos, aquelas personalidades que têm grande audiência pública, deveriam se engajar PESSOALMENTE na convocação da próxima manifestação, marcada para 19 de junho. Nesse sentido, não tem justificativa o SILÊNCIO DE LULA. Já não teve na manifestação anterior.  Outras personalidades, como Haddad, Manuela, Dino, Freixo e outras precisam romper o silêncio, pois a continuar, será um SILÊNCIO CÚMPLICE!

3. Na mesma linha, os governadores de oposição ao bolsonarismo terão que deixar a “CONFORTÁVEL” situação de eqüidistância para se envolver mais com as manifestações de rua. Já ajudaria muito se controlassem as forças policiais para não praticarem violência contra os manifestantes!

4. Ciro Gomes terá seu “teste de fogo” agora. Se realmente é contra Bolsonaro e quer vê-lo fora do governo, não pode se limitar àquele tipo de declaração paternalista que fez antes da mobilização de 29 de maio. Ciro e seu partido têm força política para organizar a maior manifestação pública da história do Ceará. Tem inclusive estrutura partidária para organizar manifestações em praticamente todas as cidades do Ceará. Também tem que talvez não tenham participado da manifestação de 29 de maio. Nossa esperança é que ele assuma alguma forma concreta e não só retórica de protagonismo, ajudando a organizar a manifestação de 19 de junho.

5. Para criar uma potente força política no país, o movimento de massas não pode ficar limitado às Capitais e algumas grandes cidades das Regiões Metropolitanas. É preciso interiorizar o movimento num duplo sentido: levá-lo às pequenas cidades e levá-lo dos trabalhadores urbanos para os trabalhadores rurais. O MST e os sindicatos de trabalhadores rurais, bem como os diretórios municipais dos partidos de esquerda devem dar prioridade a esta ação nas convocações para a manifestação de 19 de junho.

6. Outro elemento que surgiu espontaneamente na manifestação de 29 de maio foi a participação ativa das pessoas que ficaram em casa. Além do uso das redes sociais na transmissão das imagens e nas falas de apoio aos manifestantes, muitas delas fizeram faixas e cartazes para exposição nas janelas dos apartamentos e casas. Os organizadores da manifestação de 19 de junho devem promover um incentivo especial para que esse tipo de iniciativa seja ampliado.

7. De igual modo deve ser repetida, nas redes sociais, a pressão feita sobre o boicote da imprensa burguesa à cobertura das manifestações. Graças a isso, o sistema Globo foi obrigado a falar do evento, 24 horas depois, é verdade, mas falou. Se fizermos essa cobrança antecipada, talvez os jornais e emissoras de rádio e televisão da burguesia se vejam constrangidos a fazer uma cobertura em tempo real.

8. É preciso continuar enfatizando com toda força o crime praticado pelo governo Bolsonaro contra o povo brasileiro. 500 mil mortos é um CRIME CONTRA A HUMANIDADE. Nossa solidariedade às famílias dos mortos deve ser destacada. A melhor faixa – uma grande faixa – que deveria ser levantada na próxima manifestação de 19 de junho me foi enviada pelo professor e camarada João Emiliano Fortaleza: PELOS NOSSOS MORTOS, LUTAREMOS!

9. Temos que começar a mirar no Congresso Nacional. Lá se realiza permanentemente CRIMES contra os interesses, as aspirações e os direitos do povo brasileiro. Privatizações vergonhosas, contrarreformas perversas das políticas públicas e recusa de abertura do processo de cassação de Bolsonaro são as principais ações criminosas, mas não as únicas. No decorrer do processo de crescimento das mobilizações vai chegar o momento em que deveremos marchar sobre Brasília para “cobrar com juros” todo esse sofrimento causado ao nosso povo.

10. Na linha lógica da criação da FRENTE ÚNICA deveremos também, no decorrer do processo de crescimento das mobilizações, introduzir REIVINDICAÇÕES TRANSITÓRIAS, tais como a do programa de um GOVERNO DE ESQUERDA e não de coalizão com a burguesia.

DIAS MELHORES VIRÃO, A SOLUÇÃO ESTÁ NAS RUAS!


Auto Filho

Professor aposentado de filosofia e economia política da Universidade Estadual do Ceará e foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores e da Central Única dos Trabalhadores

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Este texto foi lido e discutido no blog Emancipação do Trabalho, programa Conjuntura da luta de classe, do blog Emancipação do Trabalho, em 04/06/2021, disponível no YouTube.


quinta-feira, 27 de maio de 2021

A concepção de práxis em Adolfo Sánchez Vázquez: breve nota

maio 27, 2021


         Adolfo Sánchez Vázquez (1915-2011) foi um dos mais célebres filósofos marxistas do século passado. Pensador revolucionário, preocupou-se durante toda a sua trajetória intelectual com a necessidade de vincular a teoria com a prática. Suas ideias ajudaram a depurar o marxismo dos dogmatismos e reducionismos fomentados sobretudo pelo stalinismo e seus consortes. Nasceu em Algeciras, Espanha. Foi para o México em 1939 onde exilou-se e passou a estudar filosofia na UNAM. Publicou inúmeras obras: As ideias estéticas de Marx (1965), Filosofia da Práxis (1967), Estética e marxismo (1970), Do socialismo científico ao socialismo utópico (1975), Ensaios marxistas sobre filosofia e ideologia (1983), Filosofia e circunstâncias (1997), Entre a realidade e a utopia (2000), entre outros.

         Em seu mais importante livro, A filosofia da práxis, Vázquez discute a noção de práxis a partir da tradição do pensamento crítico, enfatizando principalmente as contribuições do marxismo sobre o tema. Nesse sentido, segundo o filósofo espanhol, o marxismo não é uma simples teoria,  tampouco uma mera cosmovisão de mundo, mas fundamentalmente uma prática revolucionária da realidade histórica.

         Em Vázquez a concepção de práxis não está limitada apenas a um âmbito. Ela perpassa a arte, a inventividade teórica, a transformação revolucionária da sociedade, a organização e luta de classes. Estes são exemplos de práxis criadoras na medida em que expressam a unidade entre subjetividade e objetividade, pensamento e realidade, reflexão e ação no contexto dos processos que constituem o movimento concreto do devir histórico, singular, único e irrepetível. O fluxo do tempo configura a gênese, o desenvolvimento, as contradições e a reprodução da vida em sua totalidade.

         “Toda práxis é atividade, mas nem toda atividade é práxis”, afirma Sánchez Vázquez. Para o filósofo marxista, é necessário distinguir a práxis enquanto uma forma de atividade específica. Dessa maneira: “Por atividade em geral entendemos o ato ou conjunto de atos em virtude dos quais um sujeito ativo (agente) modifica uma matéria-prima dada”. Justamente por sua generalidade, essa caracterização da atividade não especifica o tipo de agente (físico, biológico ou humano) nem a natureza da matéria-prima sobre a qual atua (corpo físico, ser vivo, vivência psíquica, grupo, relação ou instituição social) nem determina a espécie de atos (físicos, psíquicos, sociais) que levam a certa transformação” (Vázquez,  2007, p. 220).

         Nessa acepção ampla, atividade contrapõe-se a passividade, e seu âmbito é a efetividade, portanto não a do simplesmente possível. Toda ação de um agente é concreta, ou seja, sua ação efetiva não é só uma possibilidade. Quem atua, faz isso mediante uma relação em que o todo e as partes constituem uma totalidade processual, pois os atos deslocados, isolados, desarticulados ou justapostos, não representam uma atividade. O que caracteriza especificamente uma atividade humana, é quando os “atos dirigidos” a um objeto determinado visando transformá-lo, se realiza como um resultado ideal, ou uma finalidade posta, o que resulta em um produto efetivo, concreto, real.

         “Esse modo de articulação e determinação dos diferentes atos do processo ativo” distingue radicalmente a atividade especificamente humana de qualquer outra que se encontra em um nível meramente natural. Essa atividade implica a intervenção da consciência, graças à qual o resultado existe duas vezes – e em tempos distintos: como resultado ideal e como produto real” (Vázquez, 2007, p. 221). Em virtude dessa capacidade de antecipar idealmente um resultado real que deseja lograr, a atividade propriamente humana possui, assim, um caráter consciente. Com efeito, para se falar em atividade humana é preciso que se elabore nela um resultado real, uma finalidade a ser cumprida, “como ponto de partida”, e “uma intenção de adequação”, independentemente de como seja plasmado o modelo ideal originário.

         A atividade humana, dessa forma, é uma atividade que se orienta com base nos fins. Estes só existem por causa do homem, como produtos de sua consciência ponente. Nesse sentido, toda ação verdadeiramente humana reside na ideação de um fim, a qual está sujeitada ao curso da própria atividade criadora. O fim constitui a expressão através da qual os indivíduos agem diante da realidade. “Quem se propõe a realizar uma viagem, construir uma cadeira, pintar um quadro ou transformar um regime social, mostra determinada atitude diante de uma situação real, presente. Se  o homem vivesse em plena harmonia com a realidade, ou total conciliação com seu presente, não sentiria a necessidade de negá-los idealmente nem de configurar em sua consciência uma realidade ainda inexistente” (Vázquez, 2007, p. 222).

         Ao prefigurar idealmente em sua consciência um fim a ser alcançado, o homem, necessariamente, nega a realidade concretamente existente. E consequentemente, “afirma outra que ainda não existe”. Os fins são produtos da consciência, portanto, a atividade dirigida pelos homens é consciente. Contudo, não se trata aqui, segundo Vázquez, de uma atividade desenvolvida por uma consciência pura, mas seguramente, por um “homem social” que não pode renunciar à produção de fins em nenhuma forma de atividade concreta, incluindo, decerto, a “prática material”.

         O fim, com efeito, é a representação do resultado de uma atividade real, prática, e que não é exclusivamente uma pura atividade da consciência. Esse processo possibilita o indivíduo criar uma relação de interioridade com seus diferentes atos e com seus produtos, pois a sua consciência visa estabelecer o fim como leis de suas próprias ações, leis estas que regem e subordinam os próprios produtos da criação humana.

         Desse modo, a antecipação ideal do resultado efetivo, possibilita a conformação dos atos singulares dos indivíduos numa totalidade dirigida pelo fim. Isto é, a capacidade da consciência humana de idealizar o resultado real, é o que diferencia radicalmente os homens de qualquer outra atividade animal, que exteriormente pode ser semelhante a ela. Nas palavras de Vázquez (2007, p. 223): “Levando em conta a semelhança externa que se pode dar entre certos atos animais e humanos, é preciso concluir que a atividade própria do homem não pode reduzir-se à sua mera expressão exterior, e que dela forma parte essencialmente a atividade da consciência”. Ou seja, essa atividade se desenvolve com base na produção de fins que prefiguram idealmente o resultado real que se deseja conseguir, entretanto, esse processo também se manifesta, como produção de conhecimento, na forma de conceitos, conjecturas, teorias e legalidades mediante as quais os indivíduos conhecem a realidade concreta.

         Aqui Adolfo Sànchez Vázquez assinala uma questão sumamente importante, que é a diferença entre a atividade cognoscitiva e a teleológica. A primeira se refere a uma realidade presente que se busca conhecer, a segunda trata de uma realidade futura, e que portanto, ainda não existe. A atividade cognoscitiva se preocupa com a realidade já posta, realizada pela ação dos homens no seu processo de produção e reprodução das condições materiais de existência, já a atividade teleológica visa, sobretudo, criar o novo, engendrar objetivações qualitativamente novas em face de uma realidade que se quer transformar, seja em sentido econômico, político, cultural, moral, estético etc.

         Toda atividade especificamente humana é uma atividade prática. Seja o trabalho humano, a arte, ou a práxis revolucionária, constituem atividades dirigidas por finalidades, cuja realização exige uma certa capacidade cognitiva. Assim, toda atividade prática está radica no caráter real, objetivo, da materialidade da natureza e da realidade do mundo social sobre os quais os indivíduos atuam, se valendo dos meios e instrumentos necessários para a execução de sua ação orientada.

         Segundo Vázquez, existem inúmeras formas de práxis. Nesse sentido, o objeto sobre o qual o indivíduo exerce sua ação pode ser: 1) a materialidade da natureza; 2) os produtos elaborados por uma práxis anterior, que se convertem em matéria de uma nova práxis; 3) o próprio ser humano, isto é, a sociedade como objetividade material “ou objeto da práxis política ou revolucionária”, aqui consiste nos indivíduos concretos e suas relações concretas.

         De modo geral, podemos elencar as seguintes expressões objetivas da práxis em Sánchez Vázquez: A práxis produtiva, que diz respeito a atividade prática produtiva, ou a relação material e transformadora que os homens estabelecem com a natureza pela mediação do trabalho, cuja principal característica é a produção de objetos úteis para a satisfação de determinadas necessidades. A práxis artística, que consiste na produção ou criação de obras de arte, e assim como o trabalho que transforma uma matéria-prima da natureza em um objeto útil para satisfação de necessidades determinadas, ela satisfaz uma necessidade geral humana de expressão e comunicação.

         A práxis experimental, que compreende a atividade científica experimental que satisfaz, originalmente, as necessidades da pesquisa teórica e, em específico, as da comprovação de hipóteses. Essa forma de práxis consiste na atuação de um investigador sobre um objeto material determinado visando modificá-lo de acordo com as condições em que se realiza um fenômeno. Em outras palavras, o investigador reproduz um fenômeno da natureza em laboratório para melhor compreendê-lo, sem as perturbações e intempéries que possam dificultar seu estudo.

         A práxis política, essa forma de práxis expressa o fato de o homem ser sujeito e objeto dela, ou seja, a práxis na qual ele atua sobre si próprio. Essa atividade prática possibilita desenvolver diversas modalidades de ação. No interior dela concorrem diversos atos orientados para sua transformação enquanto ser social e, por isso mesmo, destinados a mudar suas relações políticas, econômicas, sociais, culturais etc. Conforme sua atividade toma por objeto não um indivíduo isolado, mas diferentes grupos e classes sociais, bem como a sociedade em sua totalidade, ela pode ser considerada práxis social. De acordo com Vázquez, no interior de uma sociedade profundamente divida pelo conflito entre as classes sociais, pelo poder, organização, direção e estruturação da sociedade, a política acaba se constituindo numa atividade prática mediada pelas diversas expressões da articulação real de seus membros, vivendo em constante embate de ideias, projetos, programas e uma luta ideológica que exerce uma forte influência na maneira como os indivíduos atuam no cotidiano. A práxis política consiste, desse modo, na participação de amplos segmentos da totalidade da vida social.

         A atividade teórica, essa forma de atividade especificamente humana, considerada do ponto de vista do seu desenvolvimento histórico, existe em função de sua relação com a prática, pois é nela que encontra seu fundamento, suas finalidades e o critério de justificação de sua verdade. Contudo, em si mesma a atividade teórica não é uma forma de práxis. Ainda que “a prática teórica” concorra para transformar percepções, noções, conceitos e representações, e engendre uma forma específica de produtos que são as hipóteses, teorias e leis, em nenhum desses processos se transforma a realidade. Esta ausente aqui, como afirma Vázquez, o lado material e objetivo da práxis, portanto, não pode ser legítimo falar de “práxis teórica”.

         A práxis constitui uma atividade material, capaz de transformar a realidade de acordo com os fins adequados. Fora de sua circunscrição, subsiste apenas a atividade teórica que não se efetiva, na medida em que é apenas uma atividade puramente espiritual. Entretanto, por outro lado, não existe práxis que seja puramente material, isto é, sem a elaboração de fins conhecimentos que caracteriza a atividade teórica.


Antonio Marcondes

GPOSSHE/UECE/GEM/UFC

 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

VÁZQUEZ, Adolfo Sánchez. Filosofia da práxis. São Paulo: Expressão Popular, 2007.

terça-feira, 11 de maio de 2021

Há 76 anos o exército vermelho derrotava o nazismo

maio 11, 2021


Frederico Costa

Professor da Universidade Estadual do Ceará - UECE e Coordenador do instituto de Estudos e Pesquisas do Movimento Operário - IMO.


Todo ser humano que ama a liberdade deve ao Exército Vermelho mais do que conseguirá pagar em uma vida.

Ernst Hemingway


Há 76 anos, no 8 de maio 1945, ocorreu a derrota formal da Alemanha nazista para os aliados na Segunda Guerra Mundial. Havia um acordo entre os aliados de que o dia 9 de maio de 1945 seria o dia da celebração, no entanto, jornalistas ocidentais divulgaram a notícia da rendição alemã mais cedo do que era previsto, precipitando as celebrações. A URSS manteve as celebrações para a data acordada, por isso o fim do conflito, conhecido na Rússia como a Grande Guerra Patriótica, é celebrado no dia 9 de maio. Já a  vitória aliada sobre o Japão é comemorada no dia 15 de agosto de 1945.

A Segunda Guerra Mundial deixou uma destruição nunca vista até então. As mortes chegaram a um total estimado de 70 a 85 milhões de seres humanos, contando-se os que morreram por fome e doenças como resultado direto da guerra, ou seja, mais de 3% da humanidade[1]. Dezenas de cidades foram reduzidas a escombros. Recursos capazes de nutrir, vestir, garantir moradas, saúde, educação e trabalho para sanar a pobreza foram usados para fins puramente destrutivos. O meio ambiente, em vários locais, com florestas e campos cultiváveis foi reduzido às cinzas. Tal devastação atingiu o próprio comportamento e subjetividade humanos: com violência generalizada e massacre sistemático de populações. O morticínio desenvolveu-se em escala industrial. Exemplo disso foram os campos de concentração nazistas, o bombardeio da cidade alemã de Dresden e as duas bombas atômicas lançadas no Japão já derrotado.

As raízes estruturais dessa catástrofe estão presentes na própria natureza competitiva do modo de produção capitalista que se acirra com o capitalismo monopolista. O imperialismo eleva a competição para o nível político-econômico tomando uma dimensão crescentemente militar-econômica pela divisão do mundo entre as potências imperialistas. Os Estados e suas forças armadas participam das disputas entre poderosos grupos industriais e financeiros. As guerras mundiais foram produto da tendência do sistema imperialista ao expansionismo agressivo.

Após a primeira guerra interimperialista (1914-1918), os levantes revolucionários que se seguiram foram suficientemente poderosos para impedir a restauração do capitalismo na antiga Rússia imperial. Porém, o fato de não ocorrerem novas vitórias enfraqueceu o proletariado soviético. O Estado operário (expropriação da burguesia, monopólio do comércio exterior e economia planejada) sobreviveu, mas de maneira deformada, com a emergência do domínio da burocracia e de sua expressão política: o stalinismo.

De fato, aSegunda Guerra Mundial não foi uma luta entre democracia e fascismo, mas uma disputa entre potências imperialistas pela hegemonia mundial. O imperialismo alemão não era diferente dos outros imperialismos: sobre todos eles pesam crimes contra a humanidade. Porém, o imperialismo alemão sob a bandeira do nazismo desencadeou a guerra mundial com a agressão à Polônia em 1º de setembro de 1939. 

Depois de vencer a guerra no Oeste europeu, com vitórias nos Países Baixos e França em 1940, a máquina militar nazista voltou-se, em 1941, para seu objetivo central: a destruição do Estado operário soviético, o que significava uma contrarrevolução em grande escala. Em 22 de junho de 1941, iniciava-se a Operação Barbarossa. Para destruir o Exército Vermelho, Hitler arregimentou pelo menos 152 divisões alemãs, incluindo 19 divisões panzer e 15 divisões de infantaria motorizada, além de 15 divisões finlandesas e 14 divisões romenas. Em termos de equipamentos, as forças alemãs somavam cerca de 3.350 tanques, 7.200 peças de artilharia e 2.770 aeronaves que representavam 65% da força aérea de primeira linha (GLANTZ; HOUSE, 2009).

Foi um verdadeiro desastre para os soviéticos. Um desastre plenamente evitável. Mesmo possuindo 39 mil canhões e morteiros, mais de 9 mil aviões e 11 mil blindados, depois da primeira semana de batalhas, restou pouca coisa.


A invasão alemã da União Soviética em junho de 1941, juntamente com a sabotagem stalinista do Exército Vermelho (liquidação de seus generais, recusa em preparar o país para o ataque alemão e o bloqueio da resistência nos primeiros dias da invasão), praticamente levaram à destruição da URSS em 1941 (COGGIOLA, 2015, p. 178-179).


No entanto, depois de uma série de derrotas colossais, os soviéticos detiveram os nazistas às portas de Moscou, numa batalha que oficialmente durou de 30 setembro de 1941 até 20 de abril de 1942, apesar do número excessivo de erros de Stalin. Hitler, num evento em Berlim, no dia 4 de outubro de 1941, chegou a afirmar que o avanço para Moscou estaria em seus estágios finais, sendo a maior batalha da história e que, uma vez morto, o dragão soviético nunca mais se levantaria (NAGORSKI, 2015). O custo foi altíssimo para o Exército Vermelho: 1.896.500 perdas entre mortos, desaparecidos, prisioneiros e hospitalizados. É importante destacar que, devido ao tratamento dispensado pelos nazistas aos prisioneiros soviéticos, a maioria deles foi condenada à morte.

O ponto de virada estratégico se deu com a derrota nazista em Stalingrado, em fevereiro de 1943. Caso vencesse, o imperialismo alemão sairia fortalecido tanto no plano estratégico como econômico, tendo possibilidades para lançar uma ofensiva contra Moscou, o Oriente Médio e, até mesmo, a Grã-Bretanha. No entanto, dos poderosos 6º Exército e 4º Exército de Blindados nazistas de 330 mil homens, restaram apenas 91 mil soldados esfomeados e exaustos, dentre eles 22 generais que se renderam em 2 de fevereiro de 1943. Tal vitória soviética foi consolidada com outra no maior confronto de blindados numa guerra: a Batalha de Kursk, entre julho e agosto de 1943. A partir desse evento, Hitler não reuniu mais condições de uma grande ofensiva contra a URSS, dedicando-se apenas às batalhas defensivas para adiar a derrota final. Do ponto de vista militar, a derrota do exército nazista na União Soviética foi decisiva para a derrocada do III Reich, pois


[...] durante o verão europeu de 1942, o alto comando alemão havia concentrado 70% do contingente de suas forças armadas contra a URSS, ou seja, 179 divisões, sem contar as 71 divisões de seus aliados (22 divisões romenas, 14 finlandesas, 10 italianas, 13 húngaras, 1 eslovaca e 1 espanhola). Assim, naquele verão, 250 divisões – cerca de 3 milhões de homens – lutavam contra as forças soviéticas (WERTH, 2015, p. 16).


As melhores tropas alemãs estavam na Frente Leste e não, na Ocidental, além disso, o Exército Vermelho infringiu 75% das baixas ao exército do Terceiro Reich na guerra (COGGIOLA, 2015). Para tentar desvirtuar a importância fundamental do Exército Vermelho para o fim da barbárie nazista, criou-se a mitologia de que a derrota alemã foi causada pelo número e não pela habilidade, sendo a vitória soviética obtida ao preço de rios de sangue, enquanto os generais e marechais nazistas foram endeusados por terem lutado com poucos recursos e muita inteligência, podendo ter vencido, não fosse a liderança desastrosa de Hitler. 

Na verdade, a marcha vitoriosa do Exército Vermelho foi um evento de consequências revolucionárias, indo além do aspecto militar. Vassily Tchuicov, o Marechal que comandou as forças soviéticas no aniquilamento do III Reich, assim retrata esse movimento progressivo.


As vitórias do Exército Soviético ajudaram a luta pela libertação nacional nos países europeus ocupados pelos nazistas. Essa luta foi liderada pelo Partido Comunista e outros partidos operários, que uniram centenas de milhares de patriotas. Com o avanço do Exército Soviético em direção ao Dniestre e à porta de entrada para os Balcãs, o movimento antifascista se tornou mais ativo nos países satélites da Alemanha. Na Bulgária e na Romênia, os exércitos sublevados e de libertação nacional cresceram em número. Naquele verão, as unidades búlgaras de partisans totalizavam cerca de 30 mil combatentes, que imobilizaram o exército monarquista. Em maio a Frente Húngara, foi formada por iniciativa dos comunistas da Hungria e, na Romênia, formou-se um bloco nacional-democrático, que organizou um levante armado antifascista.
Na Iugoslávia, na Albânia e na Grécia, sob a liderança dos comunistas, opartisans lutaram com muita bravura contra os invasores fascistas em batalhas que mantiveram 19 divisões fascistas ocupadas e imobilizadas.
O povo polonês, independentemente da política traidora de Mikolajczyk e de seu governo no exílio, intensificou a luta armada contra os invasores nazistas (TCHUICOV, 2017, p. 15).

 

A bandeira da URSS tremulando em Berlim significou a vitória das conquistas da Revolução de Outubro de 1917, apesar da deformação stalinista e da barbárie nazista. A derrota do Terceiro Reich abriu possibilidades emancipatórias para o conjunto da humanidade, desde os movimentos de libertação nacional nas nações oprimidas à luta pelos direitos civis nos países capitalistas avançados. 

Viva os 76 anos da derrota do nazismo! Viva o Exército Vermelho!

 

Referências

COGGIOLA, Osvaldo. A Segunda Guerra Mundial: causas, estruturas, consequências. São Paulo: Editora Livraria da Física, 2015.

GLANTZ, David M. & HOUSE, Jonathan. Confronto de titãs: como o Exército Vermelho deteve Hitler. São Paulo: C&R Edditorial, 2009.

NAGORSKI, Andrew. A Batalha de Moscou: a luta sangrenta que definiu os rumos da Segunda Guerra Mundial. São Paulo: Contexto, 2013.

TCHUICOV, Vassily. A conquista de Berlim: 1945: a derrota dos nazistas. São Paulo: Contexto, 2017.

WERTH, Alexander. Stalingrado 1942: o início do fim da Alemanha nazista. São Paulo: Contexto, 2015.



[1] A população mundial, em 1940, era estimada em 2,3 bilhões de pessoas.

segunda-feira, 10 de maio de 2021

Daniel Bensaïd: um pensamento de combate para o tempo presente

maio 10, 2021

Antonio Marcondes
GPOSSHE-UECE/GEM-UFC

    Michel Löwy, importante marxista brasileiro, em certa ocasião se referiu a Daniel Bensaïd (1946-2010) como um “comunista herético”[1], tal designação é absolutamente oportuna, sobretudo porque se trata de um autêntico pensador marxista-trotskista não dogmático; lúcido, combativo e revolucionário no pleno sentido da palavra, foi um dos mais representativos militantes de uma geração que não sucumbiu aos imperativos do derrotismo político pós 68. Nesse sentido, podemos afirmar que seu pensamento crítico é uma “arma quente” para os combates do tempo presente.

    Daniel Bensaïd foi um dos fundadores da Juventude Comunista Revolucionária (JCR) na França em 1966, agrupamento de jovens revolucionários inspirados no pensamento de Trotsky e Che Guevara. Se tornou uma figura expoente nas revoltas do movimento de Maio de 68. Neste mesmo ano, ele organizou com amigos e estudantes radicalizados o Movimento 22 de Março. E um ano depois, organizou junto com Alain e Hubert Krivine, Janete Habel Catherine Samary e outros, a Liga Comunista Revolucionária (LCR), seção francesa da 4ª Internacional.

    Publicou inúmeros livros na melhor tradição da polêmica marxista, sempre dirigindo seu arsenal teórico inesgotável contra um alvo certo: a sociedade burguesa e suas engrenagens produtoras de misérias e infâmias. Nessa fortuna literária de combate encontramos (no original): Les Dépossédés: Karl Marx, les voleurs de bois et le droit des pauvres; Marx, L’intempestif;  Penser Agir; La Politique Comme Art Stratégique; Moi La Révolution; La Revolution Et Le Pouvoir; La Discordance Des Temps, Le Pari Melancolique.

    O furor dos escritos de Bensaïd é destilado com a pena da poesia, ironia e crítica política espicaçante. Seu pensamento nunca se vergou aos ditames da ordem estabelecida, fui um verdadeiro insurrecto contra os simulacros da sociedade da mercadoria e seus espetáculos de ignomínia. Sua inclemente navalha teórica abriu profundas fissuras na consciência comum, mostrando a necessidade imperiosa de nunca ficarmos desatentos ao jogo de cartas marcadas da democracia burguesa e seus artifícios de conformismo coletivo.

    Para Bensaïd a dignidade de um revolucionário socialista não pode se dobrar ao arbítrio das classes dominantes. Sua sede de luta era insaciável. Sua moral revolucionária, baseada nos próprios princípios de vida de Marx, Trotsky, e tantos outros camaradas de luta, era “não se resignar, não se reconciliar com os vencedores”. Uma de suas principais refregas no campo teórico e ideológico foi não deixar os preceitos do comunismo autêntico se dissolverem no totalitarismo stalinista. Tinha plena consciência da necessidade de rever criticamente os avanços, limites e, sobretudo os erros que debilitaram a Revolução Bolchevique do ponto de vista histórico.

    Sua lúcida e percuciente análise crítica dos desdobramentos históricos nos ajudam a desvelar as obscuridades que envolvem o debate sobre “Partido” e “Estado”, a ameaça do burocratismo, a indispensável democracia socialista, o pluralismo das posições e a autonomia do conjunto dos movimentos sociais face ao Estado. Questões já suscitas, a propósito, por Rosa Luxemburgo em 1918 (LÖWY, 2013).

    O pensamento filosófico de Daniel Bensaïd não se baseia em modelos acadêmicos. Seu inconformismo político e feroz indignação social atravessam as fronteiras do conhecimento, desaguando numa prática absolutamente consequente que toma a reflexão teórica como uma ferramenta para iluminar os caminhos sinuosos que devem ser sobrepujados para deflagrar a aurora da Revolução.

    A crítica à sociedade do “espetáculo” não é uma mera apresentação de ideias sofisticas e grandiloquentes, nas palavras de Bensaïd:


Esta sociedade que consome durante um presente eterno se torna propícia a uma violência que não é mais propriamente histórica, sagrada, ritual, ideológica, mas que explode de maneira esporádica ‘no seio do nosso universo de quietude consumada’ e ‘vem reassumir, aos olhos de todos, uma parte da função simbólica perdida, muito brevemente, antes de desaparecer ela mesma enquanto objeto de consumo’. Desprovida de toda visão estratégica, esta violência urbana […], colocada em imagens televisuais, são ofertadas como espetáculo. Após o espetáculo, estágio supremo do fetichismo da mercadoria, soa a hora do simulacro como estágio supremo do espetáculo (BENSAÏD, 2013, p. 30, itálico nosso).

 

        A negação da historicidade dos processos sociais é igualmente uma possibilidade estratégica de negação da política; de negação das perspectivas históricas de organização das estratégias e ações de mobilização da lutas de classe no seio do capitalismo organizado do pós-guerra.

        A “questão foucaultiana”, por exemplo, estaria ligada ao “novo espírito da contrarreforma liberal” e, por uma malícia da razão,


[…] do qual tem o segredo, a invenção conceitual de Deleuze e Fouccault, radicalmente subversiva em relação ao capitalismo estatista […] dos ‘trinta gloriosos’ [30 anos de crescimento capitalista 1945-1975], acabaria assim por perder a hora. Ela entraria em ressonância com o discurso da desregulamentação liberal, da ‘sociedade líquida’, da história em migalhas. Ao isomorfismo entre um capitalismo nacional, centralizado e organizado, se sucederia um novo isomorfismo entre um capitalismo mundializado e desterritorializado e um movimento social reticular ou rizomático. Uma vez mais, o sistema demonstra sua capacidade de se nutrir da crítica e de digeri-la (BENSAÏD, 2013, p. 32, itálico nosso).

 

    Para Foucault, a revolução não seria mais uma necessidade, mas tão somente uma mera desejabilidade subjetiva. Nesse sentido, de acordo com Bensaïd, é todo um paradigma político que é colocado em questionamento, paradigma no qual se articulava uma “concepção de Estado, uma representação das classes e de suas lutas e um pensamento estratégico acerca da revolução. Em Foucault, o poder do Estado se torna substancialmente diluído nas relações de poder, as classes na plebe hirsuta e a revolução nos caprichos de uma subjetividade desejante” (BENSAÏD, 2013, p. 32-33). Tal proposta tem de tudo, menos engajamento consciente e consequente. O postulado segundo o qual é no plano do desejo de revolução que residiria hoje o principal problema contemporâneo  emerge, de fato, como uma capitulação frente as injunções autoritárias e reacionárias da sociedade burguesa; uma conformação passiva às estruturas da ordem vigente. Foucault via na revolução iraniana “uma nova semática dos tempos históricos”, um fator revelador da nova dinâmica da sociedade pós-guerra. Essa visão equivocada e distorcida das possibilidades históricas concretas de uma revolução autêntica em Foucault, tem uma razão de ser:


Ao invés de buscar superar a crise pela extensão no tempo e no espaço da revolução em permanência, Foucault se consola das ilusões perdidas pensando-a ‘não simplesmente como um projeto político, mas como um estilo, um modo de existência, com sua estética, seu ascetismo e formas particulares de relação consigo mesmo e com os outros’. Ou seja, uma revolução reduzida a um estilo e a uma estética sem ambição política. O caminho está aberto às revoltas em miniatura a aos prazeres pós-modernos”(BENSAÏD, 2013, p. 34, itálico nosso).

 

    Sob muitos aspectos, o debate contemporâneo acerca das possibilidades históricas da Revolução Socialista ganha contornos de urgência. Trata-se de pensar como superar concretamente o modelo de sociedade capitalista via insurreição das massas organizadas. Com efeito, Daniel Bensaïd (2008, p. 9) faz uma constatação imprescindível sobre o “esgotamento do debate estratégico na esquerda em geral e na esquerda radical em particular”, pois, a socialdemocracia (no Brasil PT e PSOL) aliada a uma perspectiva liberal moderada reproduz apenas “banalidades apologéticas”. Por outro lado, os partidos de inspiração stalinista deformaram a perspectiva histórica da revolução permanente. Nesse sentido, ficaram reduzidos à incapacidade teórica e a uma debilidade moral e política enormes. Sucumbiram a uma agonia lancinante; sem estratégias revolucionárias, não passam de organizações de cunho reacionário e meramente eleitoreiras.

    Não podemos correr o risco de se contentar com um programa meramente eleitoral. A burguesia e sua sanha de dominação imperialista não nos oferece outra estratégia senão a Revolução  Socialista. As estruturas hegemônicas da sociedade capitalista não cederão nem um palmo de dignidade, muito menos de universalização das riquezas por ela extraída mediante a exploração do trabalho. A agenda neoliberal de destruição dos direitos sociais e conquistas históricas da classe trabalhadora, está a todo vapor, sobretudo no Brasil governado pelo neofascista Bolsonaro, representante da fração mais reacionária e autoritária do exército, apoiado pela extrema direita e o imperialismo estadunidense. Nosso capitalismo dependente é um indisfarçável opróbrio.

    No contexto atual de terra arrasada pela pandemia da Covid-19 e pela crise econômica em curso que atinge de forma avassaladora o conjunto da classe trabalhadora, não resta outra alternativa mais viável para caminharmos rumo a uma sociedade emancipada, senão a Revolução Socialista. O comunismo é uma possibilidade histórica que urge realizar. E aqui duas últimas questões candentes levantadas por Bensaïd (2008, p. 9) para refletirmos sobre o “novo tempo do mundo”:


O que pensar da luta de classes, na época do aumento da força de um individualismo sem individualidade, da desfiliação social e nacional, de seres sociais cujas identidades plurais ameaçam fragmentar-se?

 

A idéia de um futuro comunista da humanidade morreu com o aniquilamento de suas caricaturas burocráticas e com o encerramento do que alguns historiadores definem como o ‘curto século XX?

 

Questões para os combates do tempo presente.

 

 

REFERÊNCIAS

BENSAÏD, Daniel. Os irredutíveis: teoremas da resistência para o tempo presente. São Paulo: Boitempo, 2208.

_______________. Espetáculo, fetichismo, ideologia (um livro inacabado). Fortaleza: Plebeu Gabinete de Leitura /Expressão Gráfica e Editora, 2013.



[1]  Löwy explica que: “Auguste Blanqui, comunista herético é o título de um artigo que escrevemos juntos em 2006, publicado depois na revista Margem Esquerda. Este conceito se aplica perfeitamente a seu próprio pensamento, teimosamente fiel à causa dos oprimidos, mas alérgico às ortodoxias” (LÖWY, 2013, p. 10, itálico no original).