segunda-feira, 29 de junho de 2026
domingo, 21 de junho de 2026
IDEOLOGIA MACHISTA E FASCISMO
"O Decalogo da bôa esposa" foi publicado na edição nº 3 da revista Anauê!, em agosto de 1935. A publicação, órgão oficial da Ação Integralista Brasileira (AIB), estabelecia 10 "mandamentos" de submissão e conduta com o objetivo de moldar o comportamento das mulheres dentro do ideário fascista brasileiro.
Interessante que passadas mais de nove décadas, tal ideologia fascista permanece sendo reproduzida em ambientes religiosos retrógados e é até apresentada como novidade, como por exemplo, o ignorante movimento red pill.
Eis o texto original:
1. Ama a teu marido acima de todas as coisas, ama a teu próximo o melhor que puderes, mas lembra-te que a tua casa pertence a teu marido e não a teu próximo.
2. Considera o teu marido como hospede de distinção, como um amigo precioso e não como uma amiga à qual se contam os pequenos aborrecimentos da existência. Livra-te dessa amiga se te fôr possível.
3. Que a tua casa esteja em ordem e teu rosto sorridente, quando elle regressar do trabalho. Entretanto se elle não o notar immediatamente, não te aborreças: desculpa-o.
4. Não lhe peças o supérfluo para a tua casa; pede-lhe apenas uma habitação risonha, um pouco de espaço livre e tranquilidade para as creanças.
5. Que as creanças sejam sempre sadias e limpas: tu mesma sê como ellas, sadia e limpa. Que elle sorria, vendo-vos e pense em vós ausente.
6. Lembra-te que o desposaste para a boa e má sorte. Se todo o mundo o abandonar, tu deverás conservar ainda a tua mão nas suas.
7. Se teu marido tem ainda a sua mamãe, lembra-te que nunca serás boa demais nem bastante dedicada para com aquella que o embalou nos braços.
8. Não peças a existência o que ella jamais pode conceder a ninguém: se fores útil, já és feliz.
9. Se a desgraça sobrevem, não desanimes e não desesperes. Tem. confiança em teu marido, e elle terá coragem por dois.
10. Se teu marido se afasta, espera-o. Mesmo se elle te abandonar, espera-o. Porque não és somente a tua mulher, tu ès a honra de teu nome. E um dia elle voltara abençoando-te.
Quem concorda? Quem quer voltar ao passado?
Frederico Costa, professor da UECE
quinta-feira, 4 de junho de 2026
É POSSÍVEL CONHECER A REALIDADE SOCIAL?
A realidade possui um imenso grau de conexões, o que faz com que qualquer fenômeno não possa ser explicado por si mesmo. Na sociedade, por exemplo, a situação concreta de um indivíduo remete, por uma série de mediações, ao que está acontecendo no mundo. Aliás, o indivíduo é um produto social.
Nessa perspectiva, o conhecimento sempre implica em levar em consideração a totalidade social. O conhecimento é sempre o conhecimento da totalidade.
Mas, se o conhecimento é o conhecimento da totalidade, é preciso saber tudo?
Não. Conhecer a totalidade não significa conhecer tudo.
Conhecer a totalidade significa conhecer as leis (regularidades e conexões fundamentais) que regem o movimento social. Pois, a sociedade é uma totalidade estruturada, ou seja, não é um caos regido pelo acaso. Há padrões, dos quais podem se destacar tendências e possibilidades de previsibilidade.
Se conhecermos como funciona determinada totalidade social é possível compreender o movimento de suas partes. Porém, para o conhecimento dos padrões que regem uma sociedade determinada é necessário entender as relações que unem suas partes.
Quer dizer, que o conhecimento da realidade social é, em última instância, o conhecimento das relações sociais. Das relações sociais concretas, com múltiplas determinações, que unem os seres humanos que formam uma sociedade historicamente situada e impõem a esta um movimento dado. De fato, uma sociedade é um conjunto de seres humanos organizados por uma série de relações sociais.
Frederico Costa, Professor da UECE
terça-feira, 12 de maio de 2026
A casa foi reconhecida em 1904, por meio de uma foto no jornal, e comprada pelo Partido Social-Democrata em 1928. Durante a guerra, os nazistas ocuparam a casa e a transformaram numa gráfica. Mesmo depois do SPD abandonar oficialmente a referência à Marx e à luta de classes, em 1959 (Programa de Godesberg), o Chanceler Wily Brandt estatizou a casa e a converteu num museu. Nos anos 90, o museu passou por certo abandono até o Governo chinês passar a financia-lo.
Museu Casa de Karl Marx, em Trier.Apesar de abrigar o (fraco) museu Karl Marx, o próprio viveu aí só durante um ano, pois em 1819 sua família se mudou para outro imóvel, onde o jovem Marx viveu até 1835. Esta outra casa hoje abriga um loja. Ambos os imóveis foram restaurados, mas as casas escaparam dos bombardeios dos aliados no fim da Segunda Guerra Mundial.
Em Trier, Marx é pop. Vende de tudo nas lojas da cidade.
Trier é uma antiga cidade romana na Alemanha e seu nome romano faz referência a ela como a casa de Augusto na "Terra dos Trevereiros", o povo que habitava então à região. O Imperador Constantino, instaurador do Cristianismo, viveu aí.
Há vários semáforos onde os sinais de pedestre são uma figurinha de Marx...
Certamente esta história cosmopolita de Trier, em algum momento, o centro do mundo ocidental, sede do Império Romano, influenciou tanto o clima liberal que reinava na cidade como a tendência do pensamento de Marx ao universalismo.
Eudes Baima, professor da UECE
segunda-feira, 11 de maio de 2026
Kopnin e a hipótese científica
Pável Vassílyevitch Kopnin (1922-1971) foi um filósofo russo que se destacou no estudo da lógica, da gnosiologia e do método científico. Lutou no Exército Vermelho durante a Segunda Guerra Mundial e entrou para o Partido Comunista da União Soviética em 1943.
Após a guerra, estudou na Universidade de Moscou, graduando-se em 1944. Trabalhou na Academia de Ciências Sociais do Comitê Central do PCUS. Foi chefe do Departamento de Filosofia da Universidade de Tomsk de 1956 a 1958.
Kopnin se dedicou ao estudo das questões fundamentais da
filosofia da ciência, ao estudo de problemas metodológicos e
lógico-gnosiológicos de diferentes ramos da ciência (física, biologia,
cibernética), aos problemas que os unem e aos que aparecem no conhecimento
interdisciplinar.
De acordo com Kopnin, no livro “Hipótese e verdade”, o materialismo
dialético, ao interpretar a essência e a função gnosiológica da hipótese, parte
dos seguintes fatores: 1) conhecimento, compreendido como reflexo na
consciência humana dos fenômenos da natureza/ sociedade e das leis de seu
movimento; 2) a unidade do empírico e do teórico na dinâmica do saber; 3) a
verdade como o processo de apreensão do objeto pelo intelecto, e 4) a prática
como fundamento, finalidade e critério da veracidade do conhecimento.
Relendo Karel Kosik
"O mundo da realidade é o mundo da realização da verdade, é o mundo em que a verdade não é dada e predestinada, não está pronta e acabada, impressa de forma imutável na consciência humana: é o mundo em que a verdade devem(...) a história humana pode ser o processo da verdade e a história da verdade". (KOSIK, Karel. Dialética do Concreto . Civilização Brasileira: Rio de Janeiro; São Paulo, 1976)
Um tal pensamento era incompatível com a versão stalinista da dialética como um método de "descobrimento" de uma verdade estabelecida de uma vez por todas, a verdade da própria burocracia stalinista tcheca.
Após a invasão soviética em 1968, que encerrou a Primavera de Praga, Kosík foi expulso do Partido Comunista da Tchecoslováquia, perdeu sua posição na Universidade de Praga e foi silenciado, sendo considerado um "dissidente" interno, enquanto as ideias de autogestão, cara a uma versão anterior da burocracia iugoslava (Tito) passaram a ser vistas com suspeita pela liderança tcheca deste período. Kosik apoiara o movimento de renovação encabeçado por Alexander Dubcek, ao lado de outro importante intelectual, Ivan Svitak.
A liberdade de pensamento exercida por Kosik, ele mesmo membro do Partido, discípulo de Lukács, insuspeito de trotskismo ou coisa que o valha, era incompatível com a prostituição do marxismo operada pelo stalinismo.
Eudes Baima, professor da UECE
domingo, 3 de maio de 2026
Aproximações em torno do proletariado no Brasil
De uma maneira mais restrita, pode-se caracterizar o proletariado como a classe dos trabalhadores assalariados que produz mais-valia ou cujo trabalho útil possibilita aos capitalistas a apropriação de uma alíquota de mais-valia social. Portanto, abarca os trabalhadores produtivos e os improdutivos.
Trabalho produtivo não o trabalho manual (ou relação material direta com a natureza) capaz de produzir mercadoria. Há trabalhadores que produzem mercadorias e não realizam trabalho produtivo, como várias camadas pequeno-burguesas urbanas e o campesinato.
Do ponto de vista do capital, e se trata de trabalhadores na sociedade capitalista, trabalho produtivo é aquele que produz mais-valia. Há trabalhadores técnico-intelectuais que participam da produção material enquanto seus organizadores e que, por receberem salários inferiores, produzem mais. Há finalmente trabalhadores intelectuais que não participam da produção, como médicos, professores e advogados de empresas privadas, e podem produzir mais-valia. Pois, a mercadoria não é uma simples coisa, e sim uma relação social. O desenvolvimento da sociabilidade burguesa (MC, só duas classes), realça a natureza de classe do proletariado frente aos trabalhadores pequeno-burgueses, incorpora extensas camadas da intelectualidade à produção de mais-valia, desenvolve o proletariado de serviços e universaliza o caráter mercantil da força de trabalho.
O proletariado urbano tem uma estrutura interna complexa, na qual se articulam as seguintes camadas: a) proletariado produtivo da esfera material, b) proletariado técnico-produtivo técnico-intelectual e de serviços, c) o proletariado improdutivo e d) o semiproletariado urbano. O proletariado rural se classifica em: a) proletários permanentes, b) proletários volantes e c) semiproletários rurais.
Proletariado Urbano
a) Proletariado produtivo da esfera material urbana (classe operária industrial stricto sensu), composto pelos trabalhadores assalariados que produzem mais-valia no processo de produção de bens materiais. Camada altamente concentrada, possui elementos de qualificação elevada, domina a tecnologia de ponta e responsável pelo funcionamento do coração do capitalismo, através da produção de mercadorias que, inteira ou parcialmente, se destinam a compor o capital constante das empresas. Inclui:
1) O proletariado das indústrias pesadas ou dos meios de produção: extração de matérias-primas minerais e vegetais, petróleo e derivados, máquinas e equipamentos, materiais de transporte rodoviário, ferroviário, aeronáutico e naval, materiais de comunicação, química, metalurgia, materiais de construção, aparelhos de precisão, computadores, têxteis, construção civil, energia elétrica e outros.
2) O proletariado das indústrias de bens de consumo duráveis: equipamento eletrodomésticos e militares, indústria automobilística.
3) O proletariado das indústrias de bens não-duráveis: indústria de roupas, alimentos e água.
4) o proletariado da indústria de estocagem e transportes, porque enquanto a produção de bens materiais representa a transformação da matéria-prima em outro bem – uma mudança interna do objeto de trabalho, a estocagem transforma a situação temporal de um bem e o transporte modifica a situação espacial. Então, o trabalho demandado nesses dois tipos específicos de transformação incorpora-se à mercadoria sob forma de valor adicional. Quando se trata de estocagem, carregamento e transporte de um meio de produção, incorpora valor ao capital constante. Aqui pode-se incluir os trabalhadores de aplicativo, que possuem uma relação assalariada mascarada pelo fetichismo da tecnologia.
b) O proletariado produtivo técnico-intelectual e de serviços, é composto:
1) Pelos técnico-intelectuais assalariados que trabalham no setor produtivo das indústrias de bens materiais – à exceção pequena burguesia e da burocracia gerencial - produzem valor ao organizar e orientar o trabalho social, e produzem mais-valia ao receber salário inferior à quota parte do valor criado por sua participação na produção coletiva.
2) Trabalhadores manuais e intelectuais das indústrias de serviços comunitários, como hospitais e escolas privadas, telecomunicações, emissoras de rádio, jornais, canais de televisão, gravadoras, empresas cinematográficas e outras. Eles não são meros prestadores de serviço, porque produzem uma mercadoria específica, que pode ser tanto a saúde como o saber, ou um serviço de tipo doméstico. No caso da saúde, trata-se da manutenção e reprodução de uma mercadoria extremamente valiosa que é a força de trabalho, por sinal uma força produtiva. Da mesma forma o ensino. É necessário distinguir o médico, o enfermeiro ou o professor assalariado pela indústria hospitalar ou de ensino, que produzem mais-valia, do médico profissional liberal, com seu consultório, bem como dos enfermeiros e professores particulares que prestam serviços mercantis e fazem parte da pequena burguesia. É radicalmente diferente se a mercadoria é a força de trabalho ou o serviço prestado. Igualmente, deve-se distinguir a trabalhadora da empresa que realiza serviços domésticos de uma empregada doméstica que presta serviços individuais a uma família.
c) O proletariado improdutivo não gera valor-mercadoria, portanto, não produz mais-valia, mas cuja utilidade reside na sua condição de pressuposto da transferência da indústria para o ramo do capital que o assalaria. É composto:
1) Pelos trabalhadores de escritório e do setor improdutivo das indústrias de bens materiais que prestam serviço ao capital, que o assalaria, e não a produzir mercadorias, processo que se desenvolve no setor produtivo.
2) Pelos trabalhadores do comércio no atacado e no varejo, incluindo imóveis. No comércio não se criam bens nem se lhes adiciona valor, apenas se lhes muda a forma de valor-produto para valor-dinheiro. Em troca do trabalho útil dos comerciários de suas empresas, essencial para a circulação mercantil, e portanto, para a realização de mais-valia, os capitalistas do ramo comercial recebem uma alíquota de mais-valia produzida na indústria. Por meio dessa quota-parte, pagam os serviços que são prestados pelos comerciários e reproduzem o seu capital com o restante.
3) Trabalhadores dos bancos e demais empresas que operam com finanças, seguros e capitalização. Nos bancos, os trabalhadores possibilitam a transferência de uma quota-parte de mais-valia industrial para os banqueiros, além de manter o funcionamento do sistema financeiro como um todo.
Proletariado Rural
O proletariado rural é constituído pelos trabalhadores produtivos da esfera material no campo tem duas camadas:
a) Os assalariados permanentes, que são fixos nas propriedades agrícolas e sujeitos à mesma instabilidade que atinge o proletariado urbano, agravada pelo grau mais elevado de opressão.
b) Os assalariados temporários, que se distinguem por não vender sua força de trabalho a um mesmo capitalista, mas por migrar de fazenda em fazenda, seccionando sua participação no processo produtivo e vivendo uma situação de insegurança e alienação muito maior.
Frederico Costa, professor da UECE
segunda-feira, 13 de abril de 2026
FORTALEZA DE NOSSA SENHORA DA ASSUNÇÃO.
Oficialmente tem-se como data do aniversário da Cidade de Fortaleza, 13 de Abril 1726, dia da elevação do Povoado a condição de Vila.
Impele-se então uma pergunta, quando surge uma cidade? Quais critérios são considerados ? Existe regra única para determinar o natalício de uma urbe ? Na realidade, essas escolhas ocorrem através de convenções. Cada cidade tem sua história, que é forjada através de um processo, com permanências e rupturas. É complexo acreditar que uma cidade surge em uma data; único local e por uma só pessoa.
O Povoado de Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção está incluso no sistema de colonização portuguesa no Brasil, evidentemente com suas especificidades decorrentes de vários fatores. O Ceará, como capitania da colonia, está inserido em um sistema de exploração conveniente ao mercantilismo português, que tinha como objetivo adquirir riquezas de suas possessões. O território cearense, a princípio, não ofereceu recursos ansiados pelo colonizador, tornando-se assim uma capitania subalterna( primeiro do Maranhão e depois de Pernambuco ). Praticamente, um século após o início do povoamento efetivo de parte do território brasileiro, no Ceará inicia-se , no princípio do século XVII, tentativas de conquistar o espaço territorial. Por não servir aos propósitos econômicos de Portugal, passou a ser objetivado como um ponto militar estratégico, por sua localização litorânea e visando combater os "invasores”, entre eles os franceses no Maranhão.
O açoreano Pero Coelho de Sousa , incumbido dos interesses da Coroa Portuguesa, constrói, em 1603, o Forte de São Tiago na barra do Rio Ceará , que após conflitos seguidos com indígenas fora destruído. Em 1611, chega na mesma região do antigo forte, uma nova expedição, desta vez, comandada por Martim Soares Moreno, construindo um novo forte, denominado de São Sebastião( na Barra do Ceará), também não logrando êxito. Esse foi invadido por holandeses e depois por nativos. Os neerlandeses haviam sido vencidos no Forte São Sebastião pelos indígenas em 1644, voltando ao litoral cearense, desta feita, à margem do Pajeú no ano de 1649, Matias Beck funda o Forte Schoonenborck. Com inúteis tentativas de encontrar riquezas minerais e a saída definitiva dos holandeses de Pernambuco, Beck deixa o Ceará. O antigo forte holandês é assumido pelos portugueses que mudam o nome para Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, daí se desenvolve, em torno do forte, um povoado.
A atividade econômica da capitania em questão, desenvolveu-se como apoio ao Nordeste Açucareiro, o gado vacum servindo como alimento, transporte e força motriz nos engenhos. Com a pecuária, fomentam-se as fazendas que vão estruturando uma sociedade rural, de latifúndios por meio das sesmarias. Muitas vezes um mesmo sesmeiro adquiria várias possessões, isso trouxe consequências como desigualdade social; muitas terras com poucos; a dezimação do indígena e grande proporção ( ex: A Guerra dos Bárbaros ). Ao se findar o século XVII, a Metrópole sente a necessidade de criar uma vila, assim podendo obter o controle maior da capitania, apesar da pecuária desenvolver povoados no interior, a primeira Vila seria no litoral, em 1699 a Carta Régia autoriza a criação da Vila de São de Ribamar. Mesmo com a oficialização não fora decidido o local, gerando uma disputa, principalmente entre Fortaleza, que tinha a força militar e onde vivia o capitão-mor governador. Por outro lado o Aquiraz reivindicava a Vila, já que os homens bons ( grandes fazendeiros ) lá residiam, assim almejando a criação da Câmara Municipal ( poder administrativo de uma vila ). Esse conflito retarda o surgimento da primeira Vila que acaba por ser em Aquiraz em 1713.
O Povoado de Fortaleza descontente com a escolha por Aquiraz, termina sendo contemplado em 1726 com a elevação a condição de Vila. Mesmo com a mudança de categoria, Fortaleza continuava tímida com poucos recursos, ficando assim na qualidade de uma Vila de 3° ordem ( apenas administrativa ), vindo a se desenvolver, com estrutura e elevação a condição de Cidade ( 1823 ) já no século XIX, graças à produção do algodão como mercadoria de grande exportação. Por lei o porto escoador, desse produto, passa a ser de Fortaleza, transformando-a em um centro econômico importante da Província do Ceará. Essencialmente na segunda metade do século XIX, Fortaleza, capital da Província, toma ares de Cidade nos moldes de influência francesa, com seus devidos equipamentos como: ruas em traçados xadrez; edificações no estilo eclético; Cemitério; Estação; Cadeia Pública; Hospital e Praças.
Através desse processo longo, surge Fortaleza, que veio crescendo e "inchando" durante o século XX e no século seguinte desponta como a quarta maior capital do país , com suas desigualdades: concentração de renda com poucos e uma boa parte da população pobre. No final do século XIX e início do XX, a cidade por um lado se desenvolveu econômica e fisicamente; por outro lado com doenças epidêmicas e retirantes do sertão ( devido às secas), vai surgindo um centro excludente onde doentes ( vão para os Lazaretos ) e retirantes para campo de concentração ( como o Pirambu ).
Destarte, é infrutífera a discussão sobre localização de marco zero ou de um fundador, uma cidade como Fortaleza é construída por várias classes sociais e etnias diversas, ao longo do tempo.
sábado, 11 de abril de 2026
A Revolta de Palmares, ou mais precisamente a experiência histórica do Quilombo dos Palmares, deve ser compreendida não como episódio marginal da escravidão brasileira, mas como uma de suas contradições mais profundas.
Contra a interpretação conservadora que reduziu os quilombos a simples focos de fuga, Clóvis Moura demonstrou que a resistência negra constituiu uma força ativa de desgaste estruturante da ordem escravista. Palmares, nesse sentido, não foi apenas refúgio: foi negação prática do escravismo colonial e afirmação concreta de uma outra forma de vida social, fundada na recusa da mercantilização do corpo negro e na reconstrução coletiva da existência negra na América Portuguesa.
Seu significado histórico ultrapassa, portanto, o plano defensivo. Palmares representou a formação de um poder autônomo no interior da colônia, sustentado por trabalho próprio, organização militar, produção coletiva e capacidade de agregação de negros fugidos, indígenas e outros setores oprimidos.
É precisamente aí que sua importância se aproxima da ideia de Revolução Brasileira: não porque já contivesse um programa moderno e acabado de transformação nacional, mas porque exprimiu, em seu tempo, uma ruptura real com a base material da dominação colonial. Ao desafiar a escravidão, Palmares atacava um dos fundamentos centrais da economia, da hierarquia social e do poder político no Brasil.
Palmares demonstra que o escravizado nunca foi elemento passivo da história. Ao contrário: a luta de classes atravessava o escravismo e os quilombos eram sua manifestação mais radical.
Palmares aparece, assim, como capítulo decisivo de uma longa tradição de resistência popular brasileira, na qual os de baixo recusam a ordem que os coisifica. Sua destruição violenta revela, justamente, o temor das classes dominantes diante de seu potencial expansivo.
Inserido de um sistema de negação estrutural da dignidade humana, Palmares permanece como símbolo histórico de insurgência negra e de crítica estrutural à formação escravista do Brasil.
Guilherme Diniz, professor
segunda-feira, 30 de março de 2026
QUAL SUA RAÇA?
Com o aprofundamento da crise da sociedade capitalista e o acirramento da luta de classes a ideologia racista está de volta com o crescimento mundial da extrema direita.
A tese básica do racismo é que traços físicos distintos como a cor e tipo de pele, de olhos e de cabelo, o formato do crânio e estrutura física, além de diferenças aparentes, também indicam níveis diferenciados de inteligência, aptidão, formas de comportamento e moralidade. Quem não conhece o mito do negro estuprador ou da superioridade dos arianos?
Recentemente a ideologia racista vem sendo reforçada com a teoria das diferenças genéticas vem substituindo ou reforçando a ideia de aparência como fator de explicação de uma suposta variabilidade racial.
Ideias racistas têm a função de servir aos interesses das classes dominantes. Discriminar seres humanos por cor de pele, língua, religião ou cultura, em última instância, favorece estruturas econômicas, sociais e políticas de exploração e opressão.
Em contraste, com a perspectiva racista, pesquisas científicas revelam outra realidade.
Não há fronteiras nítidas, biológicas ou culturais, entre grupos humanos. Não há provas de diferenças substantivas baseadas em formas diferentes dos corpos humanos ou hierarquias entre indivíduos baseadas nos genes. Em resumo, a palavra raça não identifica nenhuma realidade fundada no DNA da espécie humana: identidades étnicas e culturais não são determinadas biologicamente (geneticamente). Raças são uma construção social, uma invenção historicamente posta por interesses políticos.
A biodiversidade da espécie humana, que é real, é resultado de fenômenos como: a) mobilidade, há 100 mil anos, aproximadamente, partimos da África e povoamos o mundo; b) fertilidade, de um pequeno grupo humano, em pouco espaço de tempo, chegamos a 8,3 bilhões de pessoas; c) uma espécie muito híbrida e mesclada, com mesmas variações genéticas presentes em toda parte e com frequências diferentes.
Então, não há raças ou hierarquia racial. Raça superior é um mito.
Qual sua raça? Qual minha raça? Nenhuma. Somos momentos específicos da imensa diversidade humana que começou na África. Uma espécie muito jovem, já que a vida na Terra tem pelo menos 4 bilhões de anos. No entanto, uma espécie, que pela capacidade de transformar conscientemente a realidade pode construir um mundo melhor sem racismo, sem opressões e sem a exploração de seres humanos por seres humanos.
Frederico Costa, professor da UECE
sexta-feira, 27 de março de 2026
Revolução abolicionista e
capitalismo dependente e racial
domingo, 15 de março de 2026
A MORAL CONSERVADORA CONTRA A PROTEÇÃO INFANTIL: O CASO QUE EXPÕE AS FISSURAS DO JUDICIÁRIO — QUEM O ESTADO REALMENTE PROTEGE?
Explodiu nas redes sociais a notícia lamentável, inadmissível e estarrecedora da absolvição de um homem de 35 anos acusado de estupro de vulnerável contra uma menina de 12 anos. A decisão, proferida pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais, foi justificada sob o argumento de que o relacionamento mantido entre o acusado e a vítima não teria decorrido de violência, coação, fraude ou constrangimento, mas de um suposto vínculo afetivo, reconhecido e reforçado por pessoas do convívio social daquele espaço, conforme alegado pelo desembargador responsável pelo julgamento das apelações.
O que queremos discutir aqui é o óbvio. O óbvio que tem deixado de ser cumprido, garantido, vivido e efetivado. O artigo 17 do Estatuto da Criança e do Adolescente estabelece que o direito ao respeito consiste na “inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral das crianças e dos adolescentes, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, ideias e crenças, dos espaços e objetos pessoais”. Ao relativizar a vulnerabilidade da vítima, a decisão desloca o eixo da proteção integral da criança para a falsa preservação de um arranjo familiar, como se a existência de um vínculo afetivo pudesse neutralizar a violência estrutural implicada na relação.
É imprescindível evidenciar que tal decisão revela como o sistema jurídico não opera dissociado das determinações estruturais do capital e das ideologias que sustentam a ordem social vigente. Ao privilegiar a manutenção de um núcleo familiar em detrimento da proteção integral da vítima, o Estado reafirma a centralidade ideológica da chamada “família tradicional” como pilar de estabilidade social, ainda que essa estabilidade se construa sobre uma relação profundamente desigual, marcada por assimetrias etárias, de gênero e de poder.
O que se preserva, portanto, não é a infância, tampouco a dignidade da vítima. Relativiza-se, inclusive, o próprio artigo 18 do Estatuto da Criança e do Adolescente, que assegura à criança e ao adolescente o direito de serem protegidos de qualquer tratamento “desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor”. Ao admitir que a formação de um núcleo familiar possa mitigar a violência originária, a decisão não apenas fragiliza a proteção legal, mas contribui para a normalização institucional da violação.
Além de constituir afronta direta aos direitos da criança e do adolescente, o caso expressa mais uma face da violência de gênero historicamente naturalizada. Meninas foram socializadas para o silêncio, para a submissão e para a aceitação de relações com homens mais velhos, frequentemente justificadas por discursos de cuidado, proteção ou responsabilidade afetiva. Situações como essa não são exceções isoladas: integram uma engrenagem social que sexualiza precocemente corpos femininos e legitima relações de poder sob a aparência de normalidade.
A decisão insere-se, portanto, em uma sociedade atravessada por uma cultura de dominação dos corpos de meninas e mulheres, dominação que se intensifica quando se trata de meninas pobres, negras e periféricas. Não se trata de um equívoco interpretativo pontual, mas da manifestação de um sistema que relativiza a violência quando esta se encaixa em padrões moralmente toleráveis ou socialmente aceitáveis.
É preciso afirmar com clareza: quando um caso como este é justificado, naturalizam-se crimes sexuais, emocionais e físicos contra meninas e mulheres. Quando a vulnerabilidade deixa de ser critério jurídico objetivo e passa a ser filtrada por juízos morais, abre-se um precedente perigoso em que direitos deixam de ser garantias e passam a ser negociáveis.
Resta-nos a pergunta incontornável: quem o Estado realmente protege? Em uma sociedade estruturada por desigualdades de classe, gênero e raça, os aparatos institucionais tendem, não raro, a preservar aquilo que perpetua a própria lógica de dominação. Não é a constituição familiar a qualquer custo que elimina a violência; ao contrário, quando o Judiciário flexibiliza a proteção de crianças e adolescentes, reafirma o descaso histórico com a dignidade infantojuvenil.
Enquanto a vida da classe trabalhadora, e de seus filhos e filhas, for tratada como valor relativo, continuaremos a conviver com um Estado que proclama proteção universal, mas opera segundo percursos históricos bem definidos, comprometidos com a manutenção de hierarquias sociais.
Com os pés fincados no presente, é preciso reafirmar: direitos não são concessões morais. Direitos são conquistas sociais, fruto de lutas históricas, que exigem posicionamento firme e defesa inegociável.
Referências
Estatuto da criança e do adolescente. – Brasília: Senado Federal, Coordenação de Edições Técnicas, 2017. 115 p.
Cybely Ribeiro – Pedagoga (UECE); Mestranda em Educação (UECE).
Kelverton Rodrigues – Pedagogo (UFC); Mestrando em Educação (UECE).





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