sexta-feira, 17 de julho de 2026

        QUESTÃO RACIAL NA PERSPECTIVA DIALÉTICO-MATERIALISTA


Octavio Ianni (1926-2004), sociólogo e professor brasileiro que participou da chamada Escola de Sociologia Paulista. Foi professor emérito do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Aposentado pelo Ato Institucional n.º 5 e proibido de dar aulas na USP, foi para a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Integrou a equipe de pesquisadores do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP). Também, foi professor visitante e conferencista em universidades estadunidenses, latino-americanas e europeias. Em 1997 retornou à USP como Professor Emérito. Contudo, devido à indisposição de alguns colegas, preferiu não voltar às salas de aula naquela universidade. Voltou às salas de aula na universidade pública como professor na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde também recebeu o título de Professor Emérito.

Essa breve citação do texto Raça e classe de coletânea publicada em 1966 indica as possibilidades de uma perspectiva totalizante e sustentada em relações presentes em sociedades de classes para a análise de temas como opressão racial, ideologia racista e luta classista antirracista.

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“É postulado nas ciências sociais que nas sociedades de classes, as relações entre os homens são governadas por dois princípios complementares básicos: (a) o regime de propriedade privada dos meios de produção, ou seja, o modo de apropriação do produto do trabalho social; e (b) As relações de dominação-subordinação, geradas pelas condições, manifestações e tendências da divisão do trabalho social, mas fundadas, em última instância, nos tipos de apropriação dos produtos do trabalho coletivo. É com base nesses dois princípios que se organizam e se alteram as relações entre as pessoas, os grupos e as classes sociais, ainda que as substâncias dessas relações se apresentem comumente sob as formas mais díspares e com aparência significativamente diversas. Em consequência, as relações entre determinados grupos humanos surgem à observação superficial como relações de natureza racial ou cultural, como se essas esferas da realidade social possuíssem autonomia e significações determinantes e não derivadas. Então, colocam-se os problemas em termos de preconceito, carreiras, ideologias raciais, como se nesse universo limitado fosse possível descobrir conexões significativas capazes de elucidar a natureza das relações sociais restritivas ou tensas entre grupos étnico-culturais ou raciais relativamente homogêneos. Em outras palavras, como a verdadeira natureza das relações entre esses grupos não é racial ou cultural, a sua explicação científica não pode restringir-se a essa esfera. Ainda que sejam imprescindíveis a análise os elementos os oferecidos pelas manifestações culturais, pelos caracteres étnicos ou raciais, bem como por certos elementos da estrutura demográfica e também as relações sociais e manifestações psíquicas, é fundamental que a explicação não se atenha a essas esferas procurando ao contrário situar-se na totalidade social. Somente quando inserimos o fenômeno, com todas as suas expressões singulares, no sistema global é que a análise realizará a síntese explicativa final, apanhando as suas várias e às vezes díspares  significações.

Note-se que não pretendemos abandonar as contribuições dadas e interpretações correntes, que focalizam a “situação racial” ou as “relações raciais”, como se elas não possuíssem valor senão descritivo. Não é essa a nossa compreensão do tema. Pretendemos, é verdade, colocar a questão em outras bases, focalizando-a em termos de configurações estruturais globais, ultrapassando, portanto, os limites em que tem sido colocada. Mas isto não significa o abandono puro e simples do que se fez no campo da descrição e da explicação dos problemas raciais. Muito pelo contrário, a orientação adotada aqui valorizará as contribuições anteriores, absorvendo implicitamente as suas realizações positivas.” (IANNI, Octavio. Raças e classes sociais no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1966, p. 42-43).

Frederico Costa, professor da UECE