quarta-feira, 13 de outubro de 2021

[Notas de leitura] Angie, de Leonardo Costaneto

outubro 13, 2021

Um tema intensamente discutido é o das transformações que a literatura viveu na dobra do século XX para o XXI, notadamente nas sociedades dependentes em que temas como globalização e colonialidade, à moda de Quijano, adquirem grande relevância.

Mas não quero fazer aqui um exercício de Sociologia da Literatura. Almejo apenas socializar com o leitor ligeiras notas de uma leitura recente. Trata-se de um livro escrito e publicado na periferia do capitalismo, expressão particular de um espaço geográfico mundial em que globalização e colonialidade se articulam; mas, especialmente, é uma obra que diz respeito a um tipo de literatura que se pratica aqui na dobra do século.

Grosso modo, estamos (eu e você leitor) diante de um pequeno livro que pode nos fornecer elementos para uma compreensão lapidar de um sítio da arte literária do nosso tempo e da Nuestra América, na qual, queira-se ou não, estamos inseridos, aliás, inseridos (sobretudo!) em suas teias e em seus labirintos.

No livro de Leonardo Costaneto, o leitor, de repente, está em Minas e se vê diante da personagem Fátima e da ancestralidade africana, quase a dizer que não tem Brasil sem Angola, o que reforçaria a tese de Lélia Gonzalez centrada na noção de Améfrica ou amefricanidade; mas não demora, as narrativas criam asas - à maneira de uma literatura em trânsito - e viajam até Santiago, Buenos Aires, Colônia de Sacramento etc.

Leonardo Costa Neto - Angie, Belo Horizonte: Caravana, 2021, 62p.

O livro está organizado em dois grandes quadros – Buenos Aires (ambiente urbano em que o protagonista encontra Angie) e Na Margem Oposta – e no seu interior se formam pequenos quadros ou contos (12 ao todo), com prevalência absoluta do narrador em primeira pessoa. Nessa perspectiva, do narrador em primeira pessoa (homodiegético) de O fim de alguma coisa, passando pelo narrador em terceira pessoa onisciente de Marocho, desliza-se para o narrador-protagonista (narrador autodiegético), que domina as narrativas do terceiro ao último conto.

O eixo nodal da obra é o conto Angie, pois depois dele todas as demais narrativas, de algum modo, remete a ele. Em consequência, o leitor há de perceber a coerência entre o título e os contos que compõem o livro.

Juntem-se então as pontas.

Do ponto de vista da linguagem, os textos reúnem marcas da criação literária contemporânea. Assim, a contemporaneidade é um traço da escrita de Leonardo Costaneto. Onde localizar esse traço geral? Em primeiro lugar, na linguagem coloquial, um desenvolvimento da revolução modernista. Sem perder inteiramente a atenção na gramática, o autor renuncia às formalidades que marcaram o período literário pré-moderno. Nesses termos, o despojamento é o signo que define o estilo do escritor mineiro: “A história não durou muito, comentou antes de tomar um longo gole” (Angie, p. 33); “Alto lá! Que bobagem é essa? Que delírio extravagante e sem sentido, pensei respirando fundo” (Gatinho acuado, p. 50).

Mas a sua filiação à contemporaneidade não cessa nesse ponto. Os contos curtos e com finais abertos remetem à persistência de posições modernistas (a exemplo de Joyce em Música de câmara) que, em larga medida, foram mantidas e aprimoradas por autoras e autores contemporâneos. Nas narrativas de Costaneto, o leitor é convidado a ser coautor dos desfechos que, em geral, aparecem em uma configuração distintivamente aberta, sugestiva, carregada de significados. Em suma, os finais são mais sugeridos do que ditos.

Isso pode ser observado no desfecho de O fim de alguma coisa, traduzido na inquirição da mãe: “- Esse é o meu filho?” (p. 22); no epílogo de Marocho, o método narrativo reaparece: “Fascinado, nos olhos de Marocho se acendeu um brilho raro, que encontrou de pronto o palor frio da lâmina afiada” (p. 26); em Corrida urgente, o procedimento se repete: “ – Pra onde você quiser, Leo” (p. 30) . Já No quarto ao lado, a lubricidade - à moda de O quatrilho - é vivamente sugerida: “Dali por diante não me recordo de muita coisa, somente que vimos o dia amanhecer da varanda do quarto ao lado” (p. 39). E assim segue nas demais narrativas. Enfim, o leitor ou leitora pode criar o remate à luz do próprio processo narrativo, no qual as pistas ou indícios são suficientemente robustos.

Em terceiro lugar, ao ressaltar aspectos típicos da sociedade globalizada, o narrador exibe referências características dos tempos atuais: “Foi ali, num lampejo, que me veio a ideia de cadastrar meu carro na Uber” (Corrida urgente, p.27); “ (...) me pagou por transferência e mandou o comprovante para o meu WhatsApp” (Corrida urgente, p. 28); “Eu a conheci em um site de encontros entre sugar babies e sugar daddies (Angie, p. 31). Enfim, um bom número de situações indica o cotidiano da história em sua contemporaneidade eivada de globalização, novas subjetividades, relações dissolutas, precariedade, neoliberalismo e alusões às novas tecnologias.

Registram-se, também, questões que vão além desse panorama histórico, dentre as quais pode-se ressaltar a retomada dos arquétipos (que começa com a mãe do primeiro conto e quase encerra os relatos com a memória do pai), e identidades (latinoamericanidade e ancestralidade africana – essa última expressa nas personagens de Maria de Fátima e Dandara). Nesse escopo, os pequenos textos que conformam Angie versam sobre impressões pessoais, evocações familiares, paisagens latino-americanas e outros indicadores que estruturam os elementos de subjetividade que, em geral, marcam o que há de genuíno em uma obra literária.

Outro aspecto a lembrar, o conto Angie divide águas no plano narrativo. É como se as estórias se dividissem antes e depois dele. Desse modo, é como se o encontro do protagonista e a moça que “adorava viajar” representasse uma margem, ao passo que o que vem depois constituísse a sua margem oposta. Geograficamente, essa passagem se concretiza em viagem: Buenos Aires é o que ficou para trás. Colônia do Sacramento representa a busca de uma viragem, tendo em si o alvo de uma reabilitação amorosa. Quem sabe, o início de uma nova aventura (no sentido mais amplo do termo).

O texto enxuto, conciso, direto, praticamente sem rodeios, convida a uma leitura rápida, de um só gole, e, paralelamente, mostra não o escritor maduro de longa trajetória (que não é seguramente o caso), com cada coisa em seu lugar (na hipótese de isso existir), mas um criador com inúmeras tensões, reticências e hesitações. É desse material instável, nascente, às vezes impreciso, que o novo se faz. Até onde irá o moço de Minas é uma questão que não cabe ao presente. “Quem viver, verá”.

 

Fábio Queiróz

Professor do departamento de história da Universidade Regional do Cariri - URCA

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Bertrand Russell: Trotsky sobre nossos pecados

outubro 04, 2021

 

Polêmica entre Bertrand Russell e Leon Trotski sobre a revolução socialista na Inglaterra

 

Em 1925, Leon Trotski, um dos principais líderes da revolução de outubro de 1917 na Rússia e, à época, destacado dirigente do governo soviético, escreveu o livro Para onde vai a Grã-Bretanha?, cuja edição em inglês provocou viva controvérsia, a começar pelo prefaciador, H. N. Brailsford, que o acusou de não compreender as tradições democráticas e religiosas não-conformistas do movimento trabalhista britânico e o “instinto de obediência para com a maioria, gravado na mentalidade inglesa”. (Isaac Deutscher, O profeta desarmado, p. 241).

 

Dirigentes do Partido Trabalhista britânico, como Ramsay Macdonald, e diversos intelectuais do chamado socialismo fabiano tomaram parte no debate, apresentando objeções às análises e prognósticos do livro. Trotski respondeu a todos. Talvez a parte mais interessante da controvérsia seja o confronto com o filósofo e matemático Bertrand Russell, já então uma celebridade intelectual dentro e fora do país. Russel escreveu no The New Leader de 26 de fevereiro de 1926 um artigo intitulado Trotsky sobre nossos pecados. A resposta de Trotski, intitulada Mais uma vez sobre pacifismo e revolução, está no seu livro Trotsky’s writings on Britain, ainda não traduzido no Brasil. O texto de Russel é publicado a seguir pela primeira vez entre nós. A resposta de Trotski será publicada na próxima coluna. (Auto Filho, editor da coluna).

 

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Bertrand Russell: Trotsky sobre nossos pecados

 

O novo livro de Trotsky é um dos mais interessantes que leio há muito tempo e, até certo ponto, extraordinariamente penetrante. Existem certos erros de fato, mas eles não são importantes – por exemplo, que Joseph Chamberlain deixou Gladstone na questão protecionista, e que os atuais constituintes parlamentares são prejudicados para se dar uma grande vantagem aos Conservadores.

Sobre a política do Movimento Trabalhista Britânico, Trotsky é notavelmente bem informado. Muitas de suas críticas são, a meu ver, bastante convincentes. Deixo de lado seus comentários desairosos sobre os líderes, que serão apreciadas ou odiadas conforme o leitor não gostar ou gostar do líder em questão. O que é mais importante é sua reclamação de que o Partido Trabalhista carece de uma perspectiva teórica coerente. Veja, por exemplo, a questão do republicanismo. Ele cita pronunciamentos trabalhistas britânicos de que a autoridade real não causa dano e que um rei é mais barato do que um presidente. Ele argumenta que, em tempos de conflito crítico, a burguesia pode fazer uso da autoridade real com grande sucesso, como o ponto de concentração de todos os extraparlamentares, isto é, as verdadeiras forças dirigidas contra a classe trabalhadora … Proclamar um programa socialista, e ao mesmo tempo declarar que a autoridade real “não atrapalha” e funciona mais barato, é absolutamente o mesmo que, por exemplo, reconhecer a ciência materialista e fazer uso do encantamento de um feiticeiro de dor de dente, sob o fundamento de que o feiticeiro é mais barato.

Esperar alcançar o socialismo sem republicanismo é o tipo de coisa que só poderia ocorrer entre pessoas de língua inglesa; dificilmente seria possível para homens com algum conhecimento profundo da história, ou qualquer compreensão dos vínculos econômicos e psicológicos entre as diferentes instituições. Apesar da observação do Sr. Brailsford em contrário na introdução, eu deveria concordar com Trotsky em dizer o mesmo das Igrejas. A religião pessoal é um assunto privado; mas a religião organizada, no mundo moderno, deve ser uma força reacionária, mesmo quando seus adeptos desejam ardentemente o contrário.

“Mas”, me dirão, “quantos membros trabalhistas você colocaria no Parlamento se atacasse a monarquia e antagonizasse as igrejas?” Aqui nos deparamos com uma falácia desastrosa. Pensa-se que o importante é conseguir que os socialistas sejam eleitos para o Parlamento por bem ou por mal, mesmo que, para serem eleitos, tenham de deixar claro que se absterão de cumprir grande parte do programa socialista.  Garantir um governo composto de socialistas professos não é o mesmo que garantir o socialismo; isso foi provado em muitos países europeus desde a guerra. O socialismo nunca será realmente estabelecido até que os líderes o desejem seriamente; com isso, quero dizer não apenas que eles devem favorecê-lo em abstrato, mas que devem estar dispostos, por sua causa, mas que eles deveriam estar dispostos, por sua causa, a renunciar às vantagens pelo sucesso burguês, que são desfrutados por políticos trabalhistas de sucesso, contanto que eles se abstenham de abolir os privilégios burgueses.

Outro ponto importante é ilustrado pela analogia de Cromwell, sobre a qual Trotsky se detém um pouco. Cromwell, ao contrário da maioria dos homens do Parlamento, expressou preferência por soldados convencidos da justiça da causa, em vez de “cavalheiros”, e só assim conseguiu obter a vitória, apesar da oposição de seus oficiais superiores. Em nossos dias, na Inglaterra, parece não haver quase ninguém cuja crença em alguma coisa seja suficiente para torná-lo indiferente ao “cavalheirismo”; certos líderes trabalhistas são constantemente levados à fraquezas pelo desejo de que seus oponentes os considerem cavalheiros”. Eles não parecem perceber que o ideal de um “cavalheiro” é uma das armas das classes proprietárias; impede os truques sujos contra os ricos e poderosos, mas não contra os pobres e oprimidos. Essa fraqueza é peculiarmente britânica. Nada alcançaremos até que desejemos o socialismo mais do que a aprovação de nossos inimigos, que só pode ser conquistada pela traição, consciente ou inconsciente.

Nossa paixão britânica pela inconsistência e falta de filosofia está levando o Movimento Trabalhista ao erro. Cromwell tinha uma filosofia completa, por mais absurda que nos pareça; o mesmo aconteceu com os benthamistas que criaram o Partido Liberal e todo o movimento democrático do século XIX. Os comunistas russos alcançaram o que jamais poderia ter sido alcançado por homens que se contentaram com uma mistura de sentimentos amáveis. É inútil fingir, por exemplo, que o socialismo é meramente o cristianismo consistentemente executado. O Cristianismo é uma religião agrícola, o Socialismo é industrial; não é tanto uma questão de sentimento, mas de organização econômica. E nós, britânicos, como o jovem que tem grandes posses, somos impedidos de pensar com clareza pela vaga percepção de que, se o fizermos, teríamos de abandonar nosso imperialismo; não é apenas por uma hábil confusão que o Partido Trabalhista pode atacar os imperialistas, ao mesmo tempo em que cuida de reter o Império e de levar adiante a tradição de opressão, como fez o último governo na prática.

Vamos, pelo menos para fins de argumentação, admitir toda a acusação de Trotsky ao nosso movimento; o que, então, devemos dizer de seu programa para a Grã-Bretanha? Eu digo que é um programa que só poderia ser defendido por um inimigo ou um tolo; e Trotsky não é um tolo. Sua opinião é que, quando finalmente tivermos um governo trabalhista com uma clara maioria parlamentar, os atuais líderes, tanto de direita quanto de esquerda, estarão tão desamparados quanto Kerensky e serão varridos por homens de ação decididos.

A polícia, o judiciário, o exército e a milícia estarão do lado dos desorganizadores, sabotadores e fascistas. O aparato burocrático deve ser destruído, substituindo os reacionários por membros do Partido Trabalhista. [Mas tais medidas escassas] irão extraordinariamente aguçar a oposição legal e ilegal da reação burguesa unida. Em outras palavras, este é também o caminho da guerra civil… Em caso de vitória do proletariado, seguir-se-á a destruição da oposição dos exploradores por meio da ditadura revolucionária.

É estranho como o realismo de Trotsky falha nesse ponto. Muito de seu livro é usado para provar como nossa posição econômica se deteriorou e como nos tornamos dependentes dos Estados Unidos. No entanto, quando ele fala de uma revolução comunista, ele sempre argumenta como se fôssemos economicamente auto-subsistentes. É óbvio que aviões franceses (se não britânicos) e navios de guerra americanos (se não britânicos) logo poriam fim ao regime comunista; ou, no mínimo, um bloqueio econômico destruiria nosso comércio de exportação e, portanto, nos privaria de nosso suprimento de alimentos.

Existem algumas frases bombásticas sobre a simpatia que se espera da Rússia Soviética. Mas até que a Rússia Soviética possa colocar uma frota no Atlântico mais forte do que a da América, não está claro o que devemos ganhar com simpatia, por mais entusiástica que seja. Para garantir a independência econômica sem supremacia naval, deveríamos ter que reduzir nossa população para cerca de vinte milhões. Enquanto isso estava sendo feito pela fome, sem dúvida a simpatia de Trotski seria um grande conforto; mas, no geral, a maioria de nós prefere permanecer vivo sem ele do que morrer com ele.

O fato é que Trotsky odeia a Grã-Bretanha e o imperialismo britânico, não sem uma boa razão, e, portanto, não merece confiança quando dá conselhos. Por causa de nossa dependência de alimentos estrangeiros, tornamo-nos tão desesperadamente enredados na política mundial que é impossível avançarmos a um ritmo que a América não tolerará.

O próprio Trotsky diz: “Na luta decisiva contra o proletariado, a burguesia britânica contará com o apoio mais poderoso da burguesia dos Estados Unidos, enquanto a classe trabalhadora se baseará principalmente na classe trabalhadora da Europa e nos povos oprimidos das colônias britânicas”. Dificilmente é crível que ele suponha que nosso suprimento de alimentos continuaria sob tais circunstâncias. Receio que, como o resto de nós, ele seja um patriota no que diz respeito ao aperto: uma revolução comunista na Inglaterra seria vantajosa para a Rússia e, portanto, ele a aconselha sem considerar imparcialmente se seria vantajosa para nós. Os argumentos contra ela, longe de serem sentimentais ou visionários, são estratégicos e econômicos. O pacifismo de que ele não gosta no movimento trabalhista britânico é imposto pela dependência da América, que resultou de nossa participação na Grande Guerra. Se ele realmente deseja a difusão do comunismo, e não apenas o colapso da Inglaterra, é hora de voltar sua atenção para a Federação Americana do Trabalho.

 

Do The New Líder, 26 de fevereiro de 1926 

 

Auto Filho

AUTO FILHO é professor de Filosofia e Economia Política da Universidade Estadual do Ceará. Foi editor literário do jornal Gazeta de Notícias e Crítico de Arte do jornal Unitário.

 

Nota

1. Bertrand Russell (1872-1970). Famoso filósofo e matemático  britânico, pacifista e radical de longa data que, muito tarde, assumiu uma posição de esquerda, combatendo a Guerra do Vietnã.