segunda-feira, 1 de julho de 2019

O que as mulheres devem a Karl Marx

julho 01, 2019



Texto de 1903, traduzido por Karla Costa e Bruno Rodrigues, e tecnicamente revisado por Frederico Costa, de Clara Zetkin: Selecting writings. Chicago, Illinois: Haymarket Books, 2015, p. 93-94.


No dia catorze de março é o vigésimo aniversário de morte de Karl Marx, em Londres. Engels, cuja vida e luta, por quarenta anos, esteve intimamente ligada à vida de Marx, escreveu, naquele tempo, a seu amigo mútuo, o camarada Sorge, em Nova Iorque:


A humanidade foi sintetizada por uma cabeça, que também passa a ser a cabeça mais significativa de nossos tempos.

Sua avaliação acertou na mosca.

Não pode ser nossa tarefa, no contexto deste artigo, discutir o que Karl Marx outorgou ao proletariado em seu papel de homem da ciência, como um combatente revolucionário e o que ele significa hoje para o proletariado. Se o fizéssemos, nós apenas repetiríamos o que foi escrito durante esses dias na imprensa socialista sobre o trabalho, imensamente fértil, profundamente acadêmico e prático, de sua vida, assim como sobre sua gigantesca e homogênea personalidade que foi tão totalmente dedicada ao serviço do proletariado. Ao invés disso, preferimos indicar o quê o proletariado, melhor ainda, todo o movimento de mulheres, deve a ele.

Com certeza, Marx nunca tratou da questão das mulheres "por si" ou "como tal".No entanto, ele criou as armas mais insubstituíveis e importantes para a luta das mulheres para obter todos os seus direitos.Seu conceito materialista de história não nos forneceu fórmulas prontas sobre a questão das mulheres, mas fez algo muito mais importante: nos deu o método correto e infalível para explorar e compreender essa questão. Apenas o conceito materialista de história nos permitiu compreender a questão das mulheres no interior do fluxo do desenvolvimento histórico universal e à luz das relações sociais universalmente aplicáveis e da sua necessidade e justificação históricas.Só assim, percebemos suas forças motrizes e os objetivos perseguidos por elas, bem como as condições essenciais para a solução desses problemas.

A velha superstição de que a posição das mulheres na família e na sociedade era imutável porque fora sob a base de preceitos morais ou pela revelação divina foi destruída. Marx revelou que a família, assim como todas as instituições e formas de existência, está sujeita a um constante processo de fluxo e refluxo que muda com as condições econômicas e as relações de propriedade que resultam delas. É o desenvolvimento das forças produtivas da economia que impulsionam essa transformação, mudando o modo de produção e entrando em conflito com o sistema econômico e de propriedade predominante. Na base das condições econômicas revolucionadas, o pensamento humano é revolucionado e ele se torna o esforço das pessoas de ajustar sua superestrutura social às mudanças que tomaram lugar na estrutura econômica. Formas petrificadas de propriedade e de relações pessoais devem, então, ser removidas. Essas mudanças são forjadas por meio da luta de classes.

Sabemos pelo prefácio de Engels a seu esclarecedor estudo, A origem da família, da propriedade privada e do Estado, que as teorias e pontos de vista desenvolvidos nesse livro são derivados em boa medida de trabalhos não publicados de Marx, que seu incomparavelmente leal e brilhante amigo o assistia como executor testamentário.

Quaisquer que sejam as partes que podem ser (e deveriam ser) descartadas como hipóteses, uma coisa é certa: Tomado como um todo, esse trabalho contém um número significativo de insights teóricos claros dentro de condições complexas que deram origem às formas atuais de família e de casamento e a influência da economia e das relações de propriedade que estão a elas relacionadas. Isso nos ensina a não apenas julgar corretamente a posição da mulher no passado, mas nos permite compreender as posições legais e constitucionais do sexo feminino hoje.

O capital mostra de forma mais convincente que há forças históricas incessantes e irresistíveis em ação na sociedade atual que estão revolucionando essa situação de baixo para cima e que trarão a igualdade das mulheres.Ao examinar magistralmente o desenvolvimento e a natureza da produção capitalista, até nos seus mais refinados detalhes, descobrindo sua lei de movimento, ou seja, a Teoria do Mais Valor, ele provou conclusivamente em suas discussões sobre o trabalho das mulheres e das crianças que o capitalismo destruiu as bases para a antiga atividade doméstica das mulheres, dissolvendo assim a forma anacrônica da família.Isso fez as mulheres economicamente independentes fora da família e criou um chão firme para sua igualdade como esposas, mães e cidadãs. Mas algo mais é claramente ilustrado pelo trabalho de Marx: o proletariado é a única classe revolucionária que, estabelecendo o socialismo, é capaz de e deve criar os pré-requisitos indispensáveis para a completa solução da questão das mulheres. Além disso, o fato das sufragistas burguesas não quererem nem serem capazes de alcançar a liberação social das mulheres proletárias, eles são incapazes de resolver os novos conflitos sérios que serão travados sobre a igualdade social e legal dos sexos dentro da ordem capitalista.Esses conflitos não desaparecerão até que a exploração do homem pelo homem e as contradições daí decorrentes sejam abolidas.

O trabalho comum de Marx e Engels, O manifesto comunista, resume sumariamente o que O capital nos ensina de maneira acadêmica sobre a desintegração da família e suas causas:

Quanto menos a habilidade e o esforço de força implicados no trabalho manual, em outras palavras, quanto mais a indústria moderna se torna desenvolvida, mais o trabalho dos homens é substituído pelo trabalho das mulheres. Diferenças de idade e sexo não tem mais nenhuma validade social distintiva para a classe trabalhadora. Todos são instrumentos de trabalho, mais ou menos caros para usar de acordo com sua idade ou sexo [...]


Os burgueses rasgam o véu sentimental da família e reduzem a relação familiar a uma mera relação monetária [...]


Nas condições do proletariado, essa velha sociedade já está aniquilada. O proletariado está desprovido de propriedade; sua relação com a mulher e os filhos não tem mais nada em comum com as relações de família burguesas.Qual o fundamento da família atual, da família burguesa? No capital, no ganho privado. Em sua forma completamente desenvolvida, essa família existe apenas entre a burguesia. Mas, esse estado de coisas encontra seu complemento na perda forçada de família entre proletários e na prostituição pública [...]


O palavreado burguês sobre a família e a educação, sobre a santificada correlação entre pais e filhos, torna-se mais repulsiva assim como, pela ação da grande indústria, todas os laços familiares do proletariado são despedaçados, e suas crianças são transformadas em simples artigos do comércio e instrumentos de trabalho [...]

Marx, entretanto, não apenas nos mostra que o desenvolvimento histórico desmorona, mas ele, além disso, ele nos mostra com a vitoriosa convicção de que isto constrói um mundo novo, melhor e mais perfeito.

O capital afirma:

Tão horrendo e repulsivo quanto a desintegração do velho sistema familiar, dentro do capitalismo, parece ser a indústria moderna, envolvendo as mulheres e os jovens de ambos os sexos nos processos de produção socialmente organizados fora da esfera doméstica, tem, no entanto, criado as bases econômicas para uma forma mais elevada de família e de relacionamento entre os dois sexos.

Orgulhosos e com desprezo superior, Marx e Engels, no Manifesto Comunista, contra as suspeitas sujas lançadas sobre este futuro ideal por esta caracterização impiedosa das condições presentes:

O burguês vê em sua mulher um mero instrumento de produção. Ele ouve que os instrumentos de produção devem ser explorados em comum e, naturalmente, não podem chegar a outra conclusão a não ser que a sorte de ser comum a todos também cairá para as mulheres.


Ele não tem sequer uma suspeita de que o ponto real nisto é acabar com o status das mulheres como meros instrumentos de produção.


Para o resto, nada é mais ridículo do que a virtuosa indignação que nossos burgueses fingem ter na comunidade de mulheres seja aberta e oficialmente estabelecida pelos comunistas. Os comunistas não têm necessidade de instaurar uma comunidade de mulheres; elas sempre existiram desde tempos imemoriais.Nossos burgueses, não contentes em ter as esposas e filhas do proletariado a sua disposição, para não falar da prostituição comum, tem grandes prazeres em seduzir as esposas uns dos outros.


Casamento burguês é, na verdade, uma comunidade de esposas e, portanto, no máximo, o que os comunistas poderiam possivelmente reprovar é que eles desejam introduzir, em substituições do que é hipocritamente oculto, uma comunidade de mulheres abertamente legalizada.De resto, é evidente que a abolição das mulheres provém desse sistema, isto é, da prostituição, tanto pública como privada.

O movimento das mulheres, no entanto, deve muito mais a Marx do que o fato de ele, como nenhuma outra pessoa antes dele, lançar luz sobre o doloroso caminho do desenvolvimento que leva o sexo feminino da servidão social à liberdade e da atrofia a uma existência forte e harmoniosa.Por sua profunda e penetrante análise das contradições de classe e suas raízes na sociedade de hoje, ele abriu nossos olhos para as diferenças de interesse que separam as mulheres das diferentes classes.Na atmosfera do conceito materialista de história, a "baboseira amorosa" sobre uma "irmandade" que, supostamente, envolve uma fita unificadora em volta de damas burguesas e de mulheres proletárias, explodiram feito bolhas de sabão cintilantes.Marx nos forjou e nos ensinou a usar a espada que cortou a conexão entre o proletariado e o movimento das mulheres burguesas. Mas ele também forjou a cadeia de discernimento pelo qual o primeiro está inextricavelmente ligado ao movimento trabalhista socialista e à luta de classes revolucionária do proletariado. Assim, ele deu à nossa luta a clareza, a grandeza e a sublimidade de seu objetivo final.

O capital está repleto de uma imensurável riqueza de fatos, percepções e estímulos sobre o trabalho das mulheres, a situação das mulheres trabalhadoras e a proteção legal das mulheres. Ele é um arsenal espiritual inesgotável para a luta por nossas demandas imediatas, bem como para o futuro objetivo exaltado do futuro socialista. Marx nos ensina a reconhecer as pequenas tarefas cotidianas que são tão necessárias para elevar a capacidade de luta das mulheres proletárias.Ao mesmo tempo, ele nos eleva para um objetivo, reconhecendo a grande luta revolucionária do proletariado para conquistar o poder político sem que a conquista de uma sociedade socialista e a liberação do sexo feminino permaneçam sonhos vazios. Acima de tudo, ele nos enche da convicção de que esse é um objetivo exaltado que empresta valor e significado ao nosso trabalho diário.Assim, ele nos salva de perder de vista o grande significado fundamental de nosso movimento quando somos assediadas por uma infinidade de fenômenos individuais, tarefas e sucessos, e corremos o risco de perder nossa capacidade, durante a enervante labuta diária, de ver o amplo horizonte histórico que reflete o alvorecer de uma nova era.Assim como ele é o mestre do pensamento revolucionário, então ele continua sendo o líder da luta revolucionária em cujas batalhas, está o dever e a glória do movimento das mulheres proletárias de lutar.

[Die Gleichheit Stuttgart, 25 de março de 1903]

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Como nasce e morre o fascismo?

junho 26, 2019



A atualidade de uma revolucionária comprometida com a classe trabalhadora, Clara Zetkin

Conhecemos muito pouco das mulheres revolucionárias que nos antecederam. Clara Zetkin é, certamente, um desses nomes que já ouvimos falar. Provavelmente, Zetkin é mais conhecida por sua participação fundamental nas lutas do movimento de mulheres. Algumas de nós podem até ter ouvido falar sobre a proposta de efetivar uma jornada internacional de mulheres que, hoje, está resgatando o caráter revolucionário que lhe originou. Trata-se do 8 de março.

Clara Zetkin nasceu em 5 de julho de 1857, cursou estudos de magistério em Leipzig. Clara foi militante da ala esquerda do Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD) até o rompimento com ele devido ao apoio que o partido deu aos gastos de guerra do governo alemão durante a Primeira Guerra Mundial. Clara não rompeu sozinha. Karl Liebkecht, Fraz Mehring e Rosa Luxemburgo, sua grande amiga e camarada de luta que seria brutalmente assassinada. Militando na Liga Espartaquista, que iria compor a fundação do Partido Comunista da Alemanha (KPD), Clara foi presa diversas vezes por seus esforços contra a guerra.

Taber e Riddell, na edição brasileira de Como nasce e morre o fascismo publicado pela Autonomia Literária em colaboração com a Editora Usina, afirmam que “Clara foi muito além do feminismo”. Na verdade, Clara aprofundou o feminismo ao ser uma mulher militante marxista que compreendeu o seu tempo e trabalhou para superar a sociedade capitalista sem perder de vista o papel e a necessidade de dar conta das pautas específicas das mulheres nesse contexto porque elas não estão descoladas da totalidade da realidade nem são secundárias.

Os documentos centrais da edição da Autonomia Literária são o informe e a resolução de Clara Zetkin apresentados no III Pleno do Comitê Executivo da Internacional Comunista, em junho de 1923. Além desses dois documentos, constam no livro o informe e a resolução de Clara Zetkin para a conferência internacional contra a guerra e o fascismo, em Frankfurt entre 17 e 20 de março de 1923. Um relato de John Riddell sobre o ativismo de Zetkin por uma frente única antifascista que manteve até seu último dia de vida.

No informe de junho de 1923, Clara Zetkin afirma que o fascismo encara o proletariado como um inimigo excepcionalmente perigoso e amedrontador, por isso é dever de todo o proletariado fazê-lo cair não só superando o capitalismo, mas lutando pela sobrevivência para qualquer trabalhador. Contra as visões predominantes de que o fascismo era apenas uma expressão do terror burguês expresso em termos de violência extrema, como foi o caso da vingança contra a Revolução na Hungria cujo sujeitos da violência foram uma casta de oficiais feudais, Zetkin defende que o fascismo é “uma punição de que o proletariado não tenha sustentado a revolução que foi iniciada na Rússia”.

Não está nos marcos do presente texto fazer um resumo detalhado da obra, mas indicar aspectos importantes para que o leitor possa interessar-se pela leitura. Vale apontar algumas questões.

Qual a base do fascismo?

A base do fascismo são as amplas camadas sociais, grandes massas, incluindo o proletariado. Essa base é constituída por amplas massas que perderam a segurança sobre a garantia de sua existência e, com isso, a crença na ordem social. Aqui se inserem as camadas burguesas proletarizadas.

Segundo Zetkin, essas camadas seriam os funcionários públicos, intelectuais burgueses, os pequenos e médios burgueses que tiveram alguma simpatia pelo reformismo apesar de não estar enraizada, mas que a política de coalizão afetou o conjunto do proletariado e as camadas médias. Outro aspecto destacado é que essas camadas médias carecem de qualquer educação teórica, histórica ou política. Essas camadas perderam a fé não apenas na direção reformista, mas no próprio socialismo.

Vale lembrar que Zetkin analisa a situação concreta da Itália e analisa os elementos que já se desenvolvem na Alemanha, por isso ela indica que ele tem características próprias em cada país devido a cada circunstância específica. Dois traços são essenciais: programa revolucionário fraudulento e o uso violento e brutal do terror. O primeiro caso trata das promessas de mudança feitas aos diversos setores da sociedade em comparação com os atos dos fascistas no poder, por isso Zetkin afirma que as promessas dos fascistas são hipócritas.

É importante destacar o aviso que a autora nos dá de que o fascismo é um fenômeno internacional.

Como se dá o caráter de massas do fascismo?

“Essa é a razão pela qual a burguesia oferece a sua mão ao beijo fascista”.

Esse descontentamento e perda de fé no reformismo da Social-Democracia. As massas passam a cair no discurso fascista e acreditar que os elementos mais fortes, em torno da nação fariam o que os reformistas não fizeram. O instrumento para isso seria o Estado acima de todos os partidos e classes remodelaria a sociedade.

A burguesia, então, acolhe o fascismo porque ele é um instrumento de manutenção de seus interesses em meio ao contexto de desintegração da economia e do Estado burgueses. A burguesia nutre o fascismo porque ele oferece a ela um instrumento de força extralegal e paramilitar, pois, destaca Zetkin, a situação exige força, mas o Estado está ruindo.

Quais as raízes do fascismo?

O fascismo é uma expressão da decadência e da desintegração da economia capitalista, um sintoma da dissolução do Estado burguês. Outro fator de destaque é o que Zetkin aponta como a falha de direção do proletariado que traíram a classe trabalhadora com o reformismo, bem como aponta que os partidos comunistas têm sua parcela de responsabilidade pela falta de firmeza e pela responsabilidade nas iniciativas sem escopo.

Como (e quem vai) derrubar o fascismo?

“Esses fatos demonstram que a falência ideológica leva à falência política, e que serão, sobretudo, os próprios trabalhadores que irão rapidamente retomar a compreensão de seus interesses e compromissos de classe”.

Para derrubar o fascismo, aponta Clara Zetkin, não bastam os meios militares, pois é preciso derrotá-lo político-ideologicamente. O fascismo é contraditório por natureza, pois agrega forças conflitantes que o levarão a sua decadência interna e a desintegração. Contudo, isso não pode nos levar à inatividade, ao contrário, devemos agir para acelerar o processo. Para a burguesia, o fascismo só pode servir, nos avisa Zetkin, como uma ferramenta de luta de classes temporariamente.

Combater o fascismo exige superá-lo ideológica e politicamente e uma atividade intensa. Segundo Zetkin, precisamos disputar as massas, as camadas sociais do fascismo. Se não as ganhamos, é preciso neutralizá-las, trabalhar entre elas, mostrar-lhes uma solução que não as faça retroceder. Precisamos ainda, nessa batalha, apresentar o comunismo e os comunistas como aqueles que lutam pelos interesses das massas. É tarefa nossa reorganizar os métodos de agitação e propaganda, produzir uma literatura de acordo com essas tarefas. A autodefesa da classe deve ser priorizada porque o fascismo ataca com violência e deve ser respondido como tal, mas a violência da classe trabalhadora não é individual, mas é a luta de classes.

Não se pode encerrar esse texto sem falar da tática da frente única proletária, pois o fascismo não faz distinção, “tudo o que interessa é que ele se defronte com um proletário com consciência de classe e eles não param até que esteja no chão”. A frente única foi defendida por Zetkin enquanto, para isso, ela teve condições. A burocratização estalinista abandona a frente única como tática de luta antifascista, revogando a Resolução de Zetkin de 1923. A unidade da luta não significa apagamento das diferenças nem abandono do programa revolucionário, mas a necessidade da união de todos aqueles que estão sob ameaça. “O povo trabalhador precisa afirmar-se contra o fascismo”.

Karla Raphaella Costa Pereira
Doutoranda em Educação (PPGE/UECE)

Referências bibliográficas
ZETKIN, Clara. Como nasce e morre o fascismo. Tradução de Eli Moraes. São Paulo: Autonomia Literária, 2019.
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Na edição da Autonomia Literária, você encontrará os textos referidos aqui e poderá ler a Resolução de Clara Zektin aprovada no III Pleno Ampliado do Comitê Executivo da Internacional Comunista de junho de 1923.

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Elementos de materialismo histórico I

junho 21, 2019



Processo de trabalho, processo de produção

A produção de valores de uso é a base da vida social. Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895) no texto A Ideologia Alemã, escrito entre 1845 e 1846, assinalam que o primeiro fato histórico foi a produção de meios indispensáveis para satisfazer as demandas dos homens, isto é, a produção da vida material,

[...] o primeiro pressuposto de toda a existência humana e também, portanto, de toda a história, a saber, o pressuposto de que os homens têm de estar em condições de viver para poder “fazer história”. Mas, para viver, precisa-se, antes de tudo, de comida, bebida, moradia, vestimenta e algumas coisas mais. O primeiro ato histórico é, pois, a produção dos meios para a satisfação dessas necessidades, a produção da própria vida material, e este é, sem dúvida, um ato histórico, uma condição fundamental de toda a história, que ainda hoje, assim como há milênios, tem de ser cumprida diariamente, a cada hora, simplesmente para manter os homens vivos (2007, p. 32-33).

A produção social compreende simultaneamente o processo de interação entre seres humanos e natureza e o conjunto das relações sociais de produção, que surgem e desenvolvem-se historicamente. O processo de interação dos homens com a natureza é o processo de trabalho, que ocorre sempre sob uma forma social determinada.

De acordo com Marx, no Capítulo 5 – O processo de trabalho e o processo de valorização de O Capital- Livro I:

Os momentos simples do processo de trabalho são, em primeiro lugar, a atividade orientada a um fim, ou o trabalho propriamente dito; em segundo lugar, seu objeto e, em terceiro, seus meios (p. 256, 2013).

Ao exercer seus efeitos sobre a natureza exterior modificando-a, os seres humanos modificam também sua própria natureza: desenvolvem suas capacidades no processo de trabalho, enriquecem seus conhecimentos e ampliam as possibilidades de sua aplicação. O significado do trabalho para o desenvolvimento humano é fundamental.

O processo de trabalho [...] em seus momentos simples e abstratos, é atividade orientada a um fim – a produção de valores de uso –, apropriação do elemento natural para a satisfação de necessidades humanas, condição universal do metabolismo entre homem e natureza, perpétua condição natural da vida humana e, por conseguinte, independente de qualquer forma particular dessa vida, ou melhor, comum a todas as suas formas sociais (2013, p. 261).

A matéria da natureza sobre a qual operam os homens no processo de trabalho se denomina objeto de trabalho. A substância, que já sofreu a ação do trabalho, porém, destina-se a uma transformação sucessiva denomina-se matéria-prima, como a madeira já elaborada ou um mineral purificado. Aqui, um esclarecimento, nem todo objeto de trabalho é matéria-prima, ainda que toda matéria-prima seja objeto de trabalho.

Os meios de trabalho são aqueles que os seres humanos empregam para atuar sobre o objeto de trabalho. Entre eles, um papel decisivo corresponde aos instrumentos de trabalho, cujas propriedades mecânicas, físicas e químicas são aproveitadas pelos homens de acordo com os fins a que se propõem.

O que cada coisa será, objeto ou instrumento de trabalho, depende em cada caso concreto de como são utilizados. Com a confecção de instrumentos de trabalho começa o processo de trabalho propriamente dito.

Em sentido amplo, pertencem aos meios de trabalho todas as condições materiais de trabalho, sem as quais este não pode se efetuar. Condição geral para que se realize o trabalho é a terra; são também condições essenciais de trabalho estruturas como edifícios de produção, vias de comunicação e canais. Os resultados do conhecimento social da natureza se encarnam em meios de trabalho e em processos produtivos, na técnica e na tecnologia. O nível da técnica e da tecnologia indica até que ponto a sociedade domina as forças da natureza.

Os meios de trabalho e os objetos de trabalho constituem em conjunto os meios de produção. Os meios de produção e o trabalho dos seres humanos possuem uma relação dialética, condicionando-se mutuamente. Os instrumentos de trabalho, elemento imprescindível a todo processo de trabalho laboral, são sempre produtos de trabalho pretérito. No entanto, sem contato com o trabalho vivo não podem desempenhar a função a que foram destinados e perdem seu significado.

O trabalho vivo tem de apoderar-se dessas coisas e despertá-las do mundo dos mortos, convertê-las de valores de uso apenas possíveis em valores de uso reais e efetivos. Uma vez tocadas pelo fogo do trabalho, apropriadas como partes do corpo do trabalho, animadas pelas funções que, por seu conceito e sua vocação, exercem no processo laboral, elas serão, sim, consumidas, porém segundo um propósito, como elementos constitutivos de novos valores de uso, de novos produtos, aptos a ingressar na esfera do consumo individual como meios de subsistência ou em um novo processo de trabalho como meios de produção (Marx, 2013, p. 260-261).

Então, nem os objetos de trabalho nem os meios de trabalho existem como tais em si, se não são incorporados ao processo de trabalho. Por sua vez, o próprio trabalho, enquanto atividade direcionada ao fim prático de transformar a natureza não existe sem meios de trabalho.

O processo de trabalho não é uma soma mecânica de seus três momentos fundamentais. É nessa unidade de complexos mutuamente condicionados e contraditórios que se efetiva o trabalho, cujo elemento central é o ser humano, com sua atividade orientada a um fim concreto.

O homem é a força que rege o metabolismo com a natureza, do qual é produto e parte constitutiva. Adapta os objetos de trabalho para satisfazer suas necessidades, ou seja, cria bens materiais: alimento, roupas, moradas e outros objetos de consumo pessoal, assim, como instrumentos de trabalho, matérias-primas, materiais auxiliares e outros meios de produção, isto é, objetos de consumo produtivo. O resultado do processo de trabalho é sempre um produto do trabalho. Na perspectiva do resultado final, o trabalho vem a ser o trabalho produtivo e o processo de trabalho, processo de produção.

Tais são a essência e as determinações abstratas do trabalho em geral, independentemente da forma social em que se realize porque a produção de valores de uso ou de bens não sofre nenhuma alteração em sua natureza pelo fato de ocorrer para o capitalista e sob seu controle, para o escravista, para o senhor feudal ou no, comunismo, para a sociedade autogerida.

Frederico Costa
Professor da UECE - Universidade Estadual do Ceará
Diretor do Sindicato dos Docentes da Universidade Estadual do Ceará – SINDUECE/ANDES-SN
Coordenador do Instituto de Estudos e Pesquisas do Movimento Operário-IMO

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Referências bibliográficas

KARL, Marx. O capital: crítica da economia – Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013.
KARL, Marx e ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã: crítica da mais recente filosofia alemã em seus representantes Feuerbach, B. Bauer e Stirner, e do socialismo alemão em seus diferentes profetas (1845-1846). São Paulo: Boitempo, 2007.

Nota de repúdio e solidariedade a Luiz Fernando de Lima Teixeira

junho 21, 2019


Vítima de racismo, tortura e cárcere privado por elementos da guarda patrimonial da Universidade Federal do Ceará - UFC

Nós, do Instituto de Estudos e Pesquisas do Movimento Operário – IMO/UECE, repudiamos o ato de racismo, cárcere privado e tortura sofrido pelo estudante de Ciências Sociais Luiz Fernando de Lima Teixeira, 19 anos, nas dependências do Campus do Pici da Universidade Federal do Ceará.

Luiz Fernando foi sistematicamente agredido, violentado em sua dignidade humana, sofreu tortura física e psicológica. Essa, infelizmente, é a realidade da população negra, especialmente da juventude, nesse país de raízes históricas escravistas coloniais que perpetua o racismo em suas práticas cotidianas e não questiona o quanto dele está difundido em suas instituições.

Nesse sentido, a Universidade Federal do Ceará tem a obrigação de combater práticas racistas em suas dependências sejam elas práticas de funcionários, professores ou de estudantes, bem como de oferecer toda a assistência para Luiz Fernando. Consideramos importante a postura da Comissão de Direitos Humanos em se pronunciar contra o ocorrido, mas que a Reitora também o faça.

O racismo é central para a lógica econômica de exploração da classe trabalhadora pelo sistema capitalista e não é tolerável que não questionemos essa estrutura e os desdobramentos na vida de cada ser humano. Nós, do IMO, nos colocamos à disposição e nos somaremos às fileiras dos atos de repúdio e de apoio a Luiz Fernando.

Instituto do Movimento Operário
Universidade Estadual do Ceará - UECE


Fortaleza, 21 de junho de 2019

Leia post completo de Luiz Fernando no Facebook:

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Uma análise marxista sobre o caso Neymar Jr

junho 17, 2019




Angela Davis, no final de seu artigo "Estupro, racismo e o mito do estuprador negro" [1], faz algumas advertências que, ante de qualquer argumentação, precisam ser reproduzidos aqui e, por esse motivo, seguem.

[...] parece que homens da classe capitalista e seus parceiros de classe média são imunes aos processos judiciais porque cometem suas agressões sexuais com a mesma autoridade incontestada que legitima suas agressões diárias contra o trabalho e a dignidade de trabalhadoras e trabalhadores.

Dada a complexidade do contexto social em que o estupro acontece hoje, qualquer tentativa de tratá-lo como um fenômeno isolado está fadada ao fracasso.

[...] a ameaça de estupro persistirá enquanto a opressão generalizada contra as mulheres continuar a ser a muleta essencial para o capitalismo.

O movimento antiestupro e suas importantes atividades atuais devem ser situados em um contexto estratégico que tenha em vista a derrota definitiva do capitalismo monopolista.

Trinta e oito anos separam o texto de Davis do mais famoso caso da acusação de estupro imputada ao jogador de futebol Neymar Jr. Não escrevo esse artigo para retomar tudo o que foi dito sobre o caso. Acho pertinentes as críticas de Jéssica Milaré [2] publicadas no Esquerda Online sobre a difamação sofrida pela denunciante a partir da prática de pornografia de vingança realizada pelo jogador que se somou a já difundida culpabilização das vítimas de estupro pela sociedade. Em meio às muitas controvérsias sobre a veracidade do estupro, a denunciante já foi condenada pela sociedade.

Peço ao leitor que compreenda o caso acima descrito como um caso singular no interior de uma totalidade. Essa totalidade é a sociedade capitalista do tempo presente. Trinta e oito anos separam o artigo referido de Angela Davis e o caso da acusação de Neymar Jr., mas não há como negar a atualidade da análise da ativista, feminista e marxista estadunidense. Cheguei a esse artigo por indicação da feminista marxista Paula Farias, após assistir à série da Netflix When they see us (Olhos que condenam), escrita e dirigida por Ava DuVernay – em outra oportunidade poderemos, caro leitor, discutir sobre a série.


Voltemos ao nosso caso singular!

Tanto Neymar Jr. quanto sua denunciante são indivíduos concretos e, na concreticidade da vida cumprem papéis. Esses papéis não podem ser abstraídos para se entender o caso e a construção desses seres humanos. Neymar é um jogador de futebol multimilionário que vive das benesses do capitalismo, ou seja, vive da distribuição do resultado da exploração da classe trabalhadora, a mais-valia. Como se não bastasse esse fato, o jogador se alia à ideologia dominante, apoiando e sendo apoiado pelo governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro.

Para termos uma ideia aproximada – porque não consigo nem visualizar tal quantia –, segundo o Globo Esporte [3] de fevereiro deste ano, Neymar tem o quarto maior salário da Europa € 3,06 milhões brutos por mês, o que equivale a R$ 12,9 milhões na cotação atual, enquanto Marta recebe 269 vezes menos que ele [4]. Neymar é, então, um privilegiado. Seu privilégio se origina na acumulação indevida do resultado do trabalho da classe trabalhadora que tem como consequência nossa expropriação, a pobreza, a miséria, a fome, a morte e a subjugação da mulher como classe e como gênero à subalternidade. Neymar é parte do que nos oprime: o capitalismo e seu irmão, o patriarcado.


Chega de exposição, gente!

Muito já foi dito sobre a mulher que acusa Neymar. A vida dela já foi exposta de todas as formas possíveis. É preciso entendê-la também como pertencente a uma classe. Por mais que ela seja modelo, branca, loira e esteja nos padrões que a sociedade capitalista valora como esteticamente belo, ela não é da mesma classe que Neymar. Mesmo que o fosse, como mulher, a avaliação social não seria diferente, pois, fazer parte do gênero feminino, está ligado à lógica de manutenção da sociedade capitalista que precisa nos subjugar, colocar-nos como seres inferiores, confinadas à esfera doméstica e submissas aos homens. A lógica de poder capitalista está intimamente ligada à lógica patriarcal. Elas não se separam. O homem que se vê como classe dominante vê-se também como gênero dominante. Indico aqui a leitura de Davis para compreender como a herança da exploração escravagista e a sexual reverbera na situação das mulheres da própria classe dominante.

Penso que as citações de Davis não estão aqui só para ser um argumento de autoridade sobre o que estou apontando, mas que elas falam por si mesmas. A análise de Davis, fincada no método marxista, não perde de vista um minuto a realidade concreta da sociedade de classes para compreender o fenômeno do estupro e suas consequências nefastas para os homens e mulheres negros da classe trabalhadora, bem como para as mulheres brancas em geral. Como sujeito concreto que é, Neymar pode não ter estuprado essa moça em específico. O grande problema aqui, entretanto, é o fato de ele ser membro de uma classe que compreende a licença e impunidade para fazê-lo.


Qual a nossa verdadeira luta?

Nossa luta, como mulheres da esquerda, não pode estar circunscrita à exigência de leis, investigação e punição para Neymar Jr., nossa luta é para que não existam neymares, pois a segurança de mulheres não depende da atuação do Estado burguês, mas “derrota definitiva do capitalismo monopolista”. Do mesmo modo, mas por vias completamente diferentes, o feminismo pejorativamente chamado de lacração que não perdeu tempo em acusar Neymar de estuprador e exigir punição comete a mesma legitimação do Estado de direito burguês e, também, se equivoca ao fazê-lo. Por isso tenho dito e volto a repetir, chamando as mulheres da esquerda a resgatar o marxismo como método de análise da realidade, que precisamos de teoria revolucionária para o feminismo e que essa, com todas as suas contradições e tendo sido iniciada por um homem, é a ferramenta para construir a mudança de nosso tempo.

Compreendo, então, que não cabe às mulheres de esquerda exigir apuração ou qualquer outro direito burguês ao Neymar, não porque eu possa dizer a priori que ele cometeu o estupro, mas por dois motivos principais, além de tudo o que disse até aqui:

1 – o direito é burguês, portanto ele já está do lado de Neymar, seja ele culpado ou inocente.

2 – se o direito é burguês, exigir que ele seja justo é uma contradição em si porque ele é parcial por natureza.


Para mim, a consequência mais grave de chamar justiça para o caso Neymar por meio da ilusão de que o Estado de direito burguês seja justo, é legitimar o poder dele como órgão da burguesia para punir quanto os únicos que sofrem realmente com o poder de punição do Estado burguês são os homens ou mulheres da classe trabalhadora.

Se Neymar Jr., além de preto, fosse trabalhador pobre, morador de favela, nenhuma vírgula teria sido escrita nenhuma palavra teria sido pronunciada em sua defesa. Se quiserem saber como o capitalismo trata preto-pobre, assistam à série que mencionei no início desse artigo e leiam o artigo de Davis, depois, voltaremos a conversar.

Karla Raphaella Costa Pereira

Doutoranda em Educação (PPGE/UECE)
Artigo publicado originalmente no esquerdaonline.com.br em 17/06/2019.

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[1] DAVIS, Angela. Estupro, racismo e o mito do estuprador negro. In: Davis, Angela. Mulheres, raça e classe. São Paulo: Boitempo, 2016.
[2] MILARÉ, Jéssica. 500 mil motivos contra a difamação da mulher que denunciou Neymar. Esquerda Online. 09 jun. 2019. Disponível em: https://esquerdaonline.com.br/2019/06/09/500-mil-motivos-contra-a-difamacao-da-mulher-que-denunciou-neymar. Acesso em 17 jun. 2019.
[3] GLOBO ESPORTE. Neymar tem o quarto maior salário da Europa, revela jornal. 08 fev. 2019. Disponível em: https://globoesporte.globo.com/futebol/futebol-internacional/noticia/neymar-tem-o-quarto-maior-salario-da-europa-revela-jornal.ghtml. Acesso em: 17 jun. 2019.
[4] VEJA. Salário de Neymar é 269 vezes maior que o de Marta. Disponível em: https://vejasp.abril.com.br/cidades/salario-neymar-marta. Acesso em: 17 jun. 2019.