sábado, 3 de abril de 2021

Feminismo na ciência

abril 03, 2021

Photo: Science in HD

Karla Costa

Doutora em Educação pelo Programa de Pós-Graduação da Universidade Estadual do Ceará - PPGE/UECE


    Do ano passado para cá, recebi alguns convites para falar sobre mulheres e ciência. Todos os debates foram riquíssimos e eu não seria capaz de reproduzir aqui a diversidade de perspectivas trazidas por mulheres incríveis que conheci nesses espaços. Há muito tinha resolvido que transformaria em texto algumas anotações que fiz para essas atividades; somente agora, consegui dar cabo desse projeto. O resultado não é um artigo científico bem referenciado, mas tentei construir uma organicidade lógica das ideias. O objetivo é guardar o texto para futuras leituras.

Há diferentes vertentes do feminismo, tanto que hoje usa-se a palavra no plural: feminismos;


Mas o que caracteriza uma vertente?


Dividimos as vertentes do feminismo a partir de como se compreende a origem da opressão e o que é preciso ser feito para superar essa opressão. Como vocês já devem saber, minha vertente é o feminismo marxista, ou marxismo feminista, como nomeiam algumas correntes. A questão é: compreendo a superação da opressão das mulheres a partir da superação do capitalismo porque a origem e o interesse dessa opressão está nas relações capitalistas.

A opressão da mulher nem sempre existiu. Há estudos que apontam que, em sociedades primitivas, havia divisão do trabalho, mas que não implicava subordinação das mulheres. Estudos divergem sobre a origem dessa opressão; alguns apontam a produção do excedente, outros falam sobre a propriedade privada, alguns tratam do controle da prole. Tenho gostado bastante de pensar que tudo isso tem relação com a opressão das mulheres. 

Gosto bastante do livro "A criação do patriarcado” porque a autora, Gerda Lerner, traz, como o título indica, a história da formação do patriarcado desde o que os estudos antropológicos e arqueológicos das comunidades primitivas apontam, assim ela demonstra como eram as relações dessas sociedades e que não há evidências de sociedades matriarcais, se por matriarcado entendermos o par de patriarcado, ou seja, sociedades em que o poder exercido por mulheres causava opressão aos homens.


As evidências que a autora apresenta nos mostram que em muitas sociedades antigas algumas mulheres exerciam funções ou estavam em posições mais privilegiadas do que outras, como as concubinas e as sacerdotisas etc. Esse livro é fundamental exatamente para uma das tarefas a que se propõe: contar a história das mulheres omitida da grande História e desconhecida pelas mulheres.

Outro aspecto interessante dessa obra é a argumentação, com base em evidências, de que, no momento em que se instala, a opressão é patriarcal. A autora, então, aponta para a instalação, por exemplo, do escravismo e de como a troca entre tribos, depois a escravização de mulheres, pode ter contribuído para a instauração desse novo modo de produção. A partir daí a autora desdobra como a opressão das mulheres sempre esteve intrinsecamente ligada ao escravismo.

Em diferentes sociedades a opressão das mulheres vigorou, mas isso não significa que as mulheres sempre foram passivas ou que não produziam conhecimento. 

Na Antiguidade, desde muito tempo, foi negado às mulheres acesso à educação formal. Na Grécia Antiga, berço da filosofia, só podiam ser considerados filósofos, homens sábios, como o nome indica, os homens, que também eram os que poderiam exercer a democracia. O lugar da mulher era como a cuidadora do lar. Aqui os filósofos já desenvolveram um ponto de vista centrado na dualidade homem-mulher.

Mulheres na Grécia


Pitágoras expressou esse ponto de vista, no século V a.C., afirmando que a existência de um bom princípio que criaria a ordem, luz e homem; e um mal princípio que criou caos: sombra e mulher. Aristoteles afirmava que o sangue menstrual era o material para o crescimento da semente do homem, que seria o carpinteiro e a mulher, a madeira. Esse pensamento dualista, Zeus/Hera, tem grande influência no desenvolvimento da ciência e perdura até hoje.

Ainda assim, há aqui registros de mulheres importantes para a história do desenvolvimento do pensamento humano. Sócrates cita Aspasia, chamando-a de “minha professora”; e sabe-se que Theano e suas filhas continuaram os estudos de Pitágoras. Talvez, o caso mais emblemático seja o de Hypatia de Alexandria que, em Roma, escapou da socialização das mulheres graças ao pai que a iniciou nas artes, ciência, filosofia, matemática. Considerada pelo cristianismo como herege, foi acusada de promover práticas pagãs, morreu linchada por uma multidão. Hypatia escreveu três livros, inventou um astrolábio e um planisfério, aparato para destilar água, mediar a gravidade dos líquidos.

Hipatia ou Hipácia - Filósofa Grega Neoplatônica do Egito Romano


Na Idade Média, a Igreja Católica monopolizava a educação, por isso os conventos eram praticamente os únicos lugares onde mulheres podiam se educar. Muitas mulheres produziram conhecimento: a abadessa Hildegarde of Bingen, que vivei 30 anos num convento, escreveu extensamente sobre natureza, astronomia, elaborou o sol no meio do firmamento, fez estudos de medicina, mas, quando henrique VIII fechou os conventos na Inglaterra, os trabalhos dela foram doados à Oxford e Cambridge, instituições masculinas.

Não posso esquecer de falar sobre a caça às bruxas ocorrida na Idade Média nem deixar de indicar o livro "Calibã e a bruxa", de Silvia Federici, no qual ela argumenta que a caça às bruxas foi um evento fundamental para a consolidação do capitalismo, em sua fase de acumulação primitiva. Mulheres, na Idade Média, também não estavam passivas às condições em que viviam. Federici expõe como elas estavam organizadas nas lutas antifeudais, nos movimentos milenaristas e que muitos movimentos heréticos eram organizados por mulheres que se opunham à ordem. A luta pela terra era uma das pautas dessas mulheres.

A caça às bruxas foi um empreendimento para domesticar as mulheres e limitá-las à esfera privado. Por quê? Porque, ao exercer as tarefas domésticas no lar, as mulheres assumem a manutenção da força de trabalho a ser vendida ao capital e da qual o capitalista extrai a mais valia.


Em casa, as mulheres produzem e reproduzem a força de trabalho a ser explorada nas fábricas, nos postos de trabalho e ainda, ao ingressarem no mercado, passam a ser duas vezes exploradas, já que acumulam as funções fora e dentro do lar. É claro, como sabemos, que todo o sistema de exploração, para se manter, precisa de um sistema ideológico que lhe dê suporte e que se reproduza quase autonomamente incutindo as ideias e os ideais que mantem o sistema de exploração de pé, aqui podemos inserir a cultura, a educação, a religião.

Finalmente, chegamos ao feminismo.

É no Renascimento que a chamada “Quereles das femmes” marca o início das reivindicações das mulheres por igualdade. Essas mulheres passam a exigir educação, contrapondo-se à ideia da inferioridade natural da mulher sustentada na ciência, desde a Antiguidade. A mulher era vista como um ser inferior e naturalmente irracional, histérica. O discurso científico não foi usado apenas para justificar a opressão das mulheres, mas discursos pseudocientíficos da antropologia e do darwinismo social afirmavam a inferioridade de raças.


Ilustração de A cidade das Damas de Cristina Pisano


As mulheres que passaram a reivindicar direitos eram, naturalmente, as que tinham algum acesso à riqueza e à cultura, de modo geral, pois tinham se educado minimamente para debater, nos círculos sociais aristocratas e burgueses, os direitos das mulheres sem que isso lhes custasse a vida; mesmo assim, muitas sofreram as consequências de sua reivindicação, afinal nunca se tratou apenas dos direitos das mulheres, mas esse levava naturalmente ao questionamento da ordem social estabelecida.

O feminismo se introduz no Brasil também ligado à reivindicação por educação. No Brasil colônia e império, a educação de mulheres era inexistente e voltava-se para as prendas domésticas. As mulheres que ainda acessavam essa educação eram as da classe média e alta da sociedade.

A partir daqui, quero discutir dois pontos: a mulher como objeto da ciência e a mulher como cientista. Claro que o debate é superficial, mas espero que ele sirva para colocar questões a serem aprofundadas.


Podemos definir, de modo bastante geral, o feminismo como uma tomada de consciência do coletivo de mulheres acerca da opressão, dominação e exploração que sofremos, no seio da sociedade capitalista, bem como das sociedades que o antecederam. O feminismo se impõe à diversos setores sociais, com a ciência não foi diferente, mesmo que tenhamos sido excluídas desse campo da práxis humana.


Quanto a sermos consideradas em nossa singularidade, vale destacar que mulheres eram excluídas de estudos clínicos de diversos medicamentos, pois o corpo feminino era visto como reflexo do masculino, feminismo e lesbianismo eram consideradas doenças já nos séculos XIX e XX, a sexualidade das mulheres era considerada e tratada como uma doença através de procedimentos como o de remoção do clitóris e dos ovários. Charles Darwin, por exemplo, considerava as mulheres como inferiores.

No Brasil, estudos sobre as mulheres passam a surgir, em meados de 1970-1980. Período também em que se dá a entrada das mulheres nas universidades, por mais que ainda tenhamos que reivindicar a legitimidade diante dos saberes acadêmicos, mas surgem linhas, núcleos, programas de pesquisa, grupos de estudo, de trabalho, congressos que trazem a temática das mulheres.

É claro que esse movimento vai transformando, questionando as instituições e as estruturas da prática científica. O feminismo critica e aponta que a pretensa neutralidade científica é falsa. A ciência é política. Quando questiona que o privado é público, ou seja, questões que antes não eram compreendidas nem reconhecidas, pois ocorriam na privacidade do lar, passam a evidenciar as relações de poder nas quais às quais as mulheres estão subjugadas, inclusive no que diz respeito à produção de saberes. Esse questionamento da neutralidade da ciência evidenciou como ela foi usada para justificar opressões: práticas sexistas, racistas e xenófobas, por exemplo.


A luta concreta das mulheres obrigou a ciência a pensar sobre nós.


Aqui é preciso colocar uma questão de classe: o mesmo tratamento foi dado às mulheres negras? Quando as mulheres começam a reivindicar e a ocupar os espaços na ciência, quem são essas mulheres. Na resposta, precisa ficar explícito que só poderiam ser mulheres que tinham a possibilidade de acessar um conjunto de conhecimentos e bens materiais que tornaram esse acesso possível. O feminismo, até hoje, questiona a visão do senso comum sobre o cientista, que é uma imagem marcada por um gênero, uma classe e uma raça, determinada pelas relações de exploração e opressão das quais falei antes.

A história está recheada de casos que recentemente vieram à tona de apropriação dos trabalhos de mulheres, de relatos pessoais de abuso, machismo, sexismo vivenciados por mulheres nos locais de atuação. Por mais que possa parecer, não há uma igualdade de condições no acesso à produção científica por mulheres nem pelas classes subalternas.

Com a pandemia do novo coronavírus (SARS-COV-2), algumas notícias evidenciaram essa desigualdade: redução da produção científica feita por mulheres, mulheres gastam mais tempo com as tarefas domésticas, mulheres que abandonaram os cursos de graduação e pós-graduação. Infelizmente não tenho mais as referencias desses dados, mas uma breve pesquisa  na internet trará à tona essas informações.

Para além desse machismo mais superficial que se expressa no comportamento individual, é preciso destacar o machismo institucional que, por mais que as instituições acadêmicas queiram se valer de políticas inclusivas, que se manifesta nas práticas e na cultura organizacional: concursos públicos que não diferenciam a produção de homens e de mulheres, seleções que não consideram as condições femininas como a maternidade e, por isso, não criam condições reais de permanência para as mulheres. Segundo dados do ScholarOne, a queda de artigos com mulheres primeiras autoras caiu 25% entre o primeiro e o segundo trimestre de 2020.

Se uma mulher deseja fazer ciência, ela certamente vai acumular as tarefas domésticas com as tarefas da atividade acadêmica ou de pesquisa; se ela não tiver financiamento e precisar sustentar a si mesma e à família, deve somar as tarefas do trabalho remunerado. Se essa mulher for preta, some-se a todas as dificuldades àquelas próprias que uma mulher negra enfrenta. Nessas condições, como podemos disputar o espaço restrito dos meios científicos em pé de igualdade com os homens? 

A resposta para a pergunta acima é quase uma pegadinha, afinal a sociedade capitalista não deseja que mulheres exerçam essas atividades, pelo menos não se ela precisar abandonar as tarefas de cuidado do lar, pois esse é o papel que o capitalismo espera que exerçamos. Ele até tolera que acumulemos as tarefas ou que paguemos outra mulher para assumir aquelas que não conseguirmos dar conta, mas não podemos questionar qual é o nosso lugar nessa sociedade.

Por tudo isso, um alerta é fundamental: o sexismo e o machismo não é apenas um problema de alguns homens nem de algumas instituições, mas uma característica intrínseca à sociedade capitalista que se desdobra em diversas esferas: individuais, institucionais e estruturais. São muito importantes movimentos de denuncias de casos singulares de assédio moral, sexual, machismo, mas sempre precisamos conectá-los com a lógica perversa do capitalismo porque é ele quem produz e reproduz a opressão.

Se é preciso apontar alguma perspectiva de pensar o papel do questionamento que o feminismo traz para o campo científico, penso que é este: atuar no que é aparente e chegar na estrutura para destruí-la. Não apenas a perspectiva de gênero, mas também a de raça e da luta de classes como a articulação de todas as lutas para revolucionar o discurso e a produção científica, afinal é preciso mudar o olhar sim, questionar com a exigência de uma tomada de posição para a construção de uma nova práxis.

É daqui para frente; não vamos recuar.


Bibliografia usada como base para esse texto

GERDA, Lerner. A criação do patriarcado: a história da opressão das mulheres pelos homens. Tradução Luiza Sellera. São Paulo: Cultrix, 2019.

TELES, Maria Amélia de Almeida. Breve história do feminismo no Brasil e outros ensaios. São Paulo: Editora Alameda, 2017.

*Falta um título que eu não consegui encontrar, mas continuarei procurando e atualizo assim que o achar. 

quarta-feira, 31 de março de 2021

A fraude de 31 de março

março 31, 2021

 

Frederico Costa

Professor da Universidade Estadual do Ceará – UECE e Coordenador do Instituto de Estudos e Pesquisas do Movimento Operário – IMO


A "Ordem do Dia Alusiva ao dia 31 de março de 1964"[1] do Ministro de Estado da Defesa, General Walter Souza Braga Netto, reacende velhos mitos superados por um simples estudo dos fatos históricos. 

Comemorar o golpe militar-empresarial de 1964, no Brasil de 2021, é algo, no mínimo, esdrúxulo. 

Esclareço, primeiramente, com alguns exemplos dos militares nas atuais estruturas de poder.

Temos no Executivo, um capitão da reserva que tem como ídolo um torturador, acompanhado por um general pouco afeito a negros e povos originários, que estão levando, com seus cúmplices institucionais, o país ao aprofundamento da crise econômica, social e sanitária. Há mais de 11 mil militares no governo Bolsonaro, tanto da reserva como ativos[2], para fazer o que não sabe? A recente gestão do general Eduardo Pazuello no Ministério da Saúde trouxe um legado de caos, omissões e explosão de mortes por Covid-19[3]. Outro fato trágico, foi a queima de recursos públicos para a compra de picanha, cerveja, bacalhau e uísque para militares[4].

Apesar desses indícios de incapacidade de gestão pública para as grandes maiorias, ainda há quem defenda um regime militar contra as nossas parcas instituições democrático-burguesas. Daí a necessidade de desmascarar fraudes como a comemoração do golpe de 1964 e da ditadura militar.

O golpe teve início com o deslocamento de tropas em Minas Gerais, na madrugada de 31 de março de 1964. O chefe da IV Região Militar, general Olímpio Mourão Filho (1900-1972), de passado integralista[5], justificou o movimento contra o governo constitucional de João Goulart alegando que o presidente tinha abusado do poder e devia ser afastado. 

No dia 1º de abril, “Dia da Mentira”, o golpe consolidou-se, porque setores das forças armadas fiéis à legalidade democrática não se articularam para sair em defesa do governo nem houve uma resposta operário-popular efetiva para conter os golpistas. 

No dia 2 de abril, foi dado o verniz político-institucional ao golpe.


[...] violando todas as normas constitucionais (uma vez que o presidente da República estava no território nacional e não renunciara), o presidente do Senado Federal, Auro de Moura Andrade, declarou a vacância da Presidência da República e o lugar de Jango foi usurpado por Ranieri Mazzili [...] O ato violador foi imediatamente aprovado pelo embaixador Lincoln Gordon e, oficialmente, por mensagem do presidente Lyndon B. Johnson, na qual o governo de Washington cumprimentava Mazzili por assumir a Presidência (NETTO, 2014, p. 69).

 

Na verdade, o golpe militar-empresarial de 1º de abril foi contra uma agenda de inclusão social, nacionalismo econômico e democratização política, num contexto histórico de avanço mundial das lutas de libertação nacional, pelos direitos civis, contra as opressões e de ruptura/superação do imperialismo/capitalismo. No Brasil, o governo derrubado não tinha nada de comunista.


Goulart tentou, de maneira corajosa, mas politicamente desastrada, liderar uma coalizão da burocracia estatal, do capital nacional e dos trabalhadores organizados em apoio às chamadas “reformas de base”. Essas reformas deveriam transformar as relações sociais e de propriedade responsáveis pela dependência externa e pela reprodução da pobreza, melhorar a distribuição de renda e riqueza e consolidar uma cidadania mais ampla. O sistema de acumulação proposto incluía o desenvolvimento industrial com base na substituição de importações, a nacionalização dos serviços essenciais, a instauração de controles sobre o capital transnacional e o setor financeiro, o reescalonamento ou não pagamento da dívida externa, a reforma agrária centrada na desapropriação de grandes propriedades “semifeudais” de baixa produtividade, reformas da administração pública e expansão da democracia (SAAD FILHO E MORAIS, 2018, p. 46).

 

No entanto, para as classes dominantes brasileiras, de ontem e de hoje, redução da pobreza, direitos sociais, controle sobre o capital, nacionalização de setores essenciais e maior participação popular nas políticas públicas têm aparência de comunismo. Daí a “Ordem do Dia” comemorando o golpe falar de “amplo apoio da imprensa, de lideranças políticas, das igrejas, do segmento empresarial, de diversos setores da sociedade organizada e das Forças Armadas”. Mas, não cita o povo, homens e mulheres, trabalhadores do campo e da cidade, pobres, assalariados, remediados, estudantes, intelectuais, servidores públicos, parlamentares, religiosos, burgueses e até militares comprometidos com a democracia, que defendiam a ampliação de direitos e as reformas de bases. O golpe de 1º de abril foi um golpe contra o povo, logo contra a maioria dos brasileiros.


Os dados do Ibope mostram que, às vésperas de ser deposto, em março de 1964, João Goulart tinha boa aprovação na opinião pública das grandes cidades brasileiras, com 45% de “ótimo” e “bom” na avaliação de governo, e 49% das intenções de voto para 1965. Apenas para 16% dos entrevistados o governo era “ruim ou péssimo”, e 59% eram a favor das reformas anunciadas no Comício de 13 de março (NAPOLITANO, 2014, p. 47).

 

Para piorar, o documento de comemoração golpista ainda afirma que as “Forças Armadas acabaram assumindo a responsabilidade de pacificar o País, enfrentando os desgastes para reorganizá-lo e garantir as liberdades democráticas que hoje desfrutamos”. Bem, a pacificação foi trazida pela onipresença policial-militar, pelo terrorismo de Estado, pelas perseguições, pelos exílios forçados, pela generalização das torturas, pelos desaparecimentos/assassinatos dos dissidentes. O que o regime ditatorial fez, além de roubar os sonhos, projetos e possibilidades de gerações de milhões de brasileiros e brasileiras, foi instaurar um modelo econômico a serviço do grande capital estrangeiro e nacional sobre a superexploração dos trabalhadores. A ditadura militar gerou o agronegócio mantendo o latifúndio. Provocou uma urbanização desenfreada incentivada pelo aumento das desigualdades sociais e da dependência do Brasil aos centros imperialistas, em particular aos Estados Unidos. 

Já as liberdades democráticas que desfrutamos hoje foram frutos das diversas formas de resistência à ditadura militar-empresarial: dos que tombaram nas masmorras, dos que não se calaram, das greves, das passeatas, das ocupações de terra, dos movimentos contra a carestia, das lutas das mulheres, do combate ao racismo, das iniciativas culturais, das organizações LGBTs, das comunidades eclesiais de base, dos grupos de esquerda, do sindicalismo de combate. As conquistas e os direitos não são dádivas das classes dominantes, mas da luta de milhões. O povo organizado derrotou a ditadura militar.

Porém, enquanto militares da ativa ou de pijama continuarem comemorando o golpe de 1º de abril de 1964 e a noite de 21 anos contra o povo brasileiro, as tênues liberdades democráticas atuais continuarão inseguras. Aliás vivemos sob um governo de extrema direita, no contexto de um regime político criado pelo golpe de Estado de 2016, no qual as Forças Armadas tomaram parte e ainda são avalistas. Mas, somos a maioria e os verdadeiros produtores da riqueza. A história, inclusive a mais recente, ensina que por mais limitado que o presente se mostre, o futuro nos pertence.

Ditadura nunca mais. Lugar de militar é no quartel. Nenhuma comemoração do golpe de 1º de abril de 1964.

 

Referências

NAPOLITANO, Marcos. 1964: história do regime militar brasileiro. São Paulo: Contexto, 2014.

NETTO, José Paulo. Pequena história da ditadura militar brasileira (1964-1985). São Paulo: Cortez, 2014.

SAAD FILHO, Alfredo e MORAIS, Lecio. Brasil: neoliberalismo versus democracia. São Paulo: Boitempo, 2018.



[3] https://www.dw.com/pt-br/caos-omiss%C3%A3o-e-explos%C3%A3o-de-mortes-o-legado-de-pazuello-na-sa%C3%BAde/a-56890646

[4] https://congressoemfoco.uol.com.br/legislativo/alem-de-picanha-e-cerveja-verba-publica-pagou-bacalhau-e-uisque-para-militares/

[5] Foi militante da fascista Ação Integralista Brasileira - AIB, redigiu um roteiro de uma tomada de poder pelos comunistas, o “Plano Cohen”. Nas mãos do governo, o texto foi divulgado e falsamente atribuído à Internacional Comunista como plano real de insurreição, justificando então a adoção de poderes ditatoriais por Getúlio Vargas. As acusações de ter servido à implantação da ditadura pesaram nos anos seguintes, mas foi absolvido num Conselho de Justificação do Exército em 1955.

segunda-feira, 29 de março de 2021

Pandemia da Covid no Brasil: a dimensão histórica do massacre atual

março 29, 2021

Desenho retratando o interior de um navio negreiro no período da escravidão

Érico Cardoso
Doutorando em educação pela Universidade Estadual do Ceará - PPGE/UECE


    É preciso traçar a dimensão histórica da tragédia atual. Nenhum outro massacre anterior matou tantos brasileiros quanto o atual. Na maior guerra da América Latina, a da tríplice aliança contra o Paraguai, morreram entre todos os exércitos beligerantes, de aproximadamente 300 mil pessoas. Mas se contarmos só o Brasil, foram cerca de 100 mil, porque aqui nós estamos fazendo uma comparação com os mortos pela Covid no Brasil. E alí foram 6 anos de guerra.

    Até hoje, 29 de março de 2021, já morreram 312 mil brasileiros em um ano de pandemia sob o comando de Bolsonaro. Mais do que toda guerra patrocinada pelas classes dominantes da tríplice aliança, e três vezes mais do que a quantidade de brasileiros naquela guerra. Dados quantitativos imensos que todavia não são nem de longe suficiente para revelar a dilaceração e a dor de uma só pessoa que perdeu mãe, pai, filho, irmão, amigo.

    E mesmo esses dados estão subnotificados porque são dados oficiosos, não verificados por uma fonte independente da população que é a principal vítima desse massacre. São os dados do consórcio da grande mídia colhida pelas secretarias de saúde estaduais e na falta de outro levantamento mais preciso. Isso é assim, porque desde o começo o governo federal trata de minimizar a situação, oculta os cadáveres ou escamotear os dados.

    Esse massacre crescente já corresponde ao dobro das mortes em Hiroshima somada as mortes em Nagasaki pelas bombas atômicas.

    Em nenhuma tragédia anterior morreram tantos brasileiros como agora. Nem na maior guerra da história, nem na maior pandemia da história morreram tantos brasileiros como agora.

    Na 2a Guerra Mundial, a Força Expedicionária Brasileira (FEB) perdeu 457 soldados na Itália.

    A gripe espanhola matou 50 milhões entre 1918-20, e infectou 1/4 da população mundial. Para efeito de comparação, até agora, a Covid matou menos de 3 milhões (2,7) em todo mundo. A mortandade da gripe espanhola se revela muito maior quando a gente compara as populações. Agora o mundo tem quatro vezes mais habitantes do que naquela época.

    No Brasil, a gripe espanhola matou muita gente, matou 35 mil. Matou até o então presidente reeleito, Rodrigues Alves, um latifundiário escravista. Então a pior pandemia do planeta matou 35 mil brasileiros em 1919. Ora, em julho de 2020 a atual pandemia já havia ultrapassado essa marca. Logo, 35 mil mortos será apenas 10% dos mortos pela Covid no Brasil hoje.

    Então, a primeira conclusão que nós chegamos é que embora essa pandemia, essa tragédia não seja a pior da história mundial, a pior foi, evidentemente, a gripe espanhola, a atual pandemia de Covid se tornou a pior da história do Brasil. Evidentemente, para a nossa geração essa é a maior tragédia vivida, mas de fato essa já é a maior tragédia de toda a história do país, a pior desgraça de toda a história do país desde 1.530, em termos absolutos de perda de vidas.

Mas porque a pandemia se tornou tão mais severa, tão mais mortal?

    Devido a que a população está sendo exposta de forma indefesa ao vírus, as defesas foram retiradas pelo governo e pelo regime em que ele se assenta. O sistema de saúde foi desmontado. Os direitos trabalhistas foram retirados. Os preços dos alimentos, remédios, oxigênio, combustíveis, dispararam. Os leitos foram reduzidos. A vacina não foi adquirida. As informações dadas foram mentirosas e tudo isso provocou essa quantidade histórica de mortes. O governo que supostamente deveria defender seu povo, o desarmou para a guerra e o povo está sendo dizimado como nunca antes.

    Por tudo isso, não é permitido crer que há descontrole sobre a pandemia, mas sim uma orientação claramente voltada para criar o colapso, criar o caos, o desespero, a precarização da vida. Já estamos entrando no estágio Guayaquil, em referência ao que ocorreu no Equador, com as pessoas morrendo no meio das ruas, corpos se empilhando nas casas. Já muitas pessoas no Brasil estão morrendo na porta dos hospitais colapsados. Inclusive, os recém criados "Hospitais de Catástrofe", em São Paulo, já não estão recebendo pacientes que não forem transferidos de outras unidades. Os pacientes que chegam diretamente nesses hospitais não são atendidos, ou seja, já colapsaram os "Hospitais de Catástrofe".

    Pandemias não são novidades no Brasil. Seria tão mais fácil fazer como sempre se fez nas campanhas anteriores, como contra a H1N1, em 2009-2010, por exemplo, há know-how histórico do país e institutos que foram criados para produzir vacinas. Em 2009, o Brasil registrou quase 60.000 casos da doença e 2.146 mortes. Em 2010, o número de mortes caiu para cerca de 100. A vacina contra a gripe H1N1 é aplicada anualmente pela rede pública desde então e 100% das doses são produzidas pelo Instituto Butantã.

    De março a julho de 2010, em apenas três meses, usando as vacinas adquiridas e os novos lotes fabricados pelo Instituto Butantã, o Brasil vacinou 92 milhões de pessoas, ultrapassando com ampla margem a meta em relação ao público alvo. Na atual pandemia, ainda não chegaram a 20 milhões de vacinados, pouco mais de 2% com a segunda dose, ou seja, nada.

    Mas, evidentemente, parece que o objetivo não é salvar vidas, é outro, é oposto, matar. Muitos já levantaram a hipótese que a população está sendo cobaia de um experimento inédito na história.

Como um personagem grotesco como Bolsonaro assumiu o papel de condutor da maior tragédia da história do país?

    Atribuir tamanho feito a Bolsonaro é superestimar sua capacidade de planejamento, articulação e execução. Seria como atribuir o crime exclusivamente ao executor e livrar a cara do mandante. Bolsonaro com todas as suas particularidades é o melhor representante político e herdeiro da classe dominante que mais escravizou homens no planeta. Segundo o Caio Prado Junior, foram 5 milhões de homens escravizados, sequestrados da África.

    A brasileira é a classe dominante que escravizou mais e por mais tempo, três séculos e meios! Mais escravos e por mais tempo em toda a história moderna, ou seja, durante o capitalismo. Por isso o Brasil hoje tem a maior população negra depois da Nigéria. Dentre as atrocidades cometidas contra os negros estava a forma como eram sequestrados e trazidos. Nos navios negreiros, as condições infernais a que foram submetidos os trabalhadores escravizados mataram muitos durante a travessia do Atlântico, foram a antessala da brutal exploração a que seriam submetidos no Brasil, base de um novo ciclo de acumulação de riqueza, baseada no trabalho escravo.

    O golpe e Bolsonaro dentro do processo golpista são instrumentos dessa classe dominante, serva do imperialismo, para estabelecer um novo ciclo de acumulação de capitais as custas dos trabalhadores. Nesse processo, a pandemia foi providencial, serve aos propósitos estratégicos da burguesia e do imperialismo, por mais que formalmente todos declarem que estão tentando combatê-la e por mais que, em certa medida ela prejudique alguns ramos do capital.

    O golpe foi ação de uma frente única de todos os setores dessa classe dominante para livrar-se do governo do PT, retirar direitos conquistados em séculos de luta de classes e aprofundar a exploração do trabalho. Se não fosse o golpe de 2016, o Brasil poderia ter uma vacina própria, o Sistema Único de Saúde não teria sido desmontado antes da pandemia. Só para se ter uma ideia, a Emenda Constitucional 95, vem reduzindo, desde de 2017, quando foi aprovada, em média de 20 bilhões de reais dos recursos necessários para a saúde por ano.

    No orçamento para a saúde de 2020, elaborado em 2019, foram reduzidos 400 milhões de reais em verbas destinadas para vacinas.

    Então, a segunda conclusão é que está se superestimando o medíocre sentado na presidência, que os malfeitos dele foram iniciados no governo anterior e que a maior tragédia da história do país, e ele próprio, Bolsonaro, é uma cepa mais agressiva do regime político estabelecido com o golpe de Estado de 2016, pela classe dominante de quem Bolsonaro é mero testa-de-ferro.

quinta-feira, 18 de março de 2021

Há 150 anos a classe trabalhadora indicava o caminho: a Comuna de Paris vive!

março 18, 2021

Ouça este texto no final da página.


Frederico Costa[1]


“[...] era uma forma política completamente flexível, ao passo que todas as formas anteriores de governo haviam sido fundamentalmente repressivas. Eis o verdadeiro segredo da Comuna: era essencialmente um governo da classe operária, o produto da luta da classe produtora contra a classe apropriadora, a forma política enfim descoberta para se levar a efeito a emancipação econômica do trabalho” (Karl Marx).


No dia 18 de março de 1871, eclodiu uma insurreição proletária-popular que, segundo Marx, levou a constituição do primeiro “governo operário”: a Comuna de Paris. De certa forma, o processo que levou à Comuna de Paris já estava presente nos levantes de outubro de 1870 e de janeiro de 1871. Suas raízes se situavam na crise econômica, política e nacional acelerada pelo armistício entre França e Alemanha (28 de janeiro), pela paz vergonhosa assinada por Thiers[2] (26 de fevereiro) e ratificada pela Assembleia Nacional em 1º de março.

De fato, a paz com a Alemanha, cujas tropas ocupavam o território francês, não pôs fim à crise econômica gerada pelo desenvolvimento tecnológico e das estradas de ferro, agravada pelas dilapidações do Império de Napoleão III, pela guerra e pelo cerco prussiano. A grande burguesia industrial, comercial e financeira, com o armistício, abandonou Paris. Durante o sítio da capital, a atividade produtiva foi interrompida, o que levou a miséria a crescer exponencialmente.

A pequena burguesia – artesãos, pequenos comerciantes, camadas baixas do funcionalismo e da intelectualidade – sofria também as consequências do domínio burguês, por isso não foi só o proletariado que compôs o exército revolucionário de 18 de março, mas teve como aliado as massas pequeno burguesas.

Foi a 18 de março, às 3 horas da manhã, que soldados ligados ao governo burguês de Versalhes tentaram furtar canhões da Guarda Nacional.

 Com grande composição operária e popular, a Guarda Nacional constituía uma força formidável: 215 batalhões representando 200 mil combatentes; 450 mil fuzis foram distribuídos durante o cerco prussiano de Paris. Além disso, a capital possuía 2.000 canhões e munição em abundância (Luquet, 1968). 

Diante do anúncio do decreto do governo burguês de Versalhes impondo sua interdição, os Comitês da Guarda responderam, desde janeiro de 1871, federalizando-se e elegendo um Comitê Central com os objetivos de defender a República e velar pela manutenção do armamento. 

Eis a essência da polarização social e política: de um lado, a grande burguesia e seu governo, em acordo com os ocupantes prussianos, de outro, o proletariado e a pequena burguesia parisiense unidos pelos sofrimentos, pelo sítio de Paris e exasperados pelas provocações reacionárias, como extinção do soldo da Guarda Nacional e várias represálias contra a democracia.

No amanhecer do dia 18, o pequeno destacamento da Guarda Nacional que custodiava os canhões em Montmartre foi rapidamente dominado. No entanto, o alarme fora dado. As primeiras a chegar foram as mulheres, que interpelaram os soldados, aproximando-se das peças de artilharia e protegendo-as. Ao chegarem os reforços da Guarda Nacional, os soldados do governo reacionário já haviam sido conquistados para causa popular, negando-se a atirar e confraternizando-se com a população.  Os comandantes da operação, generais Lecomte e Clémente Thomas, foram detidos e fuzilados por soldados do exército regular.

Noutros lugares, como Buttes-Chaumont e Belleville, onde não houve confraternização, as tropas de Versalhes recuaram diante do povo em armas. Com isso, abriu-se uma nova experiência para a humanidade: a possibilidade de um governo dos produtores pelos produtores. Durou apenas 72 dias, pois foi afogada em sangue pela repressão burguesa. Mesmo assim produziu medidas emancipatórias que até hoje nenhum Estado ou governo burguês alcançou. A principal lição a ser tirada: somente a auto-organização de trabalhadores e trabalhadoras pode superar os problemas gerados pelo capitalismo.

A Comuna quebrou a máquina do Estado burguês, atacando seu fundamento opressor de classe: a burocracia estatal.  Com medidas extremamente atuais: 1) todos os cargos administrativos judiciais e do magistério foram preenchidos por meio de eleições, tendo os eleitores o direito de revogar a qualquer momento o mandato concedido; 2) mandatos imperativos, isto é, os eleitos deveriam defender o programa de ação definido pelos eleitores; 3) todos os funcionários, graduados ou modestos, passaram a receber salário de operário, com pequena diferença entre os mais altos e os mais baixos. Isso eliminou os fundamentos do carreirismo, do militarismo, da corrupção e da repressão contra os movimentos populares.

Por tudo isso devemos comemorar hoje o 18 de março, os 150 anos da Comuna de Paris. Imaginem o resultado da aplicação de medidas tão simples como essas no Brasil!


Referências

LUQUET, P. A Comuna de Paris. In: TROTSKY, L.; ZINOVIEV, G; MARTOV; LUQUET, Pnv; DUNAIS, A. A Comuna de Paris: textos, documentos e uma análise sobre as repercussões no Brasil. Rio de Janeiro-Guanabara: Editora Laemmert, 1968.



[1] Professor da Universidade Estadual do Ceará – UECE e coordenador do Instituto de Pesquisas do Movimento Operário – IMO.

[2] Marie Joseph Louis Adolphe Thiers (1797-1877), político e historiador francês, monarquista orleanista, ministro de 1832-1834, primeiro-ministro em 1836-1840, deputado da Assembleia Nacional Constituinte em 1848, chefe do Poder Executivo em 1871 e presidente da Terceira República de 1871-1873.


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segunda-feira, 8 de março de 2021

Essa é para os fundamentalistas: de que Bíblia estamos falando?

março 08, 2021

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Frederico Costa

Professor da Universidade Estadual do Ceará – UECE e coordenador do Instituto de Estudos e Pesquisas do Movimento Operário – IMO

 

A religião desempenha importante função na vida de bilhões de seres humanos no mundo. Oriundas de diversas partes do globo, as religiões são tão diversas quanto as culturas existentes. A fé em deuses ou forças cósmicas dá aos crentes um senso de propósito e significação. Doutrinas e textos sagrados dão orientação moral. Líderes religiosos oferecem instrução, padrões de comportamento e tornam-se, inúmeras vezes, modelos.

O marxismo, enquanto humanismo radical, é materialista e ateu, portanto, não é imparcial diante de um fenômeno tão rico e complexo. Filosoficamente, o materialismo histórico identifica na religião características alienantes e possibilidades emancipatórias. Do ponto de vista político, é tradição do movimento operário a afirmação da II Internacional Socialista (1889-1916): a religião é assunto privado. Daí decorre a intransigente defesa pela esquerda revolucionária do caráter laico das políticas públicas.

Marx[1] afirmou acertadamente que os seres humanos, sob formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, em resumo, formas ideológicas, tomam consciência do conflito entre o desenvolvimento das forças produtivas e o entrave das relações de produção, levando-o até o fim. Independentemente da veracidade das afirmações religiosas, elas cumprem uma função social, são formas ideológicas que explicam e tornam coerentes a práxis de indivíduos imersos numa teia de contradições.

Atualmente, o fundamentalismo de perfil cristão cumpre um papel reacionário no contexto da luta de classes no Brasil. Uma parcela do clero, católico e protestante, alia-se na defesa das formas mais grotescas de exploração, opressão e dominação política. Para isso, agitam a Bíblia como algo definido e fechado. Será?

De fato, a Bíblia, nas mãos dos fundamentalistas, tornou-se um “ídolo de papel” opressor na vida dos fiéis das classes trabalhadoras. É comum, nas igrejas e correntes fundamentalistas, a omissão de dados históricos importantes. O conhecimento da história do texto bíblico tornaria os fiéis mais críticos e menos manipuláveis. É sabido, que a Bíblia, ou seja, a unidade entre Antigo Testamento e Novo Testamento, é uma criação cristã. Neste texto, vamos nos ater apenas, de forma aproximativa, ao Antigo Testamento presente nas escrituras judaicas e nas bíblias cristãs.

Primeiro, o que conhecemos do Antigo Testamento é aquilo que as classes dominantes de cada época decidiram transmitir, desde os sacerdotes hebreus, que deram início à elaboração da doutrina monoteísta, até as estruturas religiosas atuais. Isso no contexto de profundas contradições e disputas.

Segundo, há diversas versões do Antigo Testamento que espelham a confusa realidade de textos considerados inspirados e reconhecidos. Por exemplo, católicos acreditam que são verdadeiros os 46 livros do Antigo Testamento. Já o Cânone Hebraico aceita somente 39, não reconhecendo como de inspiração divina textos como: Tobias, Judite, Sabedoria, Baruc, Eclesiastes, o primeiro e o segundo livro dos Macabeus e mais algumas passagens de Ester e de Daniel. As igrejas protestantes aderem fundamentalmente ao Cânone Hebraico. Enquanto cristãos coptas consideram canônicos livros que católicos romanos, protestantes e judeus não aceitam, como o Livro de Enoque e o Livro do Jubileu.

Para complicar mais, boa parte do Antigo Testamento encontrado nas bíblias que possuímos foi redigido, fundamentalmente, baseando-se na Bíblia Stuttgartensia, versão impressa do Códice Massorético de Leningrado. Porém, a Igreja Ortodoxa Grega utiliza o Texto dos Setenta (Septuaginta), escrito em Alexandria no Egito, em grego, entre os séculos III e I a. C. Esse Antigo Testamento grego apresenta variações em relação à versão Massorética, algumas muito importantes, porque contêm diferenças consideráveis no significado do texto. Ela representou a base para os “pais da Igreja” nos primeiros séculos, até a Igreja Católica Romana ter decidido o Cânone Hebraico. Os rabinos negam o Texto dos Setenta, só reconhecendo os livros considerados de acordo com a Lei: escritos na Palestina, em hebraico e no período anterior a Esdras (século V a. C.).

Ainda tem mais. Se formos ao território dos samaritanos, na Palestina, veremos que a inspiração divina não está nos códices redigidos pelos massoretas, mas na Torá (Pentateuco) Samaritana, que apresenta inúmeras variações em relação à versão Massorética. Para completar, há a Peshitta, a Bíblia Síria – reconhecida por cristãos maronitas, nestorianos, jacobitas e melquitas –, que, por sua vez, também é diferente da versão Massorética.

Diante disso, é fácil perceber que, antes mesmo das traduções, existem inúmeras  bíblias (Antigo Testamento) e que todas elas, em sua riqueza de variações, são declaradas indiscutivelmente verdadeiras por comunidades que vivenciam suas tradições. Isso demonstra a diversidade do mundo cristão que levanta um dedo acusador contra os fariseus do fundamentalismo que procuram utilizar politicamente uma experiência religiosa alienada à serviço da dominação do imperialismo e da burguesia interna. Daí seu ódio à ciência, ao sistema educacional público, aos oprimidos e explorados, ao mesmo tempo que apoiam o governo Bolsonaro e defendem um regime político obscurantista-ditatorial. Por isso, o clero fundamentalista de extrema direita é contra o reconhecimento da diversidade religiosa (ecumenismo) e a unidade dos trabalhadores/trabalhadoras religiosos na luta pela superação do capitalismo. Na verdade, somente o socialismo garantirá ampla liberdade de crença e consciência na construção de um mundo novo.



[1] MARX, Karl. Contribuição à crítica da economia política. São Paulo: Expressão Popular, 2008.


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