quinta-feira, 13 de junho de 2019

A crise política brasileira entre árvores e floresta

junho 13, 2019



A importância da greve geral

Recentes revelações do Canal The Intercept estão compondo o quadro do processo de golpe de Estado que teve como ponto culminante a aprovação, em 31 de agosto de 2016, pelo Senado Federal, do impeachmentda presidenta Dilma Rousseff (PT).

Militares, agronegócio, FIESP, grandes meios de comunicação, fundamentalismo religioso, partidos tradicionais (PSDB, Democratas, MDB), movimento reacionário de massas, imperialismo estadunidense, setores da esquerda, Judiciário, Ministério Público e Polícia Federal convergiram em uma frente única reacionária para mudar o capenga regime de Estado Democrático de Direito brasileiro em um mostrengo autoritário em crescimento. O eixo de toda essa operação golpista era o suposto caráter ético e emancipatório da Lava Jato em sua luta contra a corrupção. Aqui é bom lembrar que a “luta contra a corrupção” tem um longo histórico a serviço da reação: Mussolini, Hitler, Plínio Salgado (nosso fascista tupiniquim), a UDN e todos os golpistas de 1964 foram grandes representantes do combate ao comunismo e à corrupção.

Todo o esforço golpista resultou no governo Temer que radicalizou as medidas de austeridade: corte de gastos sociais, desmonte da legislação de direitos trabalhistas, ampliação da mercantilização de serviços fundamentais entre outras ações contra a população trabalhadora. Apesar disso, e de algumas divergências sobre os caminhos da Operação Lava Jato, esta seguia para os meios de comunicação dominantes, em sua cruzada anticorrupção, acima de qualquer suspeita.

Bem, nada como as denúncias do Canal The Intercept para nos trazer à realidade: essa nova árvore ajuda a delinear a floresta macabra do golpismo. O Judiciário é partidário, da reação. O Ministério Público e a Polícia Federal são arbitrários e conspiram com o imperialismo contra minguadas conquistas da maioria da população brasileira. Mecanismos obscuros, próprios de regimes de exceção, vêm à luz do dia: conluios, provas forjadas, perseguição de inocente, procedimentos irregulares. E tudo para evitar a candidatura de Lula à Presidência da República e reestruturar o regime político.

Todo esse mecanismo vai além de um problema de personalidade ou de ética. É uma questão relacionada a própria formação social brasileira e à luta de classes. Infelizmente, o resultado da derrota da ditadura (1964-1985) não superou os mecanismos oligárquicos de poder no Brasil. Houve certos avanços formais e positivos presentes na Constituição de 1988, que expressou uma determinada correlação de forças. Porém, o regime político instaurado sempre foi, em última instância, impermeável às reivindicações populares. A burguesia interna e associada ao imperialismo, que possui como fundamento existencial a superexploração do trabalho, teme qualquer concessão democrática aos trabalhadores. Os mínimos direitos tiveram que ser conquistados com muita luta. Além disso, a origem das classes dominantes brasileiras tem raízes profundas na violenta colonização portuguesa, no latifúndio, na monocultura, na produção voltada para o exterior e na escravidão de africanos. O passado do Brasil é escravista colonial e está presente na estrutura de classes, na cultura e nas instituições.

O impasse atual é que inclusive as conquistas formais e parciais do regime político instaurado pela Constituição de 1988 não interessam às classes dominantes brasileiras e ao imperialismo. A destruição da previdência, a privatização da educação e da saúde, o ataque à demarcação de reservas indígenas, a superexploração do trabalho, a submissão ao imperialismo estadunidense, a repressão aos movimentos do campo,  a opressão de setores sociais (negros, LGBTs, mulheres) e a devastação ambiental, tendem a se chocar com as parcas conquistas democráticas. Daí o governo de extrema-direita de Bolsonaro ter iniciativas mais contundentes para instaurar um Estado a serviço do ultraliberalismo econômico, um Estado mais forte no controle e repressão de movimentos populares para servir aos interesses econômicos da oligarquia financeira, do latifúndio e do imperialismo.

A simbiose entre Moro, Dallagnol e, agora, Fux, que hoje causa horror até em setores liberais, será regra geral se o governo Bolsonaro não for derrotado. Por isso, a importância de parar o Brasil no dia 14. Apenas a iniciativa das multidões, dos milhões que constroem o Brasil cotidianamente pode virar o jogo. Derrotar a destruição da previdência é um passo significativo para barrar o processo de golpe de Estado e seu produto: o governo Bolsonaro. Lula livre! Amanhã, GREVE GERAL!

Frederico Costa
Professor da UECE - Universidade Estadual do Ceará
Diretor do Sindicato dos Docentes da Universidade Estadual do Ceará – SINDUECE/ANDES-SN
Coordenador do Instituto de Estudos e Pesquisas do Movimento Operário-IMO

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Convite ao pensamento crítico

junho 12, 2019



Os homens são, essencialmente, seres ativos. Transformam a natureza para a satisfação de suas necessidades. Nesse processo transformam a si mesmos, suas relações sociais, suas maneiras de agir, suas formas de pensar e ver o mundo.

O pensamento crítico é um tipo de práxis que surgiu para dar resposta às exigências do próprio desenvolvimento social. Embora estivesse presente, de maneira lacunar, em várias culturas, como a chinesa, a hindu, a hebraica e egípcia, por exemplo, foi na Grécia antiga que emergiu de maneira sistemática. O pensamento crítico ou filosófico-científico, isto é, racional, não dogmático e metódico vai nascer nas colônias gregas da Jônia, atualmente Turquia, no século VI a.C.

O pensamento filosófico-científico é uma forma específica de pensar que supera o denominado pensamento mítico.

O pensamento mítico é a maneira pela qual um povo ou comunidade explica sua situação no mundo em que vive. Ele procura responder perguntas como: a origem do mundo, o funcionamento da natureza, o sentido da vida, o fundamento dos valores, a estrutura social, o comportamento dos indivíduos. Sua forma de proceder é por meio de mitos. Incialmente, com base em lendas e narrativas que fazem parte da tradição cultural de um povo ou comunidade. A origem histórica dos mitos é indeterminada e sua forma de transmissão inicial é basicamente oral.

Importante destacar que como tradição cultural o mito configura a própria visão de mundo dos indivíduos, a sua maneira de viver a realidade. E, como o pensamento mítico não exige fundamentação, ele pressupõe adesão: a aceitação dos indivíduos de formas de experiência com o real. Nesse sentido, o mito não se justifica e não se questiona, excluindo outras perspectivas para debater. Daí a tendência do pensamento mítico tornar-se dogmático, autoritário e excludente. Então, ou o indivíduo faz parte da comunidade e aceita a estrutura mítica que explica e justificas sua atividade social ou não pertence a ela.

Um dos elementos centrais da estrutura mítica de pensamento é a explicação da realidade por meio do apelo ao sobrenatural ou ao mistério, levando aos mecanismos do sagrado, da magia e do irracional.

No pensamento mítico há um paradoxo. Por um lado, pretende explicar a realidade para dar plausibilidade a determina práxis social; por outro lado, recorre nessa explicação ao mistério e ao sobrenatural: exatamente àquilo que não pode explicar, que não pode se compreender por estar fora do plano da compreensão humana. Logo, a explicação do pensamento mítico esbarra no inexplicável. É bom destacar que essa estrutura não está confinada apenas à esfera de comportamentos denominados de religiosos, mas apresenta-se, também, sob a forma de discursos seculares e laicos.

Já o pensamento filosófico-científico choca-se com a postura mítica porque procura explicar o mundo pelo próprio mundo, não necessitando de um plano extramundano como fundamento explicativo. Essa é uma postura crítica. O conhecimento e a compreensão da realidade passam a se basear na rebelião contra certezas que parecem óbvias e naturais. O conhecimento nutre-se de uma radical falta de certezas. O pensamento crítico é fluido e capaz de desenvolvimento constante, com capacidade de subverter a ordem das coisas e repensar continuamente o mundo.

A crise do capitalismo gera uma crescente desigualdade social, também, insegurança, respostas desesperadas e alienantes. Proliferam a ideologia anticientífica e o irracionalismo, que servem de fundamento para perspectivas reacionárias e conservadoras da extrema-direita. O pensamento mítico fortalece-se, atualmente, como forma de um “discurso de ódio”, elitista, racista, xenofóbico, machista, lgbtfóbico e anti-intelectual, que ameaça o futuro.

Mais do que nunca é preciso, defender, resgatar, divulgar e utilizar o pensamento crítico. A falta de certeza, a dúvida, a busca pelas raízes das coisas e processos são a força da práxis filosófico-científica, baseada na curiosidade, na revolta e na mudança. É preciso submeter à discussão continua os fundamentos da visão de mundo dominante. Daí a importância de perguntas como estas:

1. Como você sabe que isso é verdade?
2. Quem disse que isso é verdade?
3. Você pode provar que isso é verdade?
4. Há alguma evidência científica ou racional de que isso é verdade?
5. É possível que alguém tenha inventado isso?
6. De que outras formas podemos explicar isso?
7. Isso serve a algum interesse?

Diante da atual conjuntura: vamos pensar criticamente? 
  
Frederico Costa
Professor da UECE - Universidade Estadual do Ceará
Diretor do Sindicato dos Docentes da Universidade Estadual do Ceará – SINDUECE/ANDES-SN
Coordenador do Instituto de Estudos e Pesquisas do Movimento Operário-IMO

terça-feira, 4 de junho de 2019

O 30M esmagou o dia 26 fascista e obscurantista

junho 04, 2019


Foto: roya ann miller

A defesa da educação pública e gratuita encurrala o governo de extrema-direita de Bolsonaro

Neste dia 30 de maio a verdade veio à tona. Apesar da situação reacionária, onde luta-se contra a retirada de direitos, há uma crescente onda de massas contra o governo de extrema-direita de Bolsonaro. A conjuntura indica o acirramento da polarização entre a reação ultraliberal bolsonarista, sustentada pelo imperialismo e pela burguesia interna, e os interesses democráticos e sociais da maioria dos brasileiros.

O governo anticomunista de Bolsonaro iniciou uma verdadeira blitzkrieg[1] contra o povo brasileiro: tentativa de destruição da previdência pública, liberação de agrotóxicos, ataque aos indígenas, bloqueio de recursos para áreas sociais, desmonte de conquistas democráticas, submissão maior aos EUA, aumento da violência no campo, incentivo à opressão das mulheres e LGBTs, arrocho salarial, medidas racistas, perseguição a sindicatos e partidos oposicionistas, obscurantismo generalizado e política econômica que elevou o número de desempregados à cifra de 13,4 milhões. De fato, há uma aceleração da mudança de regime político iniciada com o processo de golpe de Estado de 2016: de um capenga Estado Democrático de Direito avança-se para um “Estado de exceção permanente”.

Porém, tal barbárie não ficou sem resposta. As manifestações do dia 15 de maio transcenderam a defesa da educação e previdência pública, foram verdadeiras mobilizações antigoverno. Como Bolsonaro surfou num movimento de massas reacionário, tentou-se ressuscitá-lo no dia 26 de maio. Grande fracasso, muito dinheiro gasto para atos pífios, personagens grotescos e ações obscurantistas como a retirada da faixa “Em defesa da educação” de prédio da Universidade Federal do Paraná-UFPR.

Bem, hoje pode-se dizer que as ruas foram para esquerda. Novamente atos massivos em várias capitais e capilarizados em inúmeras cidades do interior. Sob a bandeira de não aos cortes na educação e contra a destruição da previdência pública há um importante desenvolvimento político. Percebe-se cada vez mais que o centro é a derrota do projeto da extrema-direita. O “Fora Bolsonaro” transformou-se em algo natural e progressivo.

Agora é acumular forças para o dia 14 de julho. É preciso parar o Brasil. Uma lição, os dias 15 e 30 oferecem: a ação direta e organizada é o caminho para derrotar o governo Bolsonaro. Nenhuma conciliação é possível com golpistas e extrema-direita. Só a luta muda a vida.

NOTAS
[1] Blitzkrieg ou guerra-relâmpago foi uma tática militar em nível operacional, criada pelos nazistas, que consiste em utilizar forças móveis em ataques rápidos e de surpresa, com o intuito de evitar que as forças inimigas tenham tempo de organizar a defesa. Seus três elementos essenciais são o efeito-surpresa, a rapidez da manobra e a brutalidade do ataque, e seus objetivos principais são a desmoralização do inimigo e a desorganização de suas forças.


Frederico Costa
Professor da UECE - Universidade Estadual do Ceará
Diretor do Sindicato dos Docentes da Universidade Estadual do Ceará – SINDUECE/ANDES-SN
Coordenador do Instituto de Estudos e Pesquisas do Movimento Operário-IMO

Artigo publicado originalmente no esquerdaonline.com.br em 02/06/2019 - 11h56min.

Sobre relacionamentos abusivos

junho 04, 2019


Nesta conversa, Karla e Bruno divergem sobre alguns temas a respeito da série da Netflix, YOU (Você), uma série de televisão americana de suspense psicológico desenvolvida por Greg Berlanti e Sera Gamble.

Amizades também podem ser abusivas? A pessoa abusiva tem tendências de psicopatia? A mulher está sempre mais sujeita do que o homem a um relacionamento abusivo? O que são personagens tipicamente cotidianos? Como essa tipicidade constrói a figuração de uma pessoa abusiva?

SINOPSE DA SÉRIE: Guinevere Beck (Elizabeth Lail) é uma aspirante a escritora, que vê sua vida mudar completamente ao entrar em uma livraria no East Village, onde conhece o charmoso gerente, Joe Goldberg (Penn Badgley). Assim que a conhece, Joe tem certeza de que ela é a garota dos seus sonhos, e fará de tudo para conquistá-la — usando a internet e as redes sociais para descobrir tudo sobre Beck. O que poderia ser visto como paixão se transforma em uma obsessão perigosa, uma vez que Joe não vai medir esforços para tirar de seu caminho tudo e todos que podem ameaçar seus objetivos.

sábado, 1 de junho de 2019

Memórias de solidão

junho 01, 2019



Fim de tarde: memórias de solidão...

Por vezes uma aflição metafísica me reprime de tal forma, que sinto uma necessidade extrema de repudiar meu próprio eu... e confesso que por motivações estritamente existenciais, sou quase completamente um pessimista irredutível. 

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Memórias do meu passado lampejam como luz instantânea. Lembro-me de uma cidade petrificada em saudades que me corta o peito como lâmina aguda. 

Uma música triste... e sinto implodir em minha alma um grito de lamúria.

Nos últimos dias o crepúsculo é meu refúgio. Contemplo o fim de tarde e busco alguma inspiração... o barulho do vento tocando as folhas no chão ressoa como uma voz que sussurra. Contudo, minha tranquilidade vira monotonia. Procuro a paz... e difícil é suportá-la. 

XXXX

Fui caminhar ontem pelas ruas vazias onde antes morei e fui feliz. Revi minha antiga casa e contemplei seu abandono... chorei por dentro e, como quem tenta dissimular a dor da saudade, sucumbi em nostalgia lancinante.

Bem que eu poderia encontrar uma razão plausível para suportar minha realidade cotidiana! E encontro. Relembro um poema de Pessoa e, logo me ocorre uma vontade de vida. Extasiado como se tivesse bebido um copo de vinho com avidez... e minha sensibilidade transcende o real. E como um grito em plena noite profunda, eclode em meus pensamentos delírios inefáveis.

Raros momentos de autossuperação.

XXXX

 Continuo buscando caminhos, indefinido como quem se perde para depois encontrar a si mesmo. Deixo vestígios de meus passos nas calçadas da cidade como sinal de quem percorre becos e ruas tentando lapidar o próprio destino.

Irrompe a noite em meu encalço, já não tenho medo. O tempo transcorre bruscamente e, seu aspecto abstrato me atordoa. Sento num banco solitário da praça desolada. O vento frio toca levemente minha face translúcida. Não há ninguém na praça. Na extensão vazia que me circunscreve naufrago em desilusões e tudo é desalento.

E reflito sobre a certeza de si do meu ser essencial...

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 E como o movimento oscilante do mar a vida flui. O peito dilacerado em mágoas vãs... quero ter a certeza de que não preciso exigir indulgência de ninguém, pois não pequei e não acredito em pecado. Apenas me afasto; recolho-me para dentro, sou vulnerável.

Soçobrei em desilusões e agora o encanto se desfaz...

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Um amigo e muitas histórias. Desencontros e reencontros de amizades tecidas sem concessões. Assim, sempre nos lembramos de erros e confissões, que no fundo resultaram de vacilações involuntárias. Mas nem por isso, deixamos de ser sinceros. É patente o sentimento de esperança quando se pensa que na vida, tudo tem um recomeço e um curso constante de idas e vindas.

Com esses pensamentos me confronto com as exigências da vida...

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Difícil seria não sucumbir ante um sofrimento moral. Reconforta-me o fato de pensar que na vida, em certas circunstâncias, sou eu mesmo que tenho que decidir o que fazer ou deixar de fazer, pois, estamos condenados a escolher. Assim, não é difícil assumir que sou responsável pelos meus atos praticados. O que não me aflige quando assumo, terminantemente, todas as consequências das minhas escolhas.

E escolhi viver como quem busca algo sem se furtar das vicissitudes ocasionais...

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No transcurso do tempo, nossas memórias operam repaginações de situações que no fundo, nos fazem ser quem somos efetivamente: sujeitos históricos, porque vivemos em processo de mudança. Desse modo, tomo a liberdade de não predizer o futuro, mas reconfigurar o passado na medida em que estou imerso no devir do presente... 

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Ainda não consigo entender porque a indiferença entre as pessoas é um alento para o orgulho de si mesmo...

E assim, intranquilo, me encontro dentro da noite. Noite de silêncio e vazio... só encontro razões para dizer não sei. 

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Antonio Marcondes dos Santos Pereira
Doutor em Educação (UFC)
Membro do GEM/UFC