quinta-feira, 6 de outubro de 2022

E agora?


 

De um lado se observa um pedaço da esquerda que esbanja otimismo e grita no ar: só falta 1,57% para elegermos o Lula. De outro, é visível a angústia de outro pedaço da esquerda, achando que tudo está não apenas difícil, mas que a derrota das forças antifascistas está com data marcada. É necessário vencer esses dois extremos. Não é hora de exageros retóricos, mas de uma tática que mova a massa trabalhadora, única via para garantir a vitória da esquerda. Desse modo, neste artigo, lanço uma primeira resposta ao que forças populares se perguntam desde os controversos resultados de 2 de outubro: e agora?


AS DIFICULDADES...

 

Evidentemente não fui o único a ressaltar a importância de vencer no primeiro turno e os perigos de a eleição ser arrastada para segundo turno. A sociedade não está diante de um quadro político-eleitoral simples.

Do lado dos bolsonaristas, há um sentimento de que podem triunfar. A vitória que obtiveram no centro-sul e a eleição de governadores, senadores e deputados pró-Bolsonaro, e, particularmente, a conquista de uma diferença de votos menor do que se supunha em relação a Lula, reforçaram o fascismo para o segundo turno eleitoral.

Do lado da alternativa popular e antifascista, à angústia de não vencer na primeira rodada eleitoral se somam as pressões dos liberais que se declaram pró-Lula no turno final da eleição. Nesse contexto, empresários exigem de Lula um ministro da economia diretamente dos quadros das forças do capital e a manutenção da política dos dividendos da Petrobrás, além da continuidade das contrarreformas. Esses riscos, aliás, já haviam apontado em artigo anterior.

O fato é que essas dificuldades precisam ser consideradas no cálculo das forças que apoiam Luis Inácio Lula da Silva, e elas, decerto, não são incontornáveis.

 

DEMOCRACIA E FASCISMO...

 

O fascismo enfrenta prioritariamente os socialistas e as organizações da classe trabalhadora, tentando, a todo custo, esmagá-los. Mas não guarda qualquer simpatia para com a democracia política, exatamente porque ela é necessária aos explorados em uma sociedade em que a opressão é grande e a liberdade é pequena. Na história brasileira, em que a "cultura democrática”, para parafrasear Noam Chomsky, nunca se mostrou “constante e viva", esse problema assume uma relevância ainda maior.

Hoje por hoje, o Brasil assiste a uma lenta desagregação das liberdades democráticas nas mãos do bolsonarismo. Para esse agrupamento, falar de liberdade tem um nítido caráter instrumental. Liberdade para organizar os seus bandos e usar a violência física para intimidar e aplastar os seus opositores, sobretudo da esquerda, eis em que consiste essa palavra no vocabulário desse movimento fascistóide.

Posto isso, o país está diante de uma disjuntiva: padrão mínimo de civilização ou a barbárie política? Ou dito de outra maneira: prevalecerão as soluções políticas ou as soluções golpistas? Se triunfa a fórmula fascista, o Brasil, no próximo período, pode presenciar a ruptura irreversível com as liberdades democráticas.

Nessa perspectiva, a luta contra o fascismo não é uma abstração. Ela se dá de forma concreta e hoje ela se traduz em uma batalha que coloca frente a frente o representante dessa facção de morte e o nome ungido politicamente pela classe trabalhadora. Perder essa batalha compromete gravemente as próximas fases da luta. Não se pode hesitar ante esse desafio. Mais do que nunca, é necessário estar com Lula para derrotar Bolsonaro.

 

A ESQUERDA, A DEMOCRACIA E O FORTALECIMENTO DA ALTERNATIVA LULA DA SILVA

 

Bolsonaro não só degrada a própria ideia de democracia. Com ele, a democracia sucumbe. Portanto, os democratas precisam apoiar o candidato da esquerda, que pode vencer o facínora no segundo turno, sob pena de compactuar com o processo de degradação das regras, das técnicas e das práticas democráticas.

Os comitês pela democracia, ou o nome que recebam, que foram criados país afora, precisam funcionar a plenos pulmões, marcar atividades, recrutar e mobilizar as pessoas, animá-las, espalhar materiais do Lula, vestir a blusa da candidatura popular, vestir vermelho, colocar adesivos nos carros e bandeiras nas casas, não cair nas provocações, mas, também, não se deixar intimidar.

É possível vencer, mas sem mobilização e sem campanha a tarefa se torna infinitamente mais difícil. Como escreveu um velho revolucionário, é possível vencer, é preciso lutar. O que facilita a caminhada do fascismo é o desânimo do lado de cá. Daí a necessidade de redobrar o ânimo e reforçar a agenda de luta rumo à vitória no segundo turno.

 

AS ÚLTIMAS NOTÍCIAS DO FRONT

 

Há quem se apegue unicamente aos fatos ruins: “não vencemos no primeiro turno”, “cresceram as fake news”, “a extrema direita está mais mobilizada”, “governadores de estados-chave anunciaram apoio ao genocida” etc.

Na razão inversa, há quem se apegue apenas aos bons indicativos. “Ciro e Simone Tebet apoiam agora a candidatura da esquerda”, “a primeira pesquisa sinaliza para o triunfo do Lula”, e, principalmente, “falta só 1,57% para Lula vencer”. Aqui, uma questão precisa ficar nítida: sem mobilização, falta muito. Com ela, falta muito pouco. Está nas mãos do povo derrotar o fascismo eleitoralmente, tarefa que não contrasta em nada com a estratégia de vencer o inimigo por meio da ação direta.

Essa foi a sexta vez que Lula disputou o primeiro turno de uma eleição presidencial, e recebeu a maior votação já obtida por um candidato a presidente, colocando mais de 6 milhões de votos sobre o chefe da rachadinha. A esquerda aumentou a sua bancada no congresso, malgrado a maioria conservadora eleita para o parlamento federal. Como apontado há pouco, Ciro e Tebet já declararam apoio a Lula no segundo turno. A esquerda elegeu um bom número de governadores e pode ampliar a quantidade obtida no primeiro turno. E possível, apoiado nessa estrutura, e, fundamentalmente, nos movimentos sociais, derrotar a chapa golpista. Ou seja, nem todas as notícias são ruins. É possível vencer!


A ESQUERDA E UMA BOA CAUSA

 

Na história, nem sempre as boas causas venceram. Mas isso não é argumento para que se renuncie a elas em nome do medo ou em nome de projetos específicos. E hoje não há causa maior do que derrotar os fascistas no dia 30 de outubro. Prender-se às vacilações dos reformistas e se agarrar às nossas supostas purezas ideológicas, e, neste momento, não ocupar um posto na luta para derrotar Bolsonaro, seguramente, é um erro de expressão histórica, por mais que se jure, de pés juntos, o contrário.

Permitam-me uma ponderação. Os pequenos agrupamentos de esquerda, certamente, não podem ser acusados pelo fato de Lula não haver vencido no primeiro turno. Dentre outras coisas, as modestas votações que obtiveram testemunham isso. Mas, e agora, no segundo turno? Quero crer que as agremiações partidárias de esquerda, que, legitimamente, testaram a sua tática e lançaram os seus candidatos, precisam se somar ao movimento para superar o fascista no segundo turno, e objetivamente, o único modo de fazer isso é apoiando Luís Inácio Lula da Silva. Isso tem uma importância simbólica enorme. O PCB manifestou esse ponto de vista mal a contagem dos votos foi concluída, e tal atitude precisa ser saudada.


UMA ÚLTIMA QUESTÃO

 

Nas ruas, carros luxuosos desfilam, adornados com bandeiras verde-amarelas. A extrema-direita costuma se disfarçar de patriota para levar a cabo o seu projeto brutal e excludente.

Do lado de cá, a grande massa da população trabalhadora pendura pequenas bandeiras em suas moradias e adesivos em carrinhos de pipoca e nos capacetes. Esses exemplos precisam ser multiplicados. Com efeito, é indispensável imprimir maior visibilidade ao candidato do povo pobre e trabalhador. Lula deve estar em cada trabalhador e em cada trabalhadora. É assim que se derrotará o candidato fascista.

No dia 30, queira-se ou não, cada um(a) irá responder à histórica indagação do personagem vivido por Paulo Autran em Terra em transe: qual é a sua classe?

 

Fábio José de Queiroz

Professor do Departamento de história da URCA