segunda-feira, 8 de junho de 2020

Lukács e a totalidade dialética do marxismo contra os fragmentos dispersos do pensamento pós-moderno


Para o discurso teórico pós-moderno a realidade é volúvel, dispersa e fragmentada, portanto, inapreensível em sua essência ontológica, ou melhor, ele nega que exista uma essência objetiva em si real do mundo concreto. Tal corrente de pensamento tem como posição epistemológica central, postular o fim das metanarrativas modernas, o fim da perspectiva da totalidade enquanto um fundamento teórico-metodológico de compreensão da realidade histórico-social. Assim, afirma François Lyotard no seu livro A condição pós-moderna (1979), (ele talvez tenha sido o principal arauto na difusão da ideia de que vivemos numa época pós-moderna) que este novo contexto histórico se inaugura, precisamente, com a falência da metanarrativa científica moderna, a descrença em relação às concepções de mundo totalizantes e a emergência de uma sociedade pós-industrial, por conseguinte, o projeto moderno “do sistema-sujeito é um fracasso, o da emancipação nada tem a ver com a ciência, está-se mergulhando no positivismo de tal ou qual conhecimento [...] as reduzidas tarefas da pesquisa tronaram-se tarefas fragmentárias que ninguém domina” (LYOTARD, 1998, p. 74).

O filósofo francês discute basicamente a crise de legitimidade do saber científico da modernidade, solapada pelos novos processos tecnológicos-informacionais que, por sua vez, engendraram uma nova forma de vida social e cultural possibilitando aos indivíduos traçarem novos caminhos de realizações no curso das constantes transformações do momento histórico atual. Nesse sentido, o livro de Lyotard funda a discussão sobre a pós-modernidade, como uma mudança geral na condição da humanidade.  “Simplificando ao extremo”, afirma Lyotard,

considera-se “pós-moderna” a incredulidade em relação aos metarrelatos. É, sem dúvida, um efeito do progresso das ciências [...]. Ao desuso do dispositivo metanarrativo de legitimação corresponde sobretudo o crise da filosofia metafísica e da instituição universitária que dela dependia. A função narrativa perde seus atores [...], os grandes heróis, os grandes perigos, os grandes périplos e o grande objetivo. Ela se dispersa em nuvens de elementos de linguagem narrativos [...]. Assim, nasce uma sociedade que se baseia menos numa antropologia newtoniana [...] e mais numa pragmática das particularidades de linguagem (LYOTARD, 1998, p. 16, aspas no original).

O pensamento pós-moderno ao fundamentar seus postulados teóricos na perspectiva da fragmentação para analisar a realidade (só um conhecimento deste tipo pode acessá-la segundo ele) incorre numa sentença descabida, pois, a realidade social do sistema capitalista “é totalizante em formas e graus sem precedentes. Sua lógica de transformação de tudo em mercadoria, de acumulação, maximização do lucro e competição satura toda a ordem social”. Por isso mesmo, um entendimento profundo e fundamentado desse “[...] sistema totalizante requer exatamente o tipo de conhecimento totalizante que o marxismo oferece e os pós-modernistas rejeitam” (WOOD, 1999, p. 19, itálicos no original).

Do lado oposto, a atualidade da categoria da totalidade em Lukács nos permite fazer um contraponto teórico-metodológico ao pensamento pós-moderno justamente no sentido da crítica à ideia de que a realidade só pode ser apreendida de forma fragmentada em seus aspectos particulares atomizados. Para os pós-modernos, no contexto histórico atual profundamente marcado pela fluidez das mercadorias, das escolhas “livres” no consumo, dos jogos de linguagem que conferem significação às coisas e das identidades plurais deslocadas, a própria realidade se torna um amálgama multifacetado sem “coerência de conjunto”. No entanto, somente a perspectiva da totalidade é que permite entender que o conjunto destes processos sociais constitui uma unidade da diversidade mutuamente determinada, um todo coerente, inteligível.

Nesse sentido, para Fredric Jameson em seu livro Valences of the dialectic (2009, p. 201, tradução livre)[1]: “A atualidade de Georg Lukács sempre pareceu nos últimos anos fundar dois conceitos: a defesa do realismo literário e a ideia de totalidade”, assim, de acordo com o teórico norte-americano, “a inseparabilidade entre a concepção de realismo de Lukács e sua noção de totalidade”[2] (Idem, p. 210), constitui hoje “um argumento que [...] nos compromete a confrontar toda uma contemporaneidade, pós-estruturalista ou mesmo pós-moderna”[3] (Idem). Jameson entende, de um modo geral, que a pós-modernidade prefigura a lógica cultural do capitalismo tardio e que dessa forma ela é profundamente marcada por dois aspectos decisivos: a transformação da realidade em imagens e a fragmentação do tempo em uma série de presentes perpétuos. Ambos os aspectos, para o teórico, portanto, constituem dimensões consoantes desse novo momento do capitalismo. Com efeito, a perspectiva da totalidade em Lukács que Jameson faz referência é aquela que configura “uma estrutura na qual vários tipos de conhecimentos são posicionados, perseguidos e avaliados”[4] (Idem, p. 211) constituindo um fundamento teórico-metodológico decisivo para a compreensão crítica da realidade atual do capitalismo tardio em seu todo articulado que o pensamento pós-moderno que fazer parecer desconexo, fragmentado e inapreensível em sua essência objetiva e contraditória.

A recusa metodológica da totalidade por parte do pensamento pós-moderno, acaba se tornando um equívoco epistemológico. Reduzir a realidade a um conjunto de relações e processos sem conexões ontológicas entre si resulta, inevitavelmente, na construção de conhecimentos desagregados, destituídos de mediações concretas, sem o firmamento necessário que é a unidade dialética da história.  Desse modo, a  “destotalização” do pensamento pós-moderno “pressupõe paradoxalmente a mediação de uma totalidade articulada e sua determinação em última instância. Na falta disso, a sopa de legumes literários e o caldeirão de culturas mercantis constituiriam nem sequer mais um pensamento”, afirma Daniel Bensaïd (2008, p.86). A sociedade capitalista é uma “totalidade relacional”, isto é, tudo o que existe (enquanto uma objetividade histórico-social) está ontologicamente interconectado como “um organismo vivo”. A concepção de totalidade no marxismo, especialmente, em Lukács como podemos constatar nesta tese, possui uma característica metodológica fundamental: as partes só ganham sentido se referidas ao todo, pois, elas constituem um “momento de totalização”; as partes se refletem no todo e o todo pressupõe a unidade interligada das partes entre si.

Se o pensamento pós-moderno preconiza a atomização dos sujeitos em seus âmbitos de sociabilidade de interesses particulares, sem posição de classe e isolados, a totalidade dialética do marxismo não comporta dissoluções fragmentárias, pois ela repousa sobre as bases de uma unidade histórico-concreta, e sendo assim, não perde de vista o fato de que a reprodução do capital que recai sobre o conjunto das relações sociais, inescapavelmente.

Nada do que existe concretamente está desconectado de suas mediações processuais. A não ser que a concepção de totalidade esteja baseada numa perspectiva abstrata, formal, idealista. Com efeito:

A totalização dialética supõe a impossibilidade, para sujeitos particulares de terem acesso a essa posição suspensa. Num contexto em que a exaltação do instante se opõe à inteligibilidade histórica, em que os conceitos universalizantes são enfraquecidos, o de totalidade torna-se suspeito de desvios totalitários [...]. Se a totalidade abstrata tem uma conduta totalitária, a totalização concreta, aberta à sua própria negação, opõe-se à tirania do absoluto (BENSAÏD, 2008, p. 87-88).

A categoria da totalidade orienta o sentido da “diferenciação” e da “contradição”, dessa maneira, a realidade objetiva não é uma sequência de imagens simbólicas atribuídas pelos jogos de linguagem, antes, do contrário, ela é uma “síntese de múltiplas relações” configurada num todo dialeticamente articulado. A totalidade em Lukács pressupõe que a realidade social é movimento, contradição, devir. Nesse sentido, as classes sociais e suas lutas representam a força da história, assim:

[...]. Do ponto de vista da ontologia do ser social isso significa, num primeiro: - que cada classe enquanto complexo social só pode existir em certa sociedade; - que, por essa razão, a sua existência relativamente autônoma comporta uma relacionalidade irrevogável com essa sociedade em sua totalidade e com as demais classes da mesma sociedade; - que uma classe só existe socialmente em interação prática com as demais classes da formação em que se encontra (LUKÁCS, 2013, p. 185).

Mas para o pensamento pós-moderno a noção de classe social perdeu seu sentido. Num mundo caracterizado pela volubilidade da existência, pelas “subjetividades pulverizadas” e pela sensação do efêmero em que o “tempo histórico parece se estreitar em torno de um presente reduzido ao instante que passa” (Bensaïd), (presentismo sem historicidade), as classes sociais se dissolveram em miríades de “guetos” sem vinculação orgânica com os horizontes da revolução social geral. Desse modo, a recusa pós-moderna das metanarrativas, da razão universal e do projeto de emancipação do sujeito histórico, constituem os fundamentos teórico-ideológicos exigidos hoje, como pretexto, para refundar o fazer científico, político, social e cultural do mundo “em migalhas”, desnorteado, sem télos

O “fim das utopias” é uma noção bem definida pela perspectiva pós-moderna. Nada poderá ser feito para se ir além do capitalismo, pois este sistema é o último refúgio da história humana. Não há como transpor seus limites. Sendo assim, toda tentativa de se fazer concretamente uma revolução social, fatalmente resultará em fracassos, frustrações, ilusões e arrependimentos. Esse desalento com o “fim da história” desencadeia uma atitude geral de conformismo político programado. Mas é isso mesmo que preconizam os pós-modernos: desconstruir a historicidade dos processos sociais e pensar as possibilidades da Revolução como uma coisa “fora de moda”. Este é um projeto consciente daqueles que querem manter intactos os pilares do sistema produtor de mercadorias. Para tanto, o conhecimento científico[5] precisa ser manipulado para atender aos interesses dos homens de negócios e suas instituições financeiras, que não subtraem esforços em empreender novos “nichos” no mercado global. Parece que não existe vida fora do mercado!

Todavia, a realidade é conflito e contradição. E nesse aspecto, nada garante que as coisas continuem como estão. A luta de classes ainda é a força motriz da história. Com efeito, a pesquisa teórico-científica marxista tem como um de seus pressupostos determinantes: entender o mundo para transformá-lo. E aqui, o método dialético de Marx é uma ferramenta imprescindível para a classe trabalhadora se apropriar do conhecimento do mundo e satisfazer suas variegadas necessidades humanas. Isso é relevante porque a luta contra a exploração capitalista é uma demanda social e, a construção de uma sociabilidade superior, uma exigência imperativa. Nesse sentido, só um conhecimento científico ligado às questões de classe pode possibilitar ao conjunto da humanidade a apropriação teórico-metodológica necessária para se compreender os fundamentos que constituem as legalidades do mundo social contemporâneo. “Na vida cotidiana, os fenômenos frequentemente ocultam a essência do seu próprio ser em lugar de iluminá-la”, portanto,“em condições históricas favoráveis” o conhecimento científico “pode realizar uma grande obra de esclarecimento nesse terreno” e revelar assim as determinações da essência do mundo concreto (LUKÁCS, 2012, p. 294). Por isso mesmo, encontramos no marxismo (enquanto apropriação universal da ciência e da cultura) a chave de entendimento mais correto dos problemas humanos, bem como, o programa de luta ideológica e política mais avançado do nosso tempo. 

As incertezas pós-modernas não cabem na amplitude e profundidade do mundo real em devir ininterrupto. A história, seguramente, é um campo aberto de possibilidades objetivas, no entanto, sem a concepção da luta de classes - tão fundamentais para a inteligibilidade das contradições sociais e os fatores concretos das transformações históricas - incorre-se no equívoco de naturalizar os problemas reais das condições materiais de existência vigentes. Se para o pensamento pós-moderno o que prevalece como postulado epistemológico de compreensão da realidade é perceber e relativizar as subjetividades fragmentadas e descentradas no cotidiano, então as pequenas causas sem rumo preciso, perdem seu sentido em virtude da continuidade de uma vida cada vez mais reificada e reificante. Portanto, sem fazer concessões ao discurso pós-moderno, a repolitização das formas de luta social enquanto uma alternativa ao esgotamento do modelo de representação democrático-parlamentar hoje, é uma tarefa que o próprio movimento da classe trabalhadora e o conjunto dos movimentos sociais devem colocar para si, no sentido de repensar as estratégias de ações revolucionárias que possam abrir concretamente os caminhos rumo à sociedade comunista.

A perspectiva da totalidade no marxismo pressupõe que o conhecimento científico só é possível porque existem legalidades e regularidades que dirigem a realidade objetiva e que o ser social, por meio de seu ato de trabalho, engendra a esta realidade. Dessa forma ele também reproduz dialeticamente no plano do pensamento, o movimento efetivo da sociedade enquanto uma totalidade concreta em sua dinâmica processual e contraditória. Portanto, conhecer a essência do real é apreender a sua dinâmica e estrutura tal como ele é em si mesmo. Para a dialética materialista, “a teoria é o movimento real do objeto transposto para o cérebro do pesquisador – é o real reproduzido e interpretado no plano ideal (do pensamento)” (NETTO, 2011, p. 21, itálico no original).

De um modo geral, a categoria da totalidade na Ontologia do ser social de Lukács (enquanto um fundamento teórico-metodológico haurido do pensamento de Marx) trata de compreender o “ser-precisamente-assim” de um “complexo de complexos” em interconexão com as legalidades imanentes que o determinam. Nesse sentido, o espelhamento dialético do real no plano do pensamento do indivíduo que investiga o mundo dos homens, se realiza pela mediação dos complexos categoriais ontológicos. Isso, indubitavelmente, representa um avanço para a fundamentação hoje, de um conhecimento científico em bases materialistas que seja capaz de apreender ontologicamente a totalidade das relações constitutivas de um mundo marcado de forma profunda pelas contradições de uma formação social cada vez mais irracional e alienante. Evidenciar a essência dessas contradições e apontar os caminhos para superá-las é a função da categoria da totalidade no marxismo. Lukács, notadamente, foi quem mais avançou nessa direção.

 Por Antonio Marcondes

Doutor em Educação pela UFC, professor substituto da UECE e membro do GPOSSHE.

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REFERÊNCIAS

BENSAÏD, Daniel. Os irredutíveis: teoremas da resistência para o tempo presente. São Paulo: Boitempo, 2008.

JAMESON, Fredric. Valences of the dialectic. London: Verso, 2009.

LYOTARD, Jean François. A condição pós-moderna. 5.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1998.

LUKÁCS, G.  Para uma ontologia do ser social I. São Paulo: Boitempo, 2012.

_________. Para uma ontologia do ser social II. São Paulo: Boitempo, 2013.

NETTO, José Paulo. Introdução ao método de Marx. São Paulo: Expressão Popular, 2011.

WOOD, Ellen Meiksins. O que é a agenda “pós-moderna”?. In: WOOD, Ellen Meiksins e FOSTER, John Bellamy (Orgs). Em defesa da história: marxismo e pós-modernismo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.



[1] No original: “The actuality of Georg Lukács has in recent years always seemend to founder on two concepts: the defense of literary realism and the idea of totality” (JAMESON, 2009, p. 201).

[2] No original: “inseparability between Lukác’s conception of realism and his notion of totality” (Idem, p. 210).

[3] No original: “an argument that now commits us to confront a whole contemporany, poststructural, or even postmodern” (Idem).

[4] No original: “mas sim uma estrutura na qual vários tipos de conhecimento são posicionados, perseguidos e avaliados” (Idem, p. 211).

[5] “A liquidação pós-moderna da totalidade”, esclarece Daniel Bensaïd, “aparece como uma rejeição dogmática das estruturas e dos sistemas. Ela vai contra pesquisas em ciências naturais (biologia ou química orgânica) e sociais (quer se trate de teorias da informação ou do conceito de ecossistema, central no desenvolvimento de uma ecologia crítica)” (BENSAÏD, 2008, p. 89).