terça-feira, 12 de maio de 2026

maio 12, 2026




                                    
NAS TERRAS DE MARX

A casa foi reconhecida em 1904, por meio de uma foto no jornal, e comprada pelo Partido Social-Democrata em 1928. Durante a guerra, os nazistas ocuparam a casa e a transformaram numa gráfica. Mesmo depois do SPD abandonar oficialmente a referência à Marx e à luta de classes, em 1959 (Programa de Godesberg), o Chanceler Wily Brandt estatizou a casa e a converteu num museu. Nos anos 90, o museu passou por certo abandono até o Governo chinês passar a financia-lo.

                                                     Museu Casa de Karl Marx, em Trier. 


Apesar de abrigar o (fraco) museu Karl Marx, o próprio viveu aí só durante um ano, pois em 1819 sua família se mudou para outro imóvel, onde o jovem Marx viveu até 1835. Esta outra casa hoje abriga um loja. Ambos os imóveis foram restaurados, mas as casas escaparam dos bombardeios dos aliados no fim da Segunda Guerra Mundial.

Em Trier, Marx é pop. Vende de tudo nas lojas da cidade.

Trier é uma antiga cidade romana na Alemanha e seu nome romano faz referência a ela como a casa de Augusto na "Terra dos Trevereiros", o povo que habitava então à região. O Imperador Constantino, instaurador do Cristianismo, viveu aí.

Há vários semáforos onde os sinais de pedestre são uma figurinha de Marx...



Certamente esta história cosmopolita de Trier, em algum momento, o centro do mundo ocidental, sede do Império Romano, influenciou tanto o clima liberal que reinava na cidade como a tendência do pensamento de Marx ao universalismo.


Eudes Baima, professor da UECE

segunda-feira, 11 de maio de 2026

maio 11, 2026



Kopnin e a hipótese científica


Pável Vassílyevitch Kopnin (1922-1971) foi um filósofo russo que se destacou no estudo da lógica, da gnosiologia e do método científico. Lutou no Exército Vermelho durante a Segunda Guerra Mundial e entrou para o Partido Comunista da União Soviética em 1943. 


Após a guerra, estudou na Universidade de Moscou, graduando-se em 1944. Trabalhou na Academia de Ciências Sociais do Comitê Central do PCUS. Foi chefe do Departamento de Filosofia da Universidade de Tomsk de 1956 a 1958. 


Kopnin se dedicou ao estudo das questões fundamentais da filosofia da ciência, ao estudo de problemas metodológicos e lógico-gnosiológicos de diferentes ramos da ciência (física, biologia, cibernética), aos problemas que os unem e aos que aparecem no conhecimento interdisciplinar.


De acordo com Kopnin, no livro “Hipótese e verdade”, o materialismo dialético, ao interpretar a essência e a função gnosiológica da hipótese, parte dos seguintes fatores: 1) conhecimento, compreendido como reflexo na consciência humana dos fenômenos da natureza/ sociedade e das leis de seu movimento; 2) a unidade do empírico e do teórico na dinâmica do saber; 3) a verdade como o processo de apreensão do objeto pelo intelecto, e 4) a prática como fundamento, finalidade e critério da veracidade do conhecimento.



maio 11, 2026


 Relendo Karel Kosik


"O mundo da realidade é o mundo da realização da verdade, é o mundo em que a verdade não é dada e predestinada, não está pronta e acabada, impressa de forma imutável na consciência humana: é o mundo em que a verdade devem(...) a história humana pode ser o processo da verdade e a história da verdade". (KOSIK, Karel. Dialética do Concreto . Civilização Brasileira: Rio de Janeiro; São Paulo, 1976)


Um tal pensamento era incompatível com a versão  stalinista da dialética como um método de "descobrimento" de uma verdade estabelecida de uma vez por todas, a verdade da própria burocracia stalinista tcheca.


Após a invasão soviética em 1968, que encerrou a Primavera de Praga, Kosík foi expulso do Partido Comunista da Tchecoslováquia, perdeu sua posição na Universidade de Praga e foi silenciado, sendo considerado um "dissidente" interno, enquanto as ideias de autogestão, cara a uma versão anterior da burocracia iugoslava (Tito) passaram a ser vistas com suspeita pela liderança  tcheca deste período. Kosik apoiara o movimento de renovação encabeçado por Alexander Dubcek, ao lado de outro importante intelectual, Ivan Svitak.


A liberdade de pensamento exercida por Kosik, ele mesmo membro do Partido, discípulo de Lukács, insuspeito de trotskismo ou coisa que o valha,  era incompatível com a prostituição do marxismo operada pelo stalinismo.


Eudes Baima, professor da UECE

domingo, 3 de maio de 2026

maio 03, 2026

 


Aproximações em torno do proletariado no Brasil


De uma maneira mais restrita, pode-se caracterizar o proletariado como a classe dos trabalhadores assalariados que produz mais-valia ou cujo trabalho útil possibilita aos capitalistas a apropriação de uma alíquota de mais-valia social. Portanto, abarca os trabalhadores produtivos e os improdutivos. 


Trabalho produtivo não o trabalho manual (ou relação material direta com a natureza) capaz de produzir mercadoria. Há trabalhadores que produzem mercadorias e não realizam trabalho produtivo, como várias camadas pequeno-burguesas urbanas e o campesinato.


Do ponto de vista do capital, e se trata de trabalhadores na sociedade capitalista, trabalho produtivo é aquele que produz mais-valia. Há trabalhadores técnico-intelectuais que participam da produção material enquanto seus organizadores e que, por receberem salários inferiores, produzem mais. Há finalmente trabalhadores intelectuais que não participam da produção, como médicos, professores e advogados de empresas privadas, e podem produzir mais-valia. Pois, a mercadoria não é uma simples coisa, e sim uma relação social. O desenvolvimento da sociabilidade burguesa (MC, só duas classes), realça a natureza de classe do proletariado frente aos trabalhadores pequeno-burgueses, incorpora extensas camadas da intelectualidade à produção de mais-valia, desenvolve o proletariado de serviços e universaliza o caráter mercantil da força de trabalho.


O proletariado urbano tem uma estrutura interna complexa, na qual se articulam as seguintes camadas: a) proletariado produtivo da esfera material, b) proletariado técnico-produtivo técnico-intelectual e de serviços, c) o proletariado improdutivo e d) o semiproletariado urbano. O proletariado rural se classifica em: a) proletários permanentes, b) proletários volantes e c) semiproletários rurais.


Proletariado Urbano


a) Proletariado produtivo da esfera material urbana (classe operária industrial stricto sensu), composto pelos trabalhadores assalariados que produzem mais-valia no processo de produção de bens materiais. Camada altamente concentrada, possui elementos de qualificação elevada, domina a tecnologia de ponta e responsável pelo funcionamento do coração do capitalismo, através da produção de mercadorias que, inteira ou parcialmente, se destinam a compor o capital constante das empresas. Inclui:


1) O proletariado das indústrias pesadas ou dos meios de produção: extração de matérias-primas minerais e vegetais, petróleo e derivados, máquinas e equipamentos, materiais de transporte rodoviário, ferroviário, aeronáutico e naval, materiais de comunicação, química, metalurgia, materiais de construção, aparelhos de precisão, computadores, têxteis, construção civil, energia elétrica e outros.


2) O proletariado das indústrias de bens de consumo duráveis: equipamento eletrodomésticos e militares, indústria automobilística.


3) O proletariado das indústrias de bens não-duráveis: indústria de roupas, alimentos e água.


4) o proletariado da indústria de estocagem e transportes, porque enquanto a produção de bens materiais representa a transformação da matéria-prima em outro bem – uma mudança interna do objeto de trabalho, a estocagem transforma a situação temporal de um bem e o transporte modifica a situação espacial. Então, o trabalho demandado nesses dois tipos específicos de transformação incorpora-se à mercadoria sob forma de valor adicional. Quando se trata de estocagem, carregamento e transporte de um meio de produção, incorpora valor ao capital constante. Aqui pode-se incluir os trabalhadores de aplicativo, que possuem uma relação assalariada mascarada pelo fetichismo da tecnologia.


b) O proletariado produtivo técnico-intelectual e de serviços, é composto:


1) Pelos técnico-intelectuais assalariados que trabalham no setor produtivo das indústrias de bens materiais – à exceção pequena burguesia e da burocracia gerencial -  produzem valor ao organizar e orientar o trabalho social, e produzem mais-valia ao receber salário inferior à quota parte do valor criado por sua participação na produção coletiva.


2) Trabalhadores manuais e intelectuais das indústrias de serviços comunitários, como hospitais e escolas privadas, telecomunicações, emissoras de rádio, jornais, canais de televisão, gravadoras, empresas cinematográficas e outras. Eles não são meros prestadores de serviço, porque produzem uma mercadoria específica, que pode ser tanto a saúde como o saber, ou um serviço de tipo doméstico. No caso da saúde, trata-se da manutenção e reprodução de uma mercadoria extremamente valiosa que é a força de trabalho, por sinal uma força produtiva. Da mesma forma o ensino. É necessário distinguir o médico, o enfermeiro ou o professor assalariado pela indústria hospitalar ou de ensino, que produzem mais-valia, do médico profissional liberal, com seu consultório, bem como dos enfermeiros e professores particulares que prestam serviços mercantis e fazem parte da pequena burguesia. É radicalmente diferente se a mercadoria é a força de trabalho ou o serviço prestado. Igualmente, deve-se distinguir a trabalhadora da empresa que realiza serviços domésticos de uma empregada doméstica que presta serviços individuais a uma família.


c) O proletariado improdutivo não gera valor-mercadoria, portanto, não produz mais-valia, mas cuja utilidade reside na sua condição de pressuposto da transferência da indústria para o ramo do capital que o assalaria. É composto:


1) Pelos trabalhadores de escritório e do setor improdutivo das indústrias de bens materiais que prestam serviço ao capital, que o assalaria, e não a produzir mercadorias, processo que se desenvolve no setor produtivo.


2) Pelos trabalhadores do comércio no atacado e no varejo, incluindo imóveis. No comércio não se criam bens nem se lhes adiciona valor, apenas se lhes muda a forma de valor-produto para valor-dinheiro. Em troca do trabalho útil dos comerciários de suas empresas, essencial para a circulação mercantil, e portanto, para a realização de mais-valia, os capitalistas do ramo comercial recebem uma alíquota de mais-valia produzida na indústria. Por meio dessa quota-parte, pagam os serviços que são prestados pelos comerciários e reproduzem o seu capital com o restante.


3) Trabalhadores dos bancos e demais empresas que operam com finanças, seguros e capitalização. Nos bancos, os trabalhadores possibilitam a transferência de uma quota-parte de mais-valia industrial para os banqueiros, além de manter o funcionamento do sistema financeiro como um todo.


Proletariado Rural


proletariado rural é constituído pelos trabalhadores produtivos da esfera material no campo tem duas camadas:


a) Os assalariados permanentes, que são fixos nas propriedades agrícolas e sujeitos à mesma instabilidade que atinge o proletariado urbano, agravada pelo grau mais elevado de opressão.


b) Os assalariados temporários, que se distinguem por não vender sua força de trabalho a um mesmo capitalista, mas por migrar de fazenda em fazenda, seccionando sua participação no processo produtivo e vivendo uma situação de insegurança e alienação muito maior.


Frederico Costa, professor da UECE