terça-feira, 25 de outubro de 2022

O povo, o "padre" e o bandoleiro

outubro 25, 2022

 

 

Neste artigo, trato fundamentalmente de atores dessa reta derradeira de uma campanha eleitoral que pode conduzir o país ou ao gueto definitivo do fascismo ou abrir caminho para afirmação da resistência popular, antessala de um novo momento da luta de classes, no qual as pautas dos pobres da cidade e do campo voltem a adquirir protagonismo.

                                                                                

O POVO TRABALHADOR E A ONDA VERMELHA

 

O povo pode ser acusado de tudo, menos de deserção. As massas populares estão dando uma demonstração de que resistem às ameaças do fascismo e de seu candidato Jair Bolsonaro. Apesar da coação do empresariado, o tristemente célebre assédio pelo voto, a classe trabalhadora insiste em eleger Lula para derrotar o genocida. Esse é o contexto.

Esse sentimento de trabalhadoras e trabalhadores não é obra do acaso. Ele nasce da constatação de que um novo mandato do candidato do PL significaria a última pá de cal nos direitos daqueles(as) que vivem da venda de sua força de trabalho. O plano de desvincular o salário-mínimo e os benefícios da previdência da inflação passada é parte dessa infâmia.

A onda vermelha que ganha as ruas, que aglomera nas esquinas, que balança as bandeiras e, com efeito, enche as praças, escolas e fábricas de esperança, indiscutivelmente, é a resposta de um povo que não deserta e exige o protagonismo de suas pautas.

 

O TEATRO POLÍTICO E OS SALTEADORES

 

O teatro político, contudo, muitas vezes, tenta deslocar o foco para outros cenários e personagens. É aí que aparecem os salteadores de estradas tentando retirar o foco das grandes questões nacionais. No caso concreto da eleição, no Brasil, os personagens adquirem corporeidade nas figuras de um “padre” e de um bandoleiro de colarinho branco.

O “padre” Kelmon, ligado ao Movimento Cristão Conservador (MCC), que foi utilizado como ponto de apoio ao presidente-genocida, recebeu 0,1% dos votos no primeiro turno. O seu papel não era a obtenção de votos, certamente, mas o de atacar a esquerda e, em particular, Luis Inácio Lula da Silva. Esse senhor falava e agia por Bolsonaro. Enquanto as grandes questões eram deixadas de lado, discutia-se a figura desse pária da luta política.

Da mesma forma que o Sr. Kelmon, agora é a vez de Roberto Jefferson “roubar a cena”. Quase que sem exceções os jornalistas e os políticos, as pessoas simples e os agentes do mercado discutem os fuzis e as granadas como a questão mais candente da conjuntura política. Não que não seja importante se discutir o problema, mas jamais separadamente da estratégia e da pauta populares. Essa é uma lição importante que nos deixa a luta política em curso. Aliás, essa questão serve de mote para que possamos definir as nossas tarefas centrais nos próximos dias.

 

QUE FAZER?

 

Sem desprezar esses episódios, os trabalhadores e as suas organizações – partidos, sindicatos, movimentos sociais etc. – devem executar firmemente a sua tarefa: derrotar Bolsonaro no dia 30 de outubro, elegendo Lula Presidente. Elegendo Lula por aumento real no salário-mínimo, pela construção de moradias populares, por investimentos na educação e na saúde, por reformas agrária e pelo cancelamento da lei do teto dos gastos e das demais contrarreformas que torpedearam as conquistas populares.

Por que, porém, as massas do povo não devem desprezar os episódios já citados? Não devem menosprezar precisamente porque eles sinalizam que esse setor belicoso de extrema-direita está disposto a tumultuar a cena política e a reduzir a democracia aos seus desígnios fascistas, até porque já tentaram isso repetidas vezes. Tanto mais vivas e intensas se tornem as batalhas em torno ao segundo turno, mas esse setor provocará, tentando intimidar e desmobilizar o espectro vermelho, único capaz de enfrentar e derrotar as falanges fascistóides.

Em suma, a partir do momento em que de um lado as camadas populares, os estudantes, as mulheres e as demais forças sociais progressistas ganharam as artérias das cidades, alterando o seu cotidiano, e de outro, empresários e fascistas de batina e de terno e gravata buscaram fazer uso de seu poder e de suas prerrogativas, ficaram nítidos três pontos: (1) as vertentes fascistas seguem ativas e nutrem a ideia de um golpe dentro do golpe (2) como decorrência, não resta dúvida de que os planos do “padre”, de Jefferson, de Guedes e de toda massa teocrática, militar, parlamentar e extraparlamentar do fascismo são os de Bolsonaro e, por fim, (3) só o furacão vermelho pode varrer a extrema-direita, dilacerar os seus planos nefastos e abrir caminho para salvaguardar a democracia política e reiterar os direitos da maioria trabalhadora.

 

POR FIM...

 

A prorrogação do projeto fascista significa o sinal mais efetivo da desintegração da democracia política. Por isso, nós, socialistas, não podemos defender as liberdades individuais e coletivas post festum. É preciso fazer isso agora e isso passa, sim ou sim, pela eleição de Lula. Até o dia 30 não haverá tempo para salto alto e acomodação. Só a luta coletiva conduzirá Lula ao triunfo e o triunfo do velho metalúrgico será um triunfo do povo, que será o sujeito da trama política, e não a ralé da sociedade burguesa: o suposto padre, o bandoleiro, o economista neoliberal e o chefe dos salteadores da ultradireita (momentaneamente instalado na presidência da república, e da qual será apeado pelo povo trabalhador).

A faixa de terra recém-adquirida pela mobilização popular necessita ser valorizada, mas ainda é insuficiente. É preciso seguir mobilizando por Lula lá. O dia 30 não pede de nós menos do que isso!

 

Fábio José de Queiroz

Professor do Departamento de história da URCA 

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

E agora?

outubro 06, 2022


 

De um lado se observa um pedaço da esquerda que esbanja otimismo e grita no ar: só falta 1,57% para elegermos o Lula. De outro, é visível a angústia de outro pedaço da esquerda, achando que tudo está não apenas difícil, mas que a derrota das forças antifascistas está com data marcada. É necessário vencer esses dois extremos. Não é hora de exageros retóricos, mas de uma tática que mova a massa trabalhadora, única via para garantir a vitória da esquerda. Desse modo, neste artigo, lanço uma primeira resposta ao que forças populares se perguntam desde os controversos resultados de 2 de outubro: e agora?


AS DIFICULDADES...

 

Evidentemente não fui o único a ressaltar a importância de vencer no primeiro turno e os perigos de a eleição ser arrastada para segundo turno. A sociedade não está diante de um quadro político-eleitoral simples.

Do lado dos bolsonaristas, há um sentimento de que podem triunfar. A vitória que obtiveram no centro-sul e a eleição de governadores, senadores e deputados pró-Bolsonaro, e, particularmente, a conquista de uma diferença de votos menor do que se supunha em relação a Lula, reforçaram o fascismo para o segundo turno eleitoral.

Do lado da alternativa popular e antifascista, à angústia de não vencer na primeira rodada eleitoral se somam as pressões dos liberais que se declaram pró-Lula no turno final da eleição. Nesse contexto, empresários exigem de Lula um ministro da economia diretamente dos quadros das forças do capital e a manutenção da política dos dividendos da Petrobrás, além da continuidade das contrarreformas. Esses riscos, aliás, já haviam apontado em artigo anterior.

O fato é que essas dificuldades precisam ser consideradas no cálculo das forças que apoiam Luis Inácio Lula da Silva, e elas, decerto, não são incontornáveis.

 

DEMOCRACIA E FASCISMO...

 

O fascismo enfrenta prioritariamente os socialistas e as organizações da classe trabalhadora, tentando, a todo custo, esmagá-los. Mas não guarda qualquer simpatia para com a democracia política, exatamente porque ela é necessária aos explorados em uma sociedade em que a opressão é grande e a liberdade é pequena. Na história brasileira, em que a "cultura democrática”, para parafrasear Noam Chomsky, nunca se mostrou “constante e viva", esse problema assume uma relevância ainda maior.

Hoje por hoje, o Brasil assiste a uma lenta desagregação das liberdades democráticas nas mãos do bolsonarismo. Para esse agrupamento, falar de liberdade tem um nítido caráter instrumental. Liberdade para organizar os seus bandos e usar a violência física para intimidar e aplastar os seus opositores, sobretudo da esquerda, eis em que consiste essa palavra no vocabulário desse movimento fascistóide.

Posto isso, o país está diante de uma disjuntiva: padrão mínimo de civilização ou a barbárie política? Ou dito de outra maneira: prevalecerão as soluções políticas ou as soluções golpistas? Se triunfa a fórmula fascista, o Brasil, no próximo período, pode presenciar a ruptura irreversível com as liberdades democráticas.

Nessa perspectiva, a luta contra o fascismo não é uma abstração. Ela se dá de forma concreta e hoje ela se traduz em uma batalha que coloca frente a frente o representante dessa facção de morte e o nome ungido politicamente pela classe trabalhadora. Perder essa batalha compromete gravemente as próximas fases da luta. Não se pode hesitar ante esse desafio. Mais do que nunca, é necessário estar com Lula para derrotar Bolsonaro.

 

A ESQUERDA, A DEMOCRACIA E O FORTALECIMENTO DA ALTERNATIVA LULA DA SILVA

 

Bolsonaro não só degrada a própria ideia de democracia. Com ele, a democracia sucumbe. Portanto, os democratas precisam apoiar o candidato da esquerda, que pode vencer o facínora no segundo turno, sob pena de compactuar com o processo de degradação das regras, das técnicas e das práticas democráticas.

Os comitês pela democracia, ou o nome que recebam, que foram criados país afora, precisam funcionar a plenos pulmões, marcar atividades, recrutar e mobilizar as pessoas, animá-las, espalhar materiais do Lula, vestir a blusa da candidatura popular, vestir vermelho, colocar adesivos nos carros e bandeiras nas casas, não cair nas provocações, mas, também, não se deixar intimidar.

É possível vencer, mas sem mobilização e sem campanha a tarefa se torna infinitamente mais difícil. Como escreveu um velho revolucionário, é possível vencer, é preciso lutar. O que facilita a caminhada do fascismo é o desânimo do lado de cá. Daí a necessidade de redobrar o ânimo e reforçar a agenda de luta rumo à vitória no segundo turno.

 

AS ÚLTIMAS NOTÍCIAS DO FRONT

 

Há quem se apegue unicamente aos fatos ruins: “não vencemos no primeiro turno”, “cresceram as fake news”, “a extrema direita está mais mobilizada”, “governadores de estados-chave anunciaram apoio ao genocida” etc.

Na razão inversa, há quem se apegue apenas aos bons indicativos. “Ciro e Simone Tebet apoiam agora a candidatura da esquerda”, “a primeira pesquisa sinaliza para o triunfo do Lula”, e, principalmente, “falta só 1,57% para Lula vencer”. Aqui, uma questão precisa ficar nítida: sem mobilização, falta muito. Com ela, falta muito pouco. Está nas mãos do povo derrotar o fascismo eleitoralmente, tarefa que não contrasta em nada com a estratégia de vencer o inimigo por meio da ação direta.

Essa foi a sexta vez que Lula disputou o primeiro turno de uma eleição presidencial, e recebeu a maior votação já obtida por um candidato a presidente, colocando mais de 6 milhões de votos sobre o chefe da rachadinha. A esquerda aumentou a sua bancada no congresso, malgrado a maioria conservadora eleita para o parlamento federal. Como apontado há pouco, Ciro e Tebet já declararam apoio a Lula no segundo turno. A esquerda elegeu um bom número de governadores e pode ampliar a quantidade obtida no primeiro turno. E possível, apoiado nessa estrutura, e, fundamentalmente, nos movimentos sociais, derrotar a chapa golpista. Ou seja, nem todas as notícias são ruins. É possível vencer!


A ESQUERDA E UMA BOA CAUSA

 

Na história, nem sempre as boas causas venceram. Mas isso não é argumento para que se renuncie a elas em nome do medo ou em nome de projetos específicos. E hoje não há causa maior do que derrotar os fascistas no dia 30 de outubro. Prender-se às vacilações dos reformistas e se agarrar às nossas supostas purezas ideológicas, e, neste momento, não ocupar um posto na luta para derrotar Bolsonaro, seguramente, é um erro de expressão histórica, por mais que se jure, de pés juntos, o contrário.

Permitam-me uma ponderação. Os pequenos agrupamentos de esquerda, certamente, não podem ser acusados pelo fato de Lula não haver vencido no primeiro turno. Dentre outras coisas, as modestas votações que obtiveram testemunham isso. Mas, e agora, no segundo turno? Quero crer que as agremiações partidárias de esquerda, que, legitimamente, testaram a sua tática e lançaram os seus candidatos, precisam se somar ao movimento para superar o fascista no segundo turno, e objetivamente, o único modo de fazer isso é apoiando Luís Inácio Lula da Silva. Isso tem uma importância simbólica enorme. O PCB manifestou esse ponto de vista mal a contagem dos votos foi concluída, e tal atitude precisa ser saudada.


UMA ÚLTIMA QUESTÃO

 

Nas ruas, carros luxuosos desfilam, adornados com bandeiras verde-amarelas. A extrema-direita costuma se disfarçar de patriota para levar a cabo o seu projeto brutal e excludente.

Do lado de cá, a grande massa da população trabalhadora pendura pequenas bandeiras em suas moradias e adesivos em carrinhos de pipoca e nos capacetes. Esses exemplos precisam ser multiplicados. Com efeito, é indispensável imprimir maior visibilidade ao candidato do povo pobre e trabalhador. Lula deve estar em cada trabalhador e em cada trabalhadora. É assim que se derrotará o candidato fascista.

No dia 30, queira-se ou não, cada um(a) irá responder à histórica indagação do personagem vivido por Paulo Autran em Terra em transe: qual é a sua classe?

 

Fábio José de Queiroz

Professor do Departamento de história da URCA 


terça-feira, 20 de setembro de 2022

Conexões ontológicas entre trabalho e ciência: uma breve aproximação

setembro 20, 2022


De acordo com o físico italiano Carlo Rovelli (2013), se entendermos por “ciência” a investigação sobre uma sistemática atividade experimental então seu início é mais ou menos com Galileu (1564-1642). No entanto, se compreendermos a “ciência” como um conjunto de observações quantitativas e modelos teórico-matemáticos capazes de colocar ordem nessas observações, fornecendo predições corretas então a astronomia matemática de Hiparco (190-120 AEC) e de Ptolomeu (100-170) era uma atividade científica.

Isso significa, numa primeira aproximação, que o termo “ciência” é bastante genérico e depende do nível de amplitude dado a ele. Porém, se olharmos do ponto de vista histórico, os dois momentos indicados revelam a aquisição de um novo instrumento socialmente construído para o conhecimento do mundo pelos seres humanos. Tal processo acompanha o desenvolvimento das forças produtivas, isto é, das capacidades humanas.

Chegando mais perto, é possível afirmar que o núcleo da atividade científica é a compreensão de como o mundo funciona. Mas, aqui surge uma pergunta essencial: por que os seres humanos precisam compreender como o mundo funciona? É algo opcional ou necessário?

Essas perguntas exigem entender uma característica essencial dos seres humanos sintetizada na capacidade de transformar o mundo de maneira subjetivamente orientada. Noutras palavras, os seres humanos transformam a natureza por meio de uma prévia ideação que orienta sua prática produtiva e social, desde as comunidades humanas mais primitivas até o presente.

Essa característica humana, que não existe na natureza, Karl Marx (1818-1883) e seu amigo Friedrich Engels (1820-1895) conceituaram como trabalho, o fundamento dos seres humanos (antropogênese) e da sociedade (sociogênese). Depois, o pensador marxista György Lukács (1885-1971) desdobrou a categoria trabalho em sua estrutura interna e diversas conexões sociais em uma obra clássica: Para uma ontologia do ser social.

Agora, atenção, afirmar que a atividade humana é teleologicamente ou conscientemente orientada não é sinônimo de um dualismo, uma alma (sede da consciência) e um corpo (agente no mundo material). Não existe um espírito tipo Gasparzinho, “o fantasminha camarada”, dissociado do nosso corpo, mas que o comanda. O indivíduo concreto que transforma o mundo para satisfazer suas necessidades é produto de um processo evolutivo natural, de um sistema nervoso complexo e de processos sociais cada vez mais avançados. A consciência é resultado da matéria orgânica e da vida social. Nesse sentido, não há consciência fora do ser biológico e do ser social: não há espírito sem matéria.

Então, segundo a perspectiva aqui desenvolvida, a compreensão subjetiva da realidade é uma necessidade histórica e social das comunidades humanas na busca de sua sobrevivência e da construção de um ambiente humanamente satisfatório. Dessa maneira, a atividade produtiva empurra os seres humanos a uma rudimentar, embrionária e não refletida “práxis científica”.

Benjamin Farrigton (1979), indica progresso intelectual na crescente capacidade dos homens e mulheres primitivos de escolher entre diferentes tipos de pedra, não faltando evidências de acumulação e previsão. O ato de selecionar pedras de acordo com seus propósitos e adaptando-as às suas necessidades revela a relação ontológica entre a atividade consciente de transformar o mundo e a necessidade de compreender as conexões da realidade.

Já o professor de psicologia em Havard, Steven Pinker (2022), vai mais longe ao falar do povo Sã do deserto do Kalahari, na região sul da África. Essa comunidade é classificada como uma das mais antigas do mundo. Seu estilo de vida proporciona um vislumbre de como os seres humanos viveram na maior parte de sua existência, como caçadores-coletores.

Pinker parte dos estudos do cientista Louis Lienberg, especialista em técnicas de rastreamento e pesquisador há décadas do povo Sã, o qual afirma que a razão da sobrevivência desse povo deve-se a uma mentalidade científica. Pinker sustenta que a partir de dados fragmentados, os membros do povo Sã encadeiam o pensamento até chegar a conclusões remotas com uma compreensão intuitiva da lógica, do pensamento crítico, do raciocínio estatístico, da correlação e causalidade, assim como da teoria dos jogos.

Bem, tirando alguns indícios de retroprojeção, Pinker indica a gênese da práxis científica na própria atividade produtiva que faz com que seres bípedes, com capacidade de se livrar do calor pela ausência pelos, com polegares opositores, com capacidade cerebral bem desenvolvida e vida social se tornem humanos.

O povo Sã dedica-se à caça de persistência. Por meio de sua subjetividade articulam suas capacidades sensíveis rastreando pegadas, emanações e dejetos dos animais, e outras pistas, perseguindo a caça até que desabe de exaustão e insolação. E, isso, de forma coletiva e organizada, articulando experiência acumulada, prévia-ideações e uma imagem aproximada do seu ambiente.

Esses fundamentos simples da Ciência no alvorecer da espécie humana, atualmente, por um caminho tortuoso e contraditório, desabrocham nas imagens estonteantes do telescópio espacial James Webb, nas profundezas reveladas da Fossa das Marianas, nas descobertas no coração da matéria, nos horizontes crescentemente ampliados do universo conhecido, nos avanços da neurociência, nas conexões maravilhosas do processo evolutivo da vida, na compreensão dos limites estruturais do capitalismo e nas possibilidades de emancipação social de bilhões de seres humanos.

 

Frederico Costa 

Professor da Universidade Estadual do Ceará – UECE e coordenador do Instituto de Estudos e Pesquisas do Movimento Operário – IMO

 

Referências Bibliográficas

FARRIGTON, Benjamin. Ciencia griega. Barcelona: Icaria Editorial, 1979.

PINKER, Steven. Racionalidade: o que é, por que parece estar em falta, por que é importante. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2022.

ROVELLI, Carlo. Anaximandro de Mileto: o nascimento do pensamento científico. São Paulo: Edições Loyola, 2013.

 

Esse texto refere-se a questões surgidas na disciplina “Materialismo histórico/ontologia do ser social: a questão do método” do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Estadual do Ceará PPGE-UECE, semestre 2022.2

 

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

As posições políticas de Nietzche segundo os ensinamentos de Lukács (parte 2)

setembro 15, 2022

 

  

Conforme já referido no meu último texto, Lukács revela que o abandono das ilusões “democráticas” por parte de Nietzche fica bem nítido na sua obra A Gaia Ciencia, de 1882, que contém uma passagem que é “muitas vezes citada pelos fascistas com entusiasmo compreensível”, pois nessa obra Nietzche “toma posição a favor do princípio da hierarquia e da subordinação militar entre oficiais e soldados e o contrapõe à falta de distinção e de caráter aristocrático da exploração capitalista. De fato, ele (Nietzche) enxerga nessa ausência da forma aristocrática exatamente a razão do surgimento dos socialistas[1], ao afirmar que

 

Se eles (os capitalistas) tivessem, em seu olhar e em seus gestos, a distinção dos aristocratas de nascimento, talvez não existisse o socialismo de massas.”[2]

              

Lukács explica que Nietzche vai ficando cada vez mais áspero e passional em seus escritos - inclinando-se cada vez mais contra os valores democráticos -, pelo fato dele “considerar com um ceticismo cada vez maior a possibilidade de vencer os trabalhadores com os métodos até agora empregados, e por temer fortemente – ao menos naquele dado momento – uma vitória por parte dos trabalhadores. Assim escreve Nietzche em Genealogia da Moral (1887):

 

‘Sujeitemo-nos aos fatos: o povo venceu – ou ‘os escravos’, ou ‘a plebe’, ou ‘o rebanho’, ou como quiser chamá-lo… ‘Os senhores’ foram abolidos; a moral do homem comum venceu… A ‘redenção’ do gênero humano (do jugo dos ‘senhores’) está bem encaminhada; tudo se judaíza, cristianiza, plebeíza visivelmente (que importam as palavras!) A marcha desse envenenamento através do corpo inteiro da humanidade parece irresistível...”[3]     

 

Lukács aponta também que “no decorrer da crescente e cada vez mais vitoriosa resistência dos trabalhadores” na Alemanha de sua época Nietzche “amplia até o paroxismo o seu ódio contra o socialismo e estabelece a forma definitiva de sua antecipação mítica da barbárie imperialista.[4] De fato, isso fica bem patente na seguinte passagem de sua obra O Anticristo:

 

 A quem mais odeio”, “A quem odeio mais da gentalha de hoje? A gentalha socialista, os apóstolos chandalas, que solapam o instinto, o prazer, o sentimento de satisfação do trabalhador com seu pequeno ser – que o tornam invejoso, que lhe ensinam a vingança… A injustiça não está mais nos direitos desiguais, está na reivindicação de direitos iguais.”[5]

 

E, por fim, Lukács explicita que “é algo característico para a mudança do pensamento de Nietzche que ele, no seu último período, em ‘Crepúsculo dos Ídolos, retorne, de maneira explícita, à afirmação segundo a qual a democracia é a forma da decadência do Estado; agora, porém, num sentido decididamente condenatório” e não mais no sentido do pensamento anterior de Nietzche de que a democracia seria algo positivo porque tenderia a realizar a necessária contenção da luta dos trabalhadores. Portanto, Nietzche passa a ver a democracia como uma forma “fraca” de Estado porque no seu entender ela tenderia a permitir a vitória política dos partidos socialistas.

 

O caráter antidemocrático e reacionário do Nietzche maduro também se revela na seguinte passagem de sua obra Crepúsculo dos Ídolos:

 

 A estupidez – no fundo, a degeneração de instinto, que é hoje a causa de toda estupidez – está em haver uma questão dos trabalhadores. Sobre determinadas coisas não se colocam questões: primeiro imperativo do instinto. - Não consigo ver o que se pretende fazer com o trabalhador europeu depois de tê-lo transformado numa questão. Ele se acha bem demais para não pedir cada vez mais, de maneira cada vez mais imodesta. Ele tem, afinal, o grande número a seu favor. Foi-se totalmente a esperança de aí se formar como classe uma espécie modesta e satisfeita do homem, um tipo chinês: haveria racionalidade nisso, seria mesmo uma necessidade. O que se fez? - Tudo para já destruir em gérmen o pressuposto para isso – liquidou-se completamente, com a mais irresponsável leviandade, os instintos mediante os quais o trabalhador se torna possível como classe, possível para si mesmo. Tornaram-no apto para o serviço militar, deram-lhe o direito de associação, o direito ao voto político: como admirar que hoje ele já sinta sua existência como calamidade (expresso moralmente, como injustiça -)? Mas que querem?, pergunto mais uma vez. Querendo-se um fim, é preciso querer também os meios: querendo-se escravos, é uma tolice educá-los para senhores.”[6]

 

Vê-se nessa citação, de forma bem clara, como Nietzche avalia positivamente o trabalhador servil, submisso, passivo, perfeitamente conformado com as suas duras condições de vida, afirmando ainda que esse era, no seu entender, o perfil do trabalhador chinês de sua época. Além da nítida serventia de tal valoração positiva para o domínio de classe da burguesia, a assertiva sobre o “tipo chinês” de trabalhador possui uma conotação racista de existência de raças/povos supostamente inferiores que, por não conseguirem conduzir-se por si mesmos em direção ao progresso, devem ser “guiados” pelas raças/povos supostamente superiores. Essa ideia foi muito utilizada pelos apologistas do imperialismo dos países avançados como justificativa ideológica para a exploração dos países atrasados coloniais ou semi-coloniais. Lembremos que Nietzche apoiou o imperialismo alemão de sua época. Com base, portanto, na obra de Lukács A Destruição da Razão, ora comentada, pode-se verificar que Nietzche justifica a exploração que uma elite ociosa exerce sobre a classe trabalhadora, no plano interno de cada país, da mesma forma que ele justifica a dominação das raças/povos que ele considera inferiores pelas raças/povos que ele considera superiores, no plano das relações entre povos diversos, o que fica claro por seu apoio ao imperialismo alemão de fins do século XIX. Não deixa de ser irônico que justamente a China, com seu espetacular desenvolvimento industrial e tecnológico das últimas décadas, veio a se constituir em importante exemplo histórico de que não existem raças inferiores e superiores que justifiquem o imperialismo dos países capitalistas economicamente avançados.

 

Domingos Sávio

Membro do GPOSSHE



[1]    Lukács, A Destruição da Razão, Ed. Instituto Lukács, p. 293-294

[2]    Nietzche, Werke, Tomo V, p. 77, obra citada por Lukács em A Destruição da Razão, Ed. Institulo Lukacs, p. 293-294.

[3]    Nietzche, Genealogia da Moral, Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Cia das Letras, 1998, p. 28

[4]    Lukács, A Destruição da Razão, Ed. Instituto Lukács, p. 294

[5]    Nietzche, O Anticristo. Cia das Letras: p. 72

[6]    Nietzche, Werke, Tomo VIII, p. 153 (ed. bras.: Crepúsculo dos Ídolos, p. 91)

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

O que é o voto útil?

setembro 14, 2022


Não vou prolongar a agonia do leitor. Voto útil é voto necessário, oportuno, proveitoso. Levamos em conta as circunstâncias para defini-lo. Votar num determinado candidato numa eleição pode não ser útil, e isso pode mudar na hipótese de outra situação política. Assim, é a situação política, em última análise, que define a utilidade ou não do voto. Tudo depende da análise concreta da realidade concreta e não do desejo pessoal ou de uma boa citação. Posto isso, se não há uma receita para todas as circunstâncias da vida, seguramente isso é válido no que toca a esse debate. Vamos a ele!

 

A DISCUSSÃO

 

Essa discussão surgiu a propósito de um movimento que ganhou corpo nos últimos dias e cuja essência se resume em uma frase: é preciso votar em Lula no primeiro turno para derrotar Bolsonaro, antecipando assim o fim da aflição política que se apossou do país. Esse chamado tem alcançado sobretudo eleitores(as) de Simone Tebet e de Ciro Gomes, mas mesmo pessoas que não pretendem votar em qualquer desses dois nomes entraram na discussão, argumentando que o voto útil esvazia o debate ideológico e rebaixa a discussão política e, portanto, não seria legítimo.

A preocupação com a preservação do lugar da ideologia no terreno da prática política é sempre bem-vinda, mas no caso concreto em curso há uma posição ideológica no voto atribuído a Lula, que é votar para derrotar o fascismo no processo eleitoral. Trata-se de uma tarefa enorme e há uma ideologia que a orienta.

Pode-se argumentar, inclusive corretamente, de que o fascismo é um aparelho mobilizador que só pode ser derrotado nas ruas. Perfeito! E por isso devemos deixar uma avenida aberta aos fascistas no campo eleitoral? Mussolini e Hitler não se tornaram governo por meio de golpes de força, mas por intermédio do voto, isto é, da democracia política, e só depois a destruíram, No caso da Itália, o golpe de misericórdia só foi aplicado no contexto do segundo mandato arrancado pelos fascistas. A história não existe apenas para o deleite de poucos. Ela também é um aprendizado. Ela também é pedagógica, ainda que se repita essencialmente como farsa.

Apesar disso, pode-se argumentar, e outra vez corretamente, que Jair Bolsonaro, até agora, no que toca a uma ruptura institucional, rosnou ferozmente, mas ainda não mordeu. O golpe é mais uma ameaça no ar do que um fato concreto. Todavia, os indícios são muito fortes, ou não? Devemos esperar que ele aplique o golpe de força e só então iremos reagir? Só depois de morder, efetivamente, uma fera é uma fera?

Os trabalhadores, embora não teorizem acerca dos perigos, muitas vezes captam os seus sinais antes de dirigentes e de estratos da vanguarda. Não nos esqueçamos que Luis Carlos Prestes, até a véspera do golpe de 1964, negava a possibilidade de que pudesse ocorrer uma ruptura política de feição militar, arguindo a tradição supostamente democrática das FFAA.

Hoje por hoje, até pessoas que denunciam o golpismo bolsonarista, estranhamente, desprezam de modo olímpico a possibilidade de sequer pensar em defender o voto útil no Lula. No entanto, milhões de trabalhadoras e trabalhadores, notadamente os setores mais explorados da classe, que ganham até dois salários-mínimos, estão com Lula pra derrotar Bolsonaro. Eles identificam em Jair Bolsonaro um inimigo poderoso que precisa ser detido e, de fato, enxergam que só elegendo Luís Inácio Lula da Silva derrotarão esse oponente que inspira temor e ódio de classe.

Há quem fale de luta de classes e menospreze o fenômeno social de que Lula recebe o apoio dos estratos mais espoliados da classe que vive da venda de sua força de trabalho, ao passo que o candidato fascista tem maior apoio entre os de maior renda. Esse dado, aparentemente inocente, é uma expressão dos antagonismos de classe que se manifestam também no terreno eleitoral.

O que haveria de vazio ideológico e de instrumentalismo político inconsequente nessa disputa de classe renhida?  

Pode-se levantar um terceiro argumento no sentido de que tudo isso compõe o contexto das ilusões reformistas das massas. Ora, não vamos fazer a classe trabalhadora se desembaraçar de suas ilusões reformistas desprezando o que há de progressivo em sua consciência: o sentimento de unidade para derrotar a alternativa política fascista.

Nessa perspectiva, os ataques conjugados de Ciro e Bolsonaro a Lula demonstram ser um equívoco tomar por “progressista” a candidatura do PDT, quando ela, no discurso e na prática, não só iguala petismo e bolsonarismo, mas favorece o segundo contra o primeiro. No caso da Tebet, os representes do tal mercado aposta as suas fichas para que, ao fim e ao cabo, ela possa alcançar 5 ou 6% e empurrar a eleição para o segundo turno, facilitando o trabalho das forças do capital no sentido de disciplinar ainda mais o programa de Lula.

Ciro e Tebet representam a probabilidade de um segundo turno no qual Bolsonaro pode ser vitorioso ou derrotado (o mais provável) e Lula vigorosamente disciplinado. Mas não é só isso! A decisão para o segundo turno é também o pior cenário, considerando que ela favorece a estratégia fascista de esticar a corda, acentuar a violência e reforçar as ameaças golpistas junto com o discurso de “ordem unida”. Para quem tem onde passar uma chuva, “o quanto pior melhor” é aceitável, mas para as amplas massas da população trabalhadora, que estão na chuva, esse é um cenário de prolongamento da agonia.

 

O NECESSÁRIO ARREMATE

 

Em suma, toda essa exposição vem no sentido de mostrar a legitimidade da posição ideológica e política de votar contra o fascismo, votando no candidato, dentro do campo da esquerda, que pode vencê-lo. Sabemos que Lula defende hoje, como defendeu antes, um projeto de conciliação de classes. Não fomos nós que mudamos, ou o Lula. O que mudou foi a situação política. E essa situação política historicamente regressiva exige de nós não apenas o voto no Lula, mas a menos de 20 dias da eleição, a defesa do voto útil. E se o útil é o necessário, o que é necessário hoje, a não ser derrotar Bolsonaro e o seu projeto fascista?

 

Fábio José de Queiroz 

Professor do departamento de história da URCA - Universidade Regional do Cariri