domingo, 2 de fevereiro de 2020

Nos tempos em que Stalin amava Hitler




O pacto entre Stalin e Hitler não foi acordo espúrio a fim de dar tempo para  a URSS preparar-se ap ataque nazista, como defendem apologistas do estalinismo. Era Trotsky e a Oposição de Esquerda Internacional que propunham a inevitabilidade daquela agressão, desde inícios dos anos 1930. E eram acusados, por isso, pelos estalinistas, de fomentarem a guerra entre os dois países.

Stalin e a direção estalinista acreditavam no respeito por Hitler e pelo nazismo do pacto de não agressão que dividiu a Polônia e abriu as portas à Segunda Guerra Mundial.  Um fato da vida quotidiana da URSS estalinista registra esse breve amor profundo de Stalin, jamais correspondido por Hitler, amante insincero, sinistro e ardiloso, que sempre soube que a URSS era seu maior inimigo.

Margarete Thüring estudou para professora primária, aderiu à Juventude Comunista Alemã e, em 1926, com 25 anos, ao Partido Comunista Alemão. Casou-se com Rafael Buber, ativo camarada de origem judaica, com quem teve duas filhas, separando-se devido ao fato do companheiro se afastar do comunismo. Por sua militância, perdeu a guarda das filhas, em 1928, entregues aos sogros, judeus praticantes.

UM JOVEM CAMARADA

Margarete casou-se a seguir com Heinz Neumann, fundador e alto dirigente do PCA,  diretor-chefe do periódico comunista Bandeira Vermelha (Rote Flame), também ativo quadro da Internacional Comunista. Heinz Neumann caiu em “desgraça”, em 1932, por opor-se à política estalinista para a Alemanha, que subestimava o perigo nazista. A mesma posição defendida, então, pela Oposição de Esquerda Internacional [trotskista]. O casal foi enviado em missão à Espanha e, devido à conquista nazista do governo, em 1933, se radicou em Moscou, em 1935.

Em 27 de abril de 1937, durante o “Grande Terror”, Heinz Neumann foi preso, julgado, condenado à morte e executado no mesmo dia, talvez com o tradicional tiro na nuca. Tinha então 35 anos. Em junho de 1938, foi a vez de Margarete Buber-Neumann. Acusada de atividades contra-revolucionários [trotskistas], foi  condenada a longos anos de trabalhos forçados penosos em campos de concentração estalinistas. É também possível que sua condenação tenha se devido ao fato de ser esposa do alto dirigente comunista, com tradição crítica, com quem debateria as questões políticas alemãs, soviéticas e internacionais.

BEIJO MACABRO DOS NOIVOS

Após o noivado e o casamento Stalin-Hitler, os noivos trocaram presentes logicamente sinistros. Em 1940, Stalin entregou de presente aos nazistas os comunistas alemães presos nas prisões estalinistas. Entre eles, Margarete, extraditada sobre a ponte de Brest-Litovsk, na atual Bielorússia, e enviada ao campo de concentração feminino de Ravensbrück, noventa quilômetros ao norte de Berlim. O mesmo em que estava aprisionada Olga Benário, também comunista alemã, de origem judia, entregue aos nazistas pela polícia política de Getúlio Vargas, com a gentil cooperação do STF da época. Margarete teve melhor sorte que Olga.

Em abril de 1945, com a aproximação do Exército Vermelho, prisioneiras do campo de Ravensbrück foram deixadas em liberdade. Então, Margarete empreendeu viagem a pé, através da Alemanha, procurando  refúgio entre familiares, na Baviera, e se esforçando para não cair nas mãos do Exército Soviético, onde a NKVD era ativa. Temia ser reenviada aos campos de concentração estalinistas, sorte que coube a grande número de comunistas libertados das prisões ou que sobreviveram a repressão nazistas, entre eles, o célebre Leopold Trepper, comunista polonês de origem judaica, organizador da maior rede de espionagem comunista na Europa Ocidental, conhecido como a “Orquestra Vermelha”. Após a guerra, permaneceria em campo de prisioneiro estalinista, por nove anos, mesmo após a morte de Stalin, em 1953!

Após a guerra, Margarete Buber-Neumann assumiu viés político conservador e, a seguir, anti-comunista. O que de se lamentar, mas compreensível. Entre outros, escreveu dois importantes livros de memórias sobre seus anos nos campos de concentração estalinistas e nazistas:  Milena, editado no Brasil, e Sob dois ditadores: prisioneiros de Stalin e Hitler [tradução livre], inédito em português.

Mário Maestri*
Professor da UPF - Universidade de Passo Fundo

*Com a colaboração da linguista italiana Florence Carboni