terça-feira, 2 de março de 2021

4 lições que devemos tirar da pandemia

março 02, 2021

 

Foto: Govind Krishnan
 

Frederico Costa

Professor da Universidade Estadual do Ceará - UECE e coordenador do Instituto de Estudos e Pesquisas do Movimento Operário - IMO.

 

Há um ano, no dia 26 de fevereiro de 2020, ocorria o primeiro caso registrado de contaminação de Covid no Brasil. Um ano depois, chegamos a mais de 255 mil vidas perdidas, segundo dados oficiais. No dia 25 de fevereiro de 2021, o país registrou o maior número de óbitos pela doença em 24 horas em toda a pandemia: 1.582 brasileiros mortos. Além disso, também se completa 40 dias seguidos de média móvel acima de 1.000 óbitos.

Para piorar, caminha-se para um colapso das estruturas de saúde nacionais, em particular públicas. Estados do Sul, cidades do interior de São Paulo e do Nordeste são exemplos de como a Covid-19 avançou, o que fez governos anunciarem suspensão de cirurgias, de aulas presenciais, toque de recolher e lockdown. Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul enfrentam uma explosão de internações nos últimos dias, além da tragédia não resolvida da Região Norte, com a situação emblemática de Manaus.

Ampliando o campo de visão para plano mundial, as perspectivas são desalentadoras, salvo raras exceções de países com forte presença estatal na área da saúde. Nos Estados Unidos, por exemplo, modelo de sociedade capitalista, a pandemia ceifou mais de meio milhão de vidas. 

Diante disso, e com certo distanciamento teórico-político, que lições podemos tirar da atual conjuntura mundial?

Penso que quatro:

1

    A pandemia demonstrou uma verdade elementar: homens e mulheres são seres com um fundamento material natural-social. Depois de séculos de ideologia apresentando a humanidade como a imagem e semelhança de deuses, um vírus demonstra que somos feitos basicamente dos mesmos tijolos que compõem o restante da natureza, tanto inorgânica como orgânica. Com o destaque de que pela atividade vital do trabalho construímos uma nova esfera da realidade: o ser social que se sustenta no metabolismo entre o ser humano e a natureza.

2

    A atual crise sanitária, também, vem revelando o protagonismo da ciência, tão achincalhada por intelectuais pós-modernos e religiosos fundamentalistas. A Covid-19 e suas variantes mostraram a emergência de um vírus mutante de um animal silvestre. As mutações aleatórias e a seleção natural evidenciam a evolução como fato objetivo. E a práxis científica, tantas vezes aprisionada pelos mecanismos do capital, apresenta suas possibilidades emancipatórias em entender e rastrear a disseminação de pandemias, desvendar a estrutura de vírus e bactérias letais, descobrindo mecanismos de curas e contenção. De fato, há muito tempo, os gregos, na primeira revolução científica, acertaram ao afirmar que não eram os deuses que enviavam enfermidades à humanidade, tampouco a solução estava nos templos erigidos a Asclépio. Na trilha inaugurada por Hipócrates, podemos afirmar que a superação da pandemia se encontra nos laboratórios e hospitais.

 3

    A pandemia não está na raiz de nossos males, apesar de acelerar a desgraça geral. Primeiro, a espiral incontrolável da acumulação capitalista vem causando mudança climática, destruição da biodiversidade, degradação do solo, contaminação da água doce,  poluição dos oceanos com resíduos, desenvolvimento de bactérias cada vez mais resistentes pelo uso de antibióticos na criação de animais e efervescência de vírus letais pela devastação crescente de habitats de populações de seres vivos. Em segundo lugar, a pandemia do coronavírus era a oportunidade que o capital esperava para atacar trabalhadores, povos e países inteiros. Os sinais da iminência de uma grande crise em todo o sistema se manifestaram muito antes que surgissem na China, em dezembro de 2019, os primeiros sinais da epidemia que se espalharia pelo o mundo. A crise não precisava do coronavírus para ser deflagrada. As contradições do sistema baseado na propriedade privada dos meios de produção, no mercado e na exploração do trabalho assalariado estavam sendo gestadas. A sobrevivência do capitalismo e do sistema de dominação imperialista precisa dar um passo à frente na desvalorização do principal componente das forças produtivas, a força de trabalho. Essa nova etapa exige a total desregulamentação das relações de trabalho e a extensão da precariedade à escala mundial, acompanhado de guerras, de terrorismo de Estado e de governos de extrema direita.

4

    A pandemia só será superada com a derrota do imperialismo, das burguesias internas e de seus governos. É preciso aprender com a história. A expropriação dos capitalistas, a economia planejada e o monopólio do comércio exterior, apesar dos desvios burocráticos, evidenciou as possiblidades de estruturas sociais de transição como o Leste Europeu, Cuba, Vietnã e Coreia do Norte, por exemplo. É possível derrotar o imperialismo, superar o capitalismo, instaurar o planejamento democrático e romper com a lógica do capital. O socialismo é viável, além de ser a cura para os males atuais. O poder deve ser exercido pelos trabalhadores e trabalhadoras.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

A historicidade da irracionalidade do capital

fevereiro 24, 2021

 

Foto: Marcel Strauß

Silva Jardim

 

O homem, para se manter individualmente e enquanto espécie, precisa se relacionar com a natureza, retirar dela o seu sustento. Nessa relação com a natureza, cada homem atua em associação com outros homens, razão por que essa relação homem/natureza se dá no âmbito de uma determinada forma social que sempre surge historicamente, ou seja, que é formatada pela própria atividade humana de forma não intencional, já que os homens não “planejam” determinada forma social de se relacionar com a natureza com o objetivo de viver e de se reproduzir. O homem, assim, faz mas não sabe que faz, conforme disse Marx.

O capitalismo assim surgiu historicamente como fruto da própria atividade humana, razão por que pode desaparecer em razão dessa mesma atividade humana. E por que ele deve desaparecer? Marx viu que o capitalismo, desde os seus primórdios, produziu um grande desenvolvimento das forças produtivas humanas, do comércio, da indústria, da ciência, da tecnologia, mas também produziu uma grande miséria para as grandes massas populares, inclusive na Inglaterra, berço da Revolução Industrial.


Engels, em seu livro A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, registra que no período final da Revolução Industrial (as décadas de 1830 e 1840), podia-se encontrar crianças de 4 anos de idade trabalhando nas fábricas, mulheres e crianças realizando trabalho pesado no fundo das minas, crianças de 7 anos passando 24 horas por dia no subterrâneo. O capitalismo também produziu a escravidão dos negros africanos utilizados nas plantations de algodão na América do Norte ou de tabaco e cana-de-açúcar nas Antilhas e na América do Sul, tendo sido o escravismo moderno fundamental para a consolidação e expansão da florescente indústria européia, o que pode ser ilustrado pela produção de algodão nos EUA para uso das indústrias de fiação e tecelagem inglesas no século XIX.


É também digno de nota que nos séculos XIX e XX países capitalistas europeus conquistaram e administraram colônias a ferro e a fogo para obterem matérias-primas baratas para suas indústrias, com um alto custo humano para os povos dominados: no Congo belga morreram 10 milhões de homens, mulheres e crianças congolesas durante o reinado de Leopoldo II na Bélgica, em fins do século XIX e início do século XX. E nos Estados Unidos da América não foi diferente: a expansão para o Oeste e a consequente descoberta do ouro californiano no século XIX, tão importante para o capitalismo nessa época, foi feito sobre a base do genocídio indígena.

O capitalismo, assim, consolidou-se através da exploração de grandes massas humanas, genocídios e do saqueio de povos coloniais, em benefício de um punhado de grandes capitalistas de poucos países europeus, dos EUA e, mais tardiamente, já no século XX, do Japão. Não é desarrazoado, assim, perguntar como há quem sustente que um sistema que surgiu escorrendo lama e sangue por todos os seus poros pode ser “suavizado”, melhorado, reformado de forma a que atenda as necessidades das grandes massas populares que, já em sua origem, ele espoliou, explorou e massacrou. A mera análise empírica baseada no exame superficial dos grandes fatos e acontecimentos históricos dos últimos 250 anos, era de pleno domínio do capital, prova que, após todo esse tempo, persistem a fome, a miséria, as guerras, os genocídios e as crises humanitárias como a dos refugiados.

Mas o entendimento meramente empírico acerca da impossibilidade de reforma do capitalismo não mostra de que modo ele pode ser superado e o que colocar em seu lugar. Também não demonstra cientificamente a impossibilidade de reformá-lo e, portanto, a necessidade de destruí-lo. Daí a necessidade de que fosse produzida uma ciência que pudesse explicar o modo de funcionamento do capital. Afortunadamente apareceu na cena histórica um indivíduo genial que realizou essa monumental tarefa: este homem foi Karl Marx. Os problemas que a humanidade vive hoje, a fome, a miséria, o desemprego, as guerras, a destruição ambiental em níveis tais que espera-se a destruição de inúmeras espécies de seres vivos ainda neste século XXI, o aquecimento global que ameaça devastar as condições de sustento de inumeráveis populações humanas, tudo isso se torna explicável a partir do modo de funcionamento do capitalismo explicitado por Marx. As indestrutíveis exigências de uma sempre maior acumulação de capital, de maiores lucros a cada ano, de expansão desenfreada da produção e, portanto, do imperativo da produção pela produção e não para a satisfação das necessidades humanas, tornam o reino do capital mortífero para a humanidade e destrutivo para a natureza.

O sistema do capital conduz a tal irracionalidade e inumanidade que, hoje, em plena crise do coronavírus no Brasil, com 250 mil mortos de acordo com a contagem oficial, a vacinação se dá em passos de tartaruga e tramita no Congresso Nacional proposta de emenda constitucional do Governo Federal para eliminar a exigência de aplicação de percentual mínimo de recursos públicos nas áreas da educação e da saúde.

Marx demonstrou que a solução definitiva e satisfatória das grandes desgraças do mundo é o aproveitamento das condições materiais e culturais criadas pelo capitalismo numa forma social superior em que os homens livremente associados planejam e executam a produção de acordo com as necessidades de todos os trabalhadores. Algumas dessas condições existentes já no capitalismo são a produção cada vez mais amplamente social, a cooperação e interdependência dos trabalhadores a nível mundial, o elevado grau de tecnologia alcançado pela humanidade, a grande produtividade do trabalho, o avançado desenvolvimento científico, enfim, condições que numa forma social superior poderiam ser utilizadas racionalmente para permitir a todos uma vida digna de ser vivida porque se garantiria a nível coletivo as condições materiais necessárias à vida e o acesso pleno à cultura e à ciência produzidas pela humanidade, possibilitando ao indivíduo o desenvolvimento integral de suas capacidades e uma vida rica de significado, sem exploração de qualquer tipo e, assim, condizente com a condição humana.

domingo, 21 de fevereiro de 2021

173 anos do Manifesto Comunista

fevereiro 21, 2021

Photo: Workers peel papers off a wall as they re-paint the Chinese Communist Party flag on it at the Nanhu revolution memorial museum in Jiaxing, Zhejiang province May 21, 2014. REUTERS / Chance Chan

 

Eudes Baima

Professor do curso de pedagogia da FAFIDAM/UECE

 

        Gestado e parido no contexto da Primavera dos Povos, revolução de alcance Europeu que sacudiu sobretudo a França e a Alemanha (mas não apenas), cujo epicentro foi o ano de 1848, o Manifesto do Partido Comunista completa, neste 21 de fevereiro, 173 anos. Sua edição original, em alemão, foi, todavia, impressa em uma oficina na Rua Liverpool, em Bishopsgate, Londres, na Inglaterra, dada as leis prussianas opressivas que vigiam na Alemanha.

        As bases sociais e econômicas onde está apoiado seguem vigentes e suas linhas fundamentais continuam atuais. Um guia para a ação, e não um receituário revolucionário, o Manifesto foi solicitado a Marx e Engels pela Liga dos Justos, doravante Liga dos Comunistas, organização proletária de caráter internacional que antecedeu a I Internacional.

        O Manifesto rompe uma tradição na história do pensamento: longe de apresentar um sistema ideal, na linhagem dos reformadores sociais do Iluminismo, decorria de uma reflexão sintética que buscava expressar o movimento real da vida social e, a partir daí, indicar as linhas gerais da organização dos trabalhadores em sua luta de classe pelo poder.

       Seu aparecimento corresponde, assim, às grandes mobilizações revolucionárias de 1848, quando, como depois Marx assinalará em O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, a classe operária, pela primeira vez, adentrava ao cenário político como força independente.

        Nos 173 anos de sua primeira edição, em meio à maior ofensiva contra a existência mesma da classe trabalhadora, sob o pretexto do combate à pandemia, a famosa divisa do Manifesto está dramaticamente atual: Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos!

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Live dos grupos 2021.1

fevereiro 12, 2021

No dia 17 de fevereiro de 2021, às 18h30, daremos início às atividades dos grupos de estudo do GPOSSHE.

Participantes: Frederico Costa, Karla Costa, Marcondes Pereira, Maria Aires e Juscilene Oliveira.

Na ocasião, daremos mais informações sobre participação.

Caso você tenha interesse em já ir conhecendo quais são os nossos grupos e qual é o nosso calendário de 2021.1, v
ocê pode acessar o folder na nossa pasta compartilhada clicando aqui.


Você encontrará o link na nossa BIO do Instagram também.

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sábado, 6 de fevereiro de 2021

O capitalismo não se preocupa com a vida das pessoas: o exemplo do Bradesco

fevereiro 06, 2021

 

Frederico Costa

Professor da Universidade Estadual do Ceará - UECE e coordenador do Instituto de Estudos e Pesquisas do Movimento Operário - IMO.


Em 2020, o Bradesco fechou 1.083 agências físicas e demitiu 7.754 pessoas do quadro de funcionários com o objetivo de conter os custos e reduzir as despesas. Em dezembro, a instituição contava com 3.395 unidades em todo o país, e um quadro de 89.575 trabalhadoras e trabalhadores. Os valores são, respectivamente, 24,2% e 8% inferiores aos números registrados no mesmo período de 2019. Tais medidas adotadas possibilitaram uma redução de R$ 3,2 bilhões ou 6,6% das despesas operacionais. Com isso, a eficiência operacional foi de 46,3% em 12 meses, omelhor desempenho da história do banco.

Já em dezembro de 2020, numa teleconferência, Octavio de Lazari Júnior, presidente do Bradesco, afirmou que no 4º trimestre ele terminava de “cortar o mato alto”, em alusão às demissões em massa que o banco vinha fazendo nos últimos mese.

Em plena crise, o Bradesco teve o maior lucro entre as empresas de capital aberto listadas na América Latina no primeiro semestre de 2020. Segundo levantamento da Economatica, somando o primeiro e segundo trimestres, o banco teve um resultado de US$ 1,26 bilhão (R$ 6,85 bilhões), com queda de 59% em relação aos seis primeiros meses de 2019. A referida queda foi causada pelo forte aumento de reservas para cobrir eventuais “calotes, em consequência dos danos econômicos da pandemia. Apesar disso, o setor bancário éo que mais lucra dentre as companhias da América Latina.

Esse lucro todo, apesar da crise, não vem do nada, é fruto da atividade de trabalhadores e trabalhadoras bancárias, que fazem parte do proletariado. Esse trabalho não produz mais-valia, mas sua utilidade reside no pressuposto da transferência de mais-valia para o ramo do capital financeiro. Assim, milhares de trabalhadores do Bradesco possibilitam a transferência de uma quota-parte da mais-valia industrial para os banqueiros, além de manter o funcionamento geral do sistema financeiro. Então a base dos lucros exorbitantes do setor financeiro, em particular o Bradesco, é o trabalho não-pago de operários produtores de mais-valia e de bancários, que recebem seus salários de uma parte dessa alíquota de mais-valia.

Esses trabalhadores têm uma função essencial na acumulação capitalista: seu trabalho útil possibilita o processo de valorização do capital pela apropriação de uma parte da mais-valia pela burguesia financeira. No entanto, as tendências de centralização e concentração de capital, a crise econômica, a superexploração do trabalho, a reestruturação produtiva e as dificuldades na organização da resistência operário-popular favorecem demissões massivas como essa do Bradesco. O interessante é que para o capital, os trabalhadores, suas famílias e suas necessidades de existência não passam de “mato alto” a ser cortado em nome da eficiência lucrativa, da concentração de riquezas e dos privilégios de uma minoria cada vez menor. Diante disso, é urgente a necessidade do debate em torno da estatização do sistema financeiro sob o controle de trabalhadores e trabalhadoras.